Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Estado alinha no Onze inicial

15 de Novembro, 2017
O futebol acaba de ter um segundo congresso, privado, porém, aberto. Ficou-se nesse dia a saber de que agentes privados se anima o presente dos destinos do nosso futebol. Veio ao caso a academia da AFA e houve a participação oficial do ministério com direito a discurso.
Mais do que a prosa da praxe, o MINJUD teve o Secretário de Estado a representar a Ministra, por sua vez na África Austral em uma conferência preparatória dos próximos jogos regionais. E se o que foi lido corresponde ao pensamento efectivo do MINJUD, acção de certeza não vai faltar.
E como iniciativa privada que se repetiu, a F3M merece os parabéns não só pela iniciativa, como também por não ser a primeira; ao que me foi dito também têm estado a dar formação e isto é bom saber que existe entre nós. ‘Scouting’ e formação foram por ventura as palavras mais repetidas e que deram realce ao tema da convocatória.
Fiquei a saber sobretudo com que linhas se quer coser este novo gabinete ministerial do desporto, mas também fiquei a saber o principal ‘background’ ou esteira da questão dos talentos.
Íamos na temporada de 2003-4, após termos ganho o CAN Sub-20 2001, tendo gerado muita imaginação e pouca massa. Na época ainda havia quem desconfiasse que estas academias iam servir mais o bolso do dono, ou vender avulsamente os nossos mais promissores jogadores, a tal ponto que nem as geminações e parcerias aceitamos ou nos propusemos seguir.
Felizmente alguém está sempre acordado neste país e por isso vê primeiro, mas, vê mais também. Segundo contava o director da academia, o seu ‘Patrono’ começou por definir
que dali queria ver sair atletas que ascendessem a representar os principais emblemas nas maiores ligas, para um dia virem com força representar o seu país. Havia nisto um toque de clarividência, visionário, e que não via o estrangeiro como aproveitador, mas, como parceiro. E escadote.
A AFA é uma experiência única entre nós e mundialmente conquistou em 2014 o top do Futebol de Sete, modalidade ideal para o desenvolvimento de talentos infantis e jovens. O treinamento rendeu que alguns jovens começaram a poder ficar fora e estagiar em grandes clubes, ao mesmo tempo que despontaram conquistando torneios com a camisola da AFA.
Para mim tem igualmente realce a adopção de um modelo que já se havia visto inclusive nos grandes da Europa, ao implementar academias com aproveitamento integral e integrado, isto é, dando aulas nas pausas do treino e preparando além do atleta, o homem. A AFA aí sofisticou um pouco mais.
Ter quatro linhas de autocarro, conversa acertada para os atletas estudarem nas escolas mais próximas da academia, três refeições por dia e um acompanhamento social e psicológico, para além de explicações das dificuldades escolares e apoio nos trabalhos de casa, poucas academias em Angola poderiam dar. A AFA emprega 44 técnicos entre desportivos, médicos e pedagogos.
Realmente, onde em Angola haveria neste momento a disponibilidade de 44 desses técnicos?
Essa foi uma questão que saltou-me à vista, se haveria mesmo naquela sala 44 treinadores certificados e a precisar de emprego? Alguns, sim, mas nem tantos. E tal é a exiguidade do mercado, onde o número de habilitados, mas desempregados, não excederia nunca em Angola os quarenta.
Serve isso para vermos quão poucos somos ainda. O homem, afinal, é o maior problema da caça de talentos e das largas à massificação desportiva, pois, são precisos monitores, que não se fazem em menos de 4 anos, se quisermos formar professores de educação física e monitores para a iniciação desportiva. Mas, nunca, com o INEF no estado em que está, a começar pela docência.
A primeira reacção que se contou no congresso teria vindo do Bié, que queria ter também uma academia igual à AFA, pois, acreditava assim também chegar lá aos píncaros; porém, um debalde, pois o contexto da AFA não se deve voltar a repetir e os 44 técnicos de futebol habilitados nem Angola toda tem; e duvido mais, do que acredite estar errado.
No fundo serviu este congresso e a pretexto de se falar em detecção de talentos e treinamento de academia, para percebermos que não temos o pressuposto principal, que são os recursos humanos, a par de uma demografia mais favorável e menos marcada pela fuga maciça de juventude para a capital do país.
Então e assim, vamos ter ainda de falar de ‘dois países’ e de ‘dois casos’; dum lado, o país avaliado por Luanda e medido ao longo do litoral, e doutro, o chamado interior; dali provinham jovens que se destacavam tanto em jogos de sala, como de campo, casos do futebol e atletismo. E havia alguns clubes regionais, mas nem todos estão a ressurgir. Mas existe ali muito para o futebol. Mas, não para conseguir repetir AFAs.
Ali no interior, onde vão faltar mais quadros que no litoral, é onde podem ser criados os mais bem sucedidos núcleos de integração desportiva, pois, é sadia a juventude do planalto e semi-planalto, e seriam boas tais envolventes de um projecto em que Bié, Lunda-Sul, Moxico – e sobretudo Menongue que dizem não ter desporto – estivessem entre as praças contempladas com projectos desportivos em regime de internato, espécie de colégio onde se estuda e treina.
O Centro-Norte e o Centro-Sul de Angola precisariam a breve trecho de ter uma espécie de colégio dos maristas, pois, esse foi um dos berços mais fortes de altetas que um dia se destacaram em Angola, que viveu sempre num limbo do desporto profissionalizado.
Não sou política, mas os Maristas foram um casamento em que o ensino saiu acreditado e o desporto era bem introduzido. Houve outros colégios, nomeadamente aqueles que já fizeram fomento para o basquetebol e voleibol, no Lubango, em Benguela. Actualmente alguns colégios introduzem a educação física e recreativa, porém, é difícil lograr competir e desenvolver.
Voltando ao congresso e aos talentos, acreditei que o Kuito vai continuar desiludido na sua pretensão, a menos que o seu governador ice essa bandeira do exemplo futuro. Eles conseguiriam reunir meios e mobilizar forças para tal, por isso, se acredita sempre em um certo bairrismo dos governadores, como acenderam na sua terra os generais Liberdade e Higino, para dar dois exemplos.
Huambo e Benguela parecem ter abandonado essa via do desenvolvimento desportivo através do bairrismo. E sem bairrismo não se cresce no movimento desportivo, porque falta a base social de apoia, os filhos desta, a juventude local galvanizada e mobilizada, afinal, desporto só é caro porque o entendem encarecer assim, quase inacessivelmente para os pequenos grupos desportivos e que alguns acreditam ser uma forma de os grandes prevalecerem e ditarem as regras.
Uma vez esclarecido o que era necessário sobre a origem, os meios e o sucesso da AFA, decerto fica também esclarecido por que o Bié e quem quiser ter a sua ‘afa’ vai precisar primeiro de criar um ‘espírito Zédú’ lá na sua província, a ver se em 14 anos estará a dar frutos, como fez a AFA.
O mesmo passa-se com o futebol. O lado mais escondido da crise nunca foi a falta de talentos, nem de fundos, nem
de campos, mas, de homens com iniciativa. E entre esses, monitores habilitados, ou tardará a haver o desporto que sonhamos, e talvez nos fiquemos pela mera recreação...
Em boa hora se veio falar de caça de talentos, para que muitos não pensem ser somente uma coisa de jeito e de faro; é uma coisa de faro que requer estudo, percepção, cognição e certeza do que se faz com um corpo e a sua psique para poder adestrar uma criação ou jovem para realizar um jogo ou desporto.
Estamos a falar de uma especialidade e da sua devida especialização, antes de repetirmos em coro que também já fomos jogadores e sabemos todos fazer isso de ensinar. Ou de descobrir. O banco da escola é imprescindível recordar para aqueles que dizem que sabem, mas podem ter esquecido, ou ficado desactualizados.
A plateia estaria cheia tanto de curiosos, como de ansiosos, de falidos, endividado ou empobrecidos, porém, era um dia de oxigénio de borla para as ideias do futebol, tendo sido também assim que se ouviu, também, o primeiro discurso sobre política desportiva pronunciado pelo novo MINJUD.
E, no final, todos aqueles necessitados, entre muito poucos abastados e que se contaram pelos dedos de uma mão apenas, eram na sua maioria agentes do futebol semi-paralisados e ansiosos de poder sorrir, antes de saírem dali.
E não foi para menos, se atendermos às palavras de alento desportivo que havia levado para o encontro o porta-voz da Ministra e Secretário de Estado do Desporto, Carlos Almeida, ele próprio, um antigo atleta angolano de elite.
Realmente, nunca até então, se ouvira a vibração das novas cordas vocais do MINJUD. Pelo menos, dava para perceber que o Estado estava presente e a dar mostras de engajamento.
E era o mínimo que se poderia esperar do ministério em relação à iniciativa privada do congresso, a que se haviam
associado primeiro forças como a federação (FAF) e a própria AFA no papel de academia de referência. E as parcerias público-privadas devem trazer vantagem sob a forma de proveito quando é mostrado trabalho, iniciativa e optimismo.
No pessimismo que ronda actualmente o desporto, não se irão descobrir oportunidades e aqueles agentes privados do Futebol pareciam todos do clube do optimismo, quando conseguiram juntar ali o MINJUD e agentes desportivos.
Voltarei para falar disso no próximo número desta crónica e comentário semanal, que entrou hoje no segundo ano da sua existência e com o número 55, que entendi intitular ‘O Estado no Onze inicial’ por ser o principal jogador da equipa do desporto. E também, o dono da bola.
ARLINDO MACEDO

Últimas Opinies

  • 19 de Março, 2020

    Escaldante Girabola

    O campeonato nacional de futebol da primeira divisão vai dobrando os últimos contornos. A presente edição, amputada face a desqualificação do 1º de Maio de Benguela, abeira-se do seu fim . Entretanto, do ponto de vista classificativo as coisas estão longe de se definirem. No topo, o 1º de Agosto e o Petro travam uma luta sem quartel pelo título.

    Ler mais »

  • 17 de Março, 2020

    Cartas dos leitores

    Estamos melhor do que nunca. A pressão é para as pessoas que não têm arroz e feijão para comer. Estamos sem pressão, temos todos bons salários e boas condições de trabalho. Estamos numa situação de privilégio e até ao último jogo tivemos apenas duas derrotas.

    Ler mais »

  • 17 de Março, 2020

    Jogos Olmpicos2020

    A suspensão de diferentes competições desportivas a nível mundial em função do coronavírus, já declarada pela OMS-Organização Mundial da Saúde como Pandemia, remete-nos, mais uma vez, a reflectir sobre a realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Pelo menos até aqui, o COI-Comité Olímpico Internacional mantém de pé a ideia de realizar o evento nos prazos previstos.

    Ler mais »

  • 14 de Março, 2020

    FAF aquece com eleies

    Cá entre nós, o fim do ciclo olímpico, tal com é consabido, obriga, por imperativos legais, por parte das Associações Desportivas, de um modo geral e global, a realização de pleitos eleitorais para a renovação de mandatos.

    Ler mais »

  • 14 de Março, 2020

    Cartas dos Leitores

    Acho que o Estado deve velar por essas infra-estruturas.

    Ler mais »

Ver todas »