Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Estar todos os dias a aprender...

01 de Novembro, 2018
O mundo não é perfeito nem o futebol. O melhor é virar a página, que o ‘Girabola’ está a começar. Os militares estão como tropa sem férias. E a mudar de estratega, entretanto.
A confederação, essa, tem todos os olhos postos na final. Assim e sem notícias de ressaca é porque o Janni apitou errado e fê-lo ao serviço de um critério possivelmente não dele apenas, já que parece ter caído perfeitamente no entendimento da sua chefia. E quando assim acontece não há outro risco para o árbitro a não ser voltar a cá parar algum dia.
São várias as teorias que levam a tirar conclusões, porém, nenhuma será tão forte quanto a do dinheiro. Isto tem a ver com o facto das federações estarem modernamente a ser geridas e pensadas como grandes corporações, empresas de uma indústria em franca prosperidade, onde os pequenos contam sempre, até porque também votam, porém, nunca são todos iguais entre si.
Coloque-se por hipótese, em Luanda, o Espérance ter sofrido um golo controverso como aquele que lhe marcámos ao minuto 81 da segunda mão, que nos teria dado a final; no mesmo dia, o correio e as ‘hotlines’ (linhas de comunicação de crise) haveriam de esquentar e uma coisa seria certa, o Primeiro de Agosto iria para casa dormir sobre uma vitória que na manhã seguinte não seria mais sua. Mas não foi isso o que o Espérance levou para a cama, na noite de Tunis.
Eles dormiram tranquilos e decerto tranquilizados. Infelizmente não temos abertos no futebol os corredores que eles, tunisinos. Esta nossa debilidade deve-se igualmente a sermos do grupo linguístico mais pequeno da confederação. E possivelmente o menos significativo quando toca a discutir famílias no futebol.
Sem dominarmos línguas não ‘estaremos’ lá verdadeiramente. Recordo aqueles que na ressaca da eliminação militar vieram reclamar uma atitude do angolano membro da comissão executiva da CAF, porém, ele nada poderia fazer excepto esperar por uma próxima reunião, ou, então, pôr-se a disparar mensagens para aqueles que estivessem na sua agenda e dizer-lhes que Angola estava indignada, porém, o mais provável seria responderem-lhe em maioria “c’est le sport, Rui!” (é o desporto, Rui...).
Mesmo dominando línguas, é preciso conhecer as grandes correntes e ir construindo pontes entre elas, assim como ir preenchendo buracos e vazios donde se possa extrair algum capital político aumentado aos poucos, para se começar a ter uma voz ouvida. E de preferência em alinhamento com o pensamento do seu grupo linguístico.
Sucede que se trata de um clube de Angola. Hoje o nome Primeiro de Agosto tem menos corredores abertos na confederação, tal como o Petro, do que terá o Libolo, por exemplo. Rui Campos nunca poupou esforços para agradar aos parceiros que mais lhe interessassem na confederação, não sendo poucas as vezes que era visto com eles em turismo, no avião com que andava. Em duas ocasiões vi-o a levar vários a ver o Libolo, em Sousse ou Tunis, na taça dos campeões de basquetebol.
O Primeiro de Agosto acaba de atingir um outro patamar e vai precisar de se comportar como um dos grandes clubes africanos, descobrindo que fora dos jogos e das quatro linhas tem ainda muito que fazer lá fora. Não falo de corrupção, mas de criar simpatias, parcerias e entrar mais nos meandros, vida e projectos do futebol, começando por reforçar as relações de amizade dentro da zona e em torno das fronteiras desportivas nacionais. Só sendo um grande por eles reconhecido também, haverá a necessária força coesiva.
E continuando a discorrer sobre o jogo do dia 16, no dia seguinte já se viam cartazes da final que todos haviam vaticinado, que o negócio havia sonhado e que a CAF simplesmente iria abraçar, pois, nada do que se passara em Tunis fora inesperado; primeiro, em casa ganha-se e quando assim não for estará tudo esclarecido. Ao ganhar por muito pouco, os militares angolanos expuseram-se demasiado. E a demasiado também.
Por exemplo, quando a 13 de Junho a FIFA levou a congresso a votação do organizador da Copa de 2026, nunca antes haviam escondido que um mundial no triângulo Canadá-Estados Unidos-México, com uma expectativa de 12 mil milhões de dólares só para a FIFA, caía-lhes melhor como ideia, que um mundial no Marrocos, donde só iria arrecadar até um terço daquilo.
Em menos de 24 horas após o debacle da credibilidade exposta aos olhos nus de todos, menos de alguns, o Primeiro de Agosto ainda não acreditava no sucedido e a custo embalava as malas para o regresso, enquanto os ‘posters’ da final já haviam começado a postar-se e a circular, exaltando a ‘cimeira’ do futebol africano entre os maiores emblemas egípcio e tunisino. A festa já estava preparada de véspera e os militares angolanos só haviam pecado por ter levado de casa tão magra vantagem.
Para a CAF o cartaz de uma final Ahly-Espérance era ouro sobre azul, independentemente dos clamores. A tal ‘cimeira’ do futebol africano que todo e qualquer árabe africano desejaria mais que qualquer outro emparceiramento, será acima de tudo um tira-teimas entre ‘irmãos de credo’ que trará à final um interesse que extravasará um mapa tricontinental com os extremos na Mauritânia e Indonésia, que tem a maior população muçulmana no planeta.
Infelizmente as finais do futebol africano sofrem desse síndrome, acabando em disputas até de índole religiosa, não fossem uns serem xiitas e outros sunitas acabados desavindos pelo resultado. Mas no seu essencial esta final é vista lá fora como uma final islâmica, mais que africana. E isso representa um jogo bem melhor vendido, que aquele que tivesse em campo o Primeiro de Agosto.
Actualmente no futebol dissipam-se depressa os argumentos dos vencidos, face aos ganhos com os que estiverem na final. Quando os canais desportivos da Al-Jazeera irradiarem para o mundo um trumuno ‘Espérance – Al-Ahly, vão cair receitas comerciais nos cofres da CAF que o D’Agosto jamais ajudaria a confederação a obter.
Se estivéssemos na final, esta atrairia a atenção da África subsahariana e em especial do público da África austral, também ele bem servido de cobertura televisiva por satélite através da Dstv; e disse ‘também’ porque os tais direitos comerciais advêm principalmente da cobertura televisiva e esta tem um concurso à exclusividade que se salda através de quem oferecer mais, e decerto seriam eles.
Tunis foi mais uma lição que recebemos dos adeptos que iniciaram o jogo antes dele e trataram do jogo fora das quatro linhas. Tudo aquilo tinha muito de desorganização e hostilidade organizadas e certamente nós não iríamos por esse caminho, pois ainda conservamos traços de uma sociedade educada e com fairplay. Mas todo esse ardor desportivo a raiar o doentio fez parte daquele momento e daquela vitória suja, porém aceite.
A nós bastaria apenas darmos o mesmo ardor desportivo aos nossos emblemas e selecções, inconformando-nos sempre diante da vantagem, e se preciso, até da superioridade do adversário. Mas sem matar nem roubar. É essa linha quase imperceptível que é preciso não cruzarmos. Nem amorfos, nem animalizados. Sejamos sempre o povo que não chega aos extremos.
Piromania e apedrejamento não devem estar no nosso kit de festejar o desporto como adeptos fervorosos. Mas a claque é uma coisa que tem o seu papel e isso começa na devoção local massiva por algo em comum, uma característica sociológica que nos falta ainda. Somos um povo ainda jovem e com muito para aprender, sem precisar de recorrer ao mal ou ‘batota’ para vencer.
A Nigéria tem uma claque organizada e que o estado subsidia para estar presente em todas as competições onde a Nigéria estiver, graduando a composição dessa falange de apoio consoante o nível ou importância da competição. O líder, o ajudante, os músicos, o simples figurista, todos têm um bilhete de passagem, subsídio de estadia e alimentação, cumprindo um relevante papel sócio-desportivo-cultural. Não viajam em compras, mas em missão desportiva.
Mas nós ainda não temos esta cultura ou procedimento. Nos ainda iríamos exigir do governo um dinheiro de bolso. Nós hoje só jogamos por bons salários mesmo sem jogarmos suficientemente bem. Entre nós e eles, as diferenças também são essas de índole e de atitude. Eles já perceberam que a vida se ganha trabalhando enquanto nós ainda não entendemos essa competição de vida que nos pode fazer melhores ou nem tanto, consoante as condutas escolhidas. Quando o nosso dito segundo melhor jogador regressa ao país e ao clube por lá fora haver parecido pouco prestável, é quando devemos aproveitar para juntar as pontas, reflectir-se e tirar ilações. Uma delas será a que estamos ainda a aprender como se faz...
Até agora, o único conforto que tivemos foi o Presidente da federação zambiana ter ligado na manhã seguinte ao seu colega angolano, para pedir-lhe desculpa, dizendo-se comprometido e disposto a infligir uma punição interna ao seu árbitro. Isso, mesmo servindo-nos de pouco, mostra que é filho de boa gente e diferente dos Jannis espalhados pelo futebol africano.
Arlindo Macedo

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