Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Estas Ligas ainda nos atropelam

23 de Fevereiro, 2019
Com a Liga de clubes angolanos de futebol já no horizonte, chega a novidade da Liga profissional de clubes africanos de basquetebol. E tudo isto será imediatamente bom para nós, ou nem tanto assim? Tal como O Mercado já fizera do 14 de Fevereiro outro Natal para a carteira de todo o cavalheiro que se preze, também o Mercado pariu as Ligas. Elas são essencialmente negócio desportivo descoberto pelo marketing, que se regem pela máxima de Mercado segundo a qual aquilo que der prejuízo tem que passar a render, ou acabar.
Ora, gestão orientada para o negócio costuma ser cega para obter rendimento, depois lucros, e não tem vocação propriamente para promover fomento se lhe der despesa. E os investimentos, para as ligas, esses é que têm de ser públicos, como construir-se estádios para depois irem lá jogar futebol.
Ligas e negócios trazem a ideia de selectividade, em vez de distributividade, logo não escondem desvantagens em relação àquilo a que estamos socialmente ainda habituados, não tanto apelando ao Estado-Providência dos Anos 80, mas ao Estado social da década que fechou o século, sucedendo o virar da página e a situação em que hoje nos encontramos ainda.
Assim e não deixando de conjecturar com ares de especular para alguns eventualmente, se as ligas pegarem moda e começarem a tirar protagonismo ás federações, em menos que um ciclo olímpico é de se esperar por menos praticantes livres na base. Veremos uma quase transferência das obrigações com iniciação e formação para a esfera de responsabilidade dos próprios pais ou tutores.
De resto, se as ligas são os clubes, a cartilha será uma só: pôr acento tónico na equipa sénior de futebol com tendência para abandonar a iniciação para conter a despesa. E depois há os que têm dinheiro para ir ao Mercado e comprar jogadores feitos por via de regra nos clubes pobres e que vivem de vender os filhos aos primeiros.
Com as ligas o terreno será fértil para querelas com federações e associações acerca de calendários principalmente, já que árbitros e comissários deverão ir juntos com os clubes, para a liga. As federações, a perderem o protagonismo como fiscais, ficam reduzidas às selecções, o que sempre proporciona trabalho mais técnico e focalizado, eventualmente com menos trabalhadores. O potencial diferendo entre as duas entidades no futuro será por se fazer o gosto ao seleccionador..., outro que terá de se habituar à mudança do panorama e das relações.
Por falar nas relações que mudam, são dos aspectos formais que eu vejo mais expostos a um desfecho que para um desporto subvencionado pelo Estado, há-de resultar um desporto menos social e, quiçá, mais elitista e desproporcional entre as modalidades, precipitando a morte de umas por falta de simpatia pelas futuras gerações.
O projecto das futuras ligas e o da respectiva federação serão o mesmo até onde? Por exemplo, no caso do futebol, a federação (FAF) tem estado a procurar fomentar o futebol jovem, depois de o ter feito primeiro a bem do futebol técnico, ou então da técnica do futebol que nos é característica, obrigando a jogar-se exclusivamente em campos relvados, naturais ou sintéticos, a partir de 2004, e após desmaios e um berreiro prolongado, ainda antes de terminar essa época choviam os primeiros elogios à coragem e à visão estratégica.
A seguir aos relvados e a bem da formação, a FAF condiciona quase ficticiamente aos clubes – senão o futebol não (re)nasceria em algumas regiões - a participação dos mesmos nas competições seniores sem terem ao mesmo tempo em actividade os escalões de formação. Claro que isso é lâmina de dois gumes, pois a rigor nem haveria muitas equipas no ‘Girabola’, nem alguns emblemas entrariam possivelmente na ‘Segundona’ que vem aí, e estas ambivalências sempre são difíceis de gerir.
Portanto e conclusivamente as organizações desportivas também se orientam pelo lucro – que eles preferem chamar de receitas – e naturalmente isso não vê propriamente o desenvolvimento desportivo, mas o espectáculo desportivo que é o negócio duma actividade desportiva independentemente da base social que houver desse desporto naquele mesmo território, neste caso o nosso território.
Enfim, desconhece-se o protocolo que esteja em curso nos seus aspectos intrínsecos à realidade encontrada e a política de futebol do país eventualmente ditada pelo colégio dos clubes, porém, para as ligas importam receitas e estas ganham-se com espectáculo e este requer tecnicismo e virtuosismo que, faltando na praça, busca-se fora, portanto, contratar-se estrangeiros fará bem aos clubes enquanto actores do dia-a-dia, mas como tu podes evitar ficarmos outra Argentina?
Tu não podes ter duas letras para a canção da preferência e promoção dos quadros nacionais! Ou chegando a cultura, música e desporto, já podem vir de fora? E porque não o inverso? Mais Anselmos, Yolas e Damásios, outros Gelson, Geraldo e Job? O futebol vai nessa direcção, melhor, o negócio do futebol tem esse rumo, mas o nosso futebol só não ficará ao alcance dos nossos putos de bairro todos, se o Estado não os proteger dessa exclusão virtual. Já sem academias, depois mais sem clubes...
Instalada a liga, as associações a esse desporto já ‘ligado’ na banda tendem a ficar mais comerciais, do que desportivas, fortemente pressionados pelos ‘sponsors’, marcas e serviços. E ainda nem perfurámos até ao principal negócio da liga, que é o seu verdadeiro ‘cashflow’ e que os clubes e países mais fortes ganham ingressam às dezenas de milhões por ano, em valores acumulados.
Trata-se do filão da a venda dos direitos: bilhetes, transmissões de tv pelo menos, em exclusividade ou não, portanto direitos de transmissão, comerciais, marketing, merchandising, publicitários, e o mais importante para os atletas, direitos de imagem – o segundo ‘pacote’ de rendimentos do atleta.
O Mercado angolano está verde ainda, em má fase e despreparado para isso, a curto prazo. Se o médio prazo forem de 2 a 3 anos, então, sim. Por exemplo, nenhum canal de tv está preparado para adquirir direitos de transmissão, mas há uma ou duas empresas de tv satélite ‘pagar-para-ver’ que poderiam disputar entre si o ‘Girabola’, deixando a tv pública e outras só com imagens de fotos dos golos, etc.
Particularmente e para os atletas em geral recomenda-se, desde já, organizar-se como classe, o que é diferente da ideia que está em curso, criar-se um sindicato. Se este nascer primeiro que a primeira liga em Angola, o desporto angolano estará menos desprotegido e não se faça uma inferência em julgar externa a ameaça, porque na realidade é interna e não é ameaça, mas exploração. Excepcionalmente lá é um atleta que consegue explorar o clube...
No fundo e para mim a maior contradição que antecipo à fase em que vão começar a eclodir as ligas desportivas, será a contradição filosófica e funcional entre as sociedades desportivas comerciais modernas que representam, e o estatuto social do desporto angolano radicado na subvenção do Estado e supostamente na responsabilidade também deste pela criação das condições desportivas necessárias.
Outra contradição preliminar é o estatuto do clube desportivo angolano, se for subvencionado, a quem apetece perguntar: - com que capital irão entrar na constituição da Liga, ou perguntando de outra maneira, esses emblemas que constituírem a Liga serão accionistas de qual capital?
Ora se isso pressupõe que o volume dos contratos comerciais em causa não arrecadem tanto quanto necessário para também se sustentar a Liga e suas despesas de deslocação, arbitragens, asseguramento sanitário e policial, etc.? Ou será ainda o Estado a vir subvencionar além dos clubes, a Liga?
A segunda liga, a caminho, é de basquetebol. De mãos dadas, a NBA norte-americana e a FIBA Mundo prometem vir ajudar a explorar melhor os diamantes do basquetebol africano. A promessa é simples e trata-se de a NBA ajudar a FIBA África a organizar uma liga profissional de basquetebol em África.
Segundo adianta Adam Silver, comissário da NBA, tanto as franquias como os parceiros da NBA têm muito interesse no basquetebol africano. A Basketball Africa League (BAL), o nome atribuído, vai arrancar em janeiro de 2020 e vai contar com equipas de diversos países do continente africano, entre eles África do Sul, Angola, Egipto, Quénia, Marrocos, Nigéria, Quénia, Ruanda, Senegal e Tunísia. Nenhum país poderá ter mais que duas equipas nessa liga profissional. Entenda-se...uma NBA(frica).
Quando recebeu a promessa, o Secretário-Geral da FIBA África, Dr. Alphonse Bilé, disse que o 16 de Fevereiro ficava histórico para o desporto no continente. «Este é um dia histórico para a FIBA África e para o nosso basquetebol. Estamos entusiasmados para trabalhar com a NBA com o objectivo de desenvolver e elevar a nossa liga profissional a um nível que nunca vimos na nossa região”.
Bem, isso tem ainda pano para mangas, porém, contar com o suporte financeiro de mercados como os da África do Sul e Nigéria, ou nada feito, é uma forte expectativa de sucesso inclusive de público. E se isto, de ligas, num Mercado quase todo ele com pensos e adesivos, poderá parecer vir um alívio para as federações, mas esse alívio chegará com os correspondentes cortes orçamentais às federações ‘ligadas’. Daí não nos admirarmos se a nossa primeira Liga ainda vier a nascer e gatinhar com subsídios do Estado... Arlindo Macedo

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