Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Faltou pragmatismo!

26 de Julho, 2017
Estamos a viver os últimos dias da IV República e eu a sonhar com uma próxima república desportivamente mais realista. E o que entendo por país ou sociedade desportivamente realista é ter-se a auto-sustentabilidade necessária para que as coisas singrem no desporto. Não se trata apenas de um termo nem modismo das Nações Unidas; é já hora de nos compaginarmos com as normas internacionais e as convenções para o progresso, que até costumamos subscrever.

Por uma razão muito especial o nosso desporto pós-colonial estava a ser um êxito, que se desvaneceu com a mudança geracional. Se uns preferirem culpar disto a passagem à economia de mercado, em 1993, eu era vivo então e acompanhei como foi o assalto ‘à la Moncada’ da nova geração do dirigismo desportivo nacional, grande parte da qual pautada por sério insucesso escolar. E quem foi ruim com os livros dificilmente acertará com as relações humanas, sociais e desportivas, por melhor desportista que tenha sido, pois no dirigismo faz-se contas, a começar pelas de um sobre-emprego que parece grassar pelas associações desportivas. E a casa do desporto devia arrumar-se e endireitar-se a partir daí, da gestão financeira, garante da gestão desportiva.

Ora, habituar-se o desporto aos duodécimos do Estado é uma premissa de vitalidade para as organizações, contudo reflecte um forte engodo para o dirigismo desportivo, marcado por escândalos maiores ou pequenos que se resumem em gestão ruinosa, falta de compromisso, aproveitamento pessoal e outras mazelas de que hoje enferma o nosso desporto. E porque creio que o poder político se apercebeu deste expediente usado por uma parte dos seus protegidos – afinal os dirigentes desportivos são cada vez mais escrutinados primeiro pelas forças políticas que dominarem a situação – tem sido feita vista grossa a muitos disparates, alguns dos quais bem merecedores de um estágio na cadeia.

Assim sendo, o maior problema do desporto nacional não está a tornar-se as verbas que faltam, mas a falta de moralização. Já é consabido que não há mais dirigentes carolas como antigamente, capazes de tirar a própria camisa para se fazer uma bola de trapo, então será preciso explicar aos novos dirigentes o que são os seus honorários e o que é a reserva financeira do clube, bem assim como deve se relacionar com a tesouraria do clube ou associação desportiva sem se tornar em um peso mais nos encargos da organização. Servir e não servir-se, eis a questão.

É claro que após a consagração de muitos casos de locupletação e mancomunação tende-se a querer engrossar a lista de indevidos beneficiários da situação, altura em que se esperava das assembleias-gerais dessas associações uma atitude e papel mais saneador do que têm tido, graças a um mutismo comprometido e comprometedor.

E assim sem o respaldo da moral, clubes e associações vêm decaindo acentuadamente na qualidade da sua conduta e prestação de serviços, como se o desporto fosse um vale de caídos e desempregados, a querer ganhar tanto ou mais que atletas e treinadores; e estes, por sua vez, a ter que dividir muitas vezes parte daquilo que ganham ou linguagem terra-a-terra, uma mão a lavar a outra.

Mas quais eram os tais atributos do passado que hoje se diz que faltam? Olhe, era antes de mais o verdadeiro sentimento desportivo; não acredito que um Jorge Nuno Pinto da Costa, nem um Carlos Hendrick, precisem de andar a delapidar um clube para singrar, e então é essa força interior e persistência que determina a prossecução dos objectivos do clube, que são os seus. Lá está, servir e não servir-se.

E muito bem, se tal sorte de gestores públicos rareia, o que fazer? Em minha opinião, quando o primeiro dos artistas batesse com os costados na cadeia, decerto passaria a aparar mais as unhas. Se estou a dizer que no desporto se rouba, claro que, sim. E não é pouco. Até mesmo porque há formas de se delapidar, mesmo não parecendo roubar-se. Por exemplo, se uma estrutura do desporto for passada a constitui um proveito pessoal, essa é uma forma de furto, caracterizado pela apropriação indevida sem recurso à violência, mas a cunhas e carimbos.

Depois sucede a conveniência de os salteadores da arca se rodearem de marinheiros fiéis, sendo então que se lhes nota a faltas de competência desportiva, preterida pela confiança pessoal. E o desporto não é propriamente uma súcia, mas um for de saberes e de conhecimentos reconhecidos.

Mas, lá está, se o sistema de ensino do país está a registar défices na formação, poderá parecer demasiado exigir-se competências aos adeptos do dirigismo desportivo, todavia ainda existe a possibilidade de o timoneiro de um clube, ou de uma lista, ter o bom senso profissional de saber rodear, levar um projecto e conseguir metê-lo em obras, mesmo se terminar o mandato sem o mesmo já estar em marcha, algo que certamente há-de apreciar um sucessor, então capaz de o meter a andar. Normalmente seria assim, mas não é normal, pois também não querem assim.

Para esses, dirigir é chegar-se lá e fazer-se o que entenderem, com ou sem quórum para as suas decisões, e quem assim age terá tudo menos talento para dirigir, quiçá lhe faltem ainda as capacidades para tal. E se esta for infelizmente uma consequência objectiva dos tempos e da situação, que ao menos sobreviva nessas pessoas a seriedade. Mas nem sérias, nem competentes, pois a maioria dos dirigentes desportivos são em tudo carentes; e não haverá outros, claro que sim, mas hoje não basta isso, será preciso ter por detrás uma vontade maior que a do próprio desporto, que é quando se mete a política no terreno de jogo.

Por isso disse e repito, é preciso irmos mais limpos de alma, para a V República desportiva. Deixar de estar no desporto a delapidar e a aproveitar-se; enveredar por infundir obra nas camadas jovens, que essas não reclamam subsídios para ser e fazer, basta-lhes bolas e entusiasmo á sua volta, mas também são elas que representam o futuro que nos continua a faltar, porque a ninguém interessa o desporto jovem se for o sénior que estiver a render dividendos. E o desporto tem de deixar de ser em permanência uma nova negociata, porém, estamos a ser assim formatados e entre rijos e tortos, há sempre os que nem pestanejam e abraçam a piscar um olho esse estranho existir desportivo em que passámos a viver.

Ter coragem de chamar os nomes às coisas e incompetentes, aos incompetentes. A impunidade tem levado ao atrevimento, e este ao abuso. Vê quem quer e finge que não vê a quem interessa. O desporto nacional perdeu bastante da sua competência, temos que o reconhecer, porém, pouco se vê também para tornar competentes, os incompetentes. Assim faltam-nos já não apenas a moral desportiva, mas a consciência e o saber desportivo.

Quando o povo gritar que o mundo está a acabar porque a selecção de futebol ganhou, claro que é ironia, mas não desprovida do senso comum de que o próprio povo já não acredita nos seus desportistas e estes não são apenas os atletas, mas também os dirigentes que anos a fio guindam o desporto ao estado em que veio parar – e o exemplo do futebol até é indevido para com a nova direcção, que gere o que gere o que herdou e não faz sequer um ano que aquece a cadeira. Mas, preciso é reagir, ser-se inconformado e apostado em sair do buraco.

Portanto, não só de moralização, mas também de reformulação anda a precisar o nosso desporto e a porta mais acessível – desporto jovem – é aquela por onde ninguém quer primeiro passar, e porquê? Que raio de pais e progenitores serão esses?

Se há coisas que não deviam ter continuidade, uma delas são os actuais moldes do desporto; anos atrás houve fóruns a pensar na renovação, porém as conclusões não estão a sir do papel, como se o círculo vicioso fosse um fatalismo, em vez de uma conveniência de comparsas. Enquanto o Presidente de todos nós teve tempo e olhos para o desporto tocávamos uma guitarra mais afinada, que os brincalhões desafinaram.

Agora resta saber, se o estado gasta com o desporto inutilmente ou com objectivo algum; e se não fazia mais falta ao país gastar isso com a educação, formando mais doutores do que tem sido gasto a formar pernas de pau, e com o benefício da escola vir dar o desporto o que lhe falta, juventude melhor formada e mais inteligência em campo.

Claro, tem sempre os que pensam nos esquemas transtornados por uma tamanha inversão, mas é a tal coisa, progresso ou retrocesso, qual preferimos?

Eu e muitos não teríamos hesitação nem perplexidade em responder, porém eu e esses somos o lado silenciado da questão, não as vozes que acabam por prevalecer, que são as dos situacionistas do costume, verbos de encher e parasitagem do sistema.

O país não leva nenhuma boa receita desportiva para 2018 e o facto do nosso top actual ser a chegada ao CHAN indica bem o chão em que andamos na actualidade; do mesmo modo, a coroa da bola ao cesto que nos foi arrebatada e conjugada com os campeonatos de jovens a que não formos, são ingredientes da mesma precariedade e retrocesso em que pisamos presentemente. Contudo e ainda assim, são cada vez menos os praticantes e as equipas, sinal de que o fenómeno desportivo se está a dissipar em Angola e de que já não somos mais o chão que deu uvas, ou melhor, dar uvas, nosso chão dará, mas não com estes cultivadores de agora.

E para não parecer cáustico nem injusto, deixo a dica aos falhados: olhem para os bons exemplos da casa e perguntem ao andebol e ao hóquei como estão a conseguir manter-se, a ver se extraem dali alguma lição proveitosa para estudar na transição para a V República, a qual deve ser marcada pela ruptura com a droga do passado. Com mais pragmatismo e coerência, mais devotos e verdadeiros, menos saqueadores e bandoleiros.
Arlindo Macedo

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