Jornal dos Desportos

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Opinio

Fama por tabela

14 de Janeiro, 2019
Diz-se \"apanhar por tabela\" quando por acto alheio, praticado por alguém com quem temos alguma relação, ainda que mínima, sofremos consequências. Seguindo esta lógica, sou famoso por tabela. Os de Copenhaga sabem que estou aqui.
Mas não me tinham notado antes de Angola vencer o Qatar, no primeiro jogo que fez.
Cheguei a Copenhaga por volta das 09H00, do dia da estreia de Angola e apanhei táxi do aeroporto para o pavilhão Royal Arena. Não estava credenciado e precisava assegurar-me de que assistiria o jogo.
Encontrei gente simpática, como o Peter, um dinamarquês de outra cidade, que em Copenhaga está a trabalhar na área de credenciamento. Disse-lhe, que um dia antes tive correspondência com o Mark, um dos responsáveis da área e que me garantiu que se chegasse a Copenhaga o devia contactar.
Peter ligou para Mark e num imperceptível dinamarquês o informou da minha presença. Falaram demoradamente. Fiquei receoso. Depois, com um ligeiro sorriso, Peter disse-me \"he remember You\". Pediu-me o passaporte e disse que à tarde me daria a credencial.
Fui então procurar lugar para ficar. Decidi ficar perto do Royal Arena, embora isto me ficasse mais caro. Não tinha como! Só o táxi que me trouxe do aeroporto para o Arena, já cobrou cerca de 30 euros do valor em DKK que saquei do multicaixa, no aeroporto.
Depois que me alojei, voltei ao Arena para trabalhar. O Peter, simpático, disse que tinha surgido uma maka qualquer, que precisava da autorização de um tipo, da IHF, que estava em Berlim.
Mas enquanto isso eu podia ficar na sala de restauração dos jornalistas, sem acesso às áreas de trabalho. Podia ver os jogos nas telas, tomar água ou refrigerante e até comer. Tudo isto, sem credenciamento não me tranquilizou.
Quase a meio do jogo de Angola, Peter me trouxe a credencial. Dei-lhe um abraço, à moda dos nossos kandandos. A ele e à Patrícia, uma voluntária da sala.
Nesta altura já Angola dava réplica ao Qatar. \"He\'s angolan?\", Perguntaram à Patrícia e quando ela respondeu afirmativamente, os \"colegas\" começaram a falar com o negro ao lado, que já estava orgulhoso de ser angolano. Viam-me a vibrar a cada golo. \"ANGOLA is playing very well\", queriam confiança! No final, \"hey congratulations\" já veio a \"colega\" da TV dinamarquesa querer saber dados da nossa selecção, da realidade do nosso andebol. \"Yes, but first I have to finish my job\", disse aos muitos convites que recebi. Tinha os clementes, Melo e Amândio a esperar texto e, eram a minha prioridade.
Depois, o famoso aqui, deu uma mini colectiva. \"I dont speak english a\'ll do it in portuguese\", alertei. Chamaram então uma mexicana que entendia o português e ficou tradutora. Era falar do nosso andebol, da pobre realidade do nosso andebol masculino, mas aproveitei e falei também das Pérolas. Vendi peixe!
Ao sair do campo para o hotel, cruzei com muitos adeptos da Suécia, equipados com cores lindas, são da família tricolor. Aquela gente podia muito bem encher o 11 de Novembro, num jogo do Petro. Vieram aos cachos!
Quase todos me saudaram efusivamente. Alguns fizeram questão de fazer fotos comigo.
Eu era angolano e por isso parte da fama dos jogadores tinha recaído sobre mim. É um caso de fama por tabela.
No \"Fields\", o choping center, perto do hotel, choveram saudações e \"congratulations\" ao muangolé.
Enquanto procurava achar na banca algum jornal escrito em inglês, não achei, era observado demoradamente por dois tipos, e quando me virei, perguntaram-me, em português: o senhor é angolano?
Quando disse que sim, eles sorriram. Eram um angolano e outro brasileiro, residentes na Bélgica, que estão em Copenhaga em serviço.
Não sabiam do mundial na cidade, dei-lhes o endereço do arena e a hora do nosso jogo de hoje. Não pude aceitar o convite para tomarmos umas imperiais, mas vamos ser, ao menos, dois ou três angolanos entre os copenhaguenses a torcer por Angola.
SILVA CACUTI, EM COPENHAGA

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