Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Farpas contra jornalistas

04 de Março, 2016
Vezes sem conta me perguntei se seria possível ter uma informação desportiva não havendo exercício desportivo, e se fazia algum sentido a prática desportiva sem que este exercício tivesse alguma mediatização. A conclusão a que fui levado pela reflexão feita é que as duas partes se complementam. Ou seja, a competição e a informação desportiva existem uma para a outra e estão condenadas à coabitação.

Afinal qualquer uma destas áreas vive na dependência de outra. Às associações, aos clubes , às federações interessa que a rádio, a televisão e os jornais divulguem a sua actividade, promovam a sua imagem, e a estes órgãos interessa que estas instituições tenham actividades para que produzam aquilo que serve como matéria jornalística para os seus produtos editoriais.

Por tudo isso, ambos caminham lado a lado na mesma estrada, com uma nítida linha divisória a separar as atribuições de cada um. Mas o que se verifica é que em certos casos dirigentes desportivos e homens da informação não partilham uma relação salutar, se digladiam, porque o primeiro vê no segundo uma espécie de espião do seu exercício se não um incómodo. Enfim, uma verdadeira ratazana mexeriqueira.

Em tempos mais recuados, em risco de serem reeditados, de dificuldades de toda a ordem, havia inclusive dirigentes que viam no jornalista um pedinte, um crava. Talvez alguma razão, já que colegas havia que numa clara falta de ética não vacilavam sequer nos pedidos que ajudassem a tirar a barriga da miséria, beliscando a reputação dos órgãos que representam, já que o argumento, em regra, é o salário que não vem há meses.

De resto, julgo não haver motivos tão fortes que movam o jornalista a olhar para o dirigente desportivo como um alvo do seu fel ou o agente desportivo a encarar o jornalista como um "persona non grata". Ambos trabalham para o mesmo fim: a promoção da actividade desportiva, havendo apenas uma delimitação de terreno de intervenção entre um e outro.

Mas ao agente desportivo compete perceber que o jornalista está no mesmo espaço como uma espécie de fiscal da sua actividade, aquele que lhe poderá encher de elogios em caso de sucesso, e aquele que lhe poderá fazer críticas, acompanhadas de sugestões claro, caso descubra falhas ou outras incongruências que não agradam às vistas de quem as vê.

O que a realidade nos tem dado a ver no nosso país é que há gente que anda no desporto mas não preparada para as convulsões da crítica desportiva. Quem anda à chuva está sujeito a molhar. Portanto, quem como atleta, técnico ou dirigente abraçou o desporto como ofício não deve esperar apenas por elogios, mas também por alguns reparos, desde que não tenham tendência destrutiva.

As reacções exercidas contra os comentadores da Televisão Pública de Angola, nomeadamente António Alegre e Baptista Moscavide, em casos e situações diferentes, fere o princípio de entendimento e convivência entre gente que navega nas mesmas águas. Mais a mais porque tais reacções foram feitas em meios inapropriados, quando a Lei de Imprensa prevê o direito de resposta a quem se sinta lesado no mesmo órgão.

Outrossim, é preciso que comecemos a ganhar a cultura de saber acolher a crítica. Nem toda crítica tem tendência destrutiva. Muitas vezes não passa de uma linha complementar de um comentário feito a propósito disto ou daquilo, sem qualquer acção felina ou mordaz para arruinar a carreira, a vida e o futuro do sujeito da oração.

Porque se a moda pega, de os fazedores do desporto recorrerem às redes sociais para responder a um cronista de jornal, a um comentador de rádio ou televisão, estaremos a resvalar para um terreno perigoso, pejado de ravinas, capaz de transformar o nosso desporto num terreno de batalha em que todas as armas terão serventia. O jornalista faz um reparo no seu órgão e o visado reage a quente no seu blog. Não será um exercício salutar tampouco digno para o desporto que queremos.

Em resumo, e para fim de conversa, agentes desportivos e jornalistas precisam perceber a fundo o objecto social da sua actividade, quanto mais não sejam empreiteiros da mesma obra, que devem interagir para numa acção conjunta encontrarem soluções para um desporto sadio e utilitário, que projecte o nosso país para os píncaros da fama.
MATIAS ADRIANO

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