Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Feira de vaidade e marketing

29 de Setembro, 2017
Desde a realização da sua primeira edição em 1979, que o Girabola passou a constituir, e de outro modo não podia ser, o ponto mais alto de qualquer inspiração competitiva a nível do nosso futebol. Até mesmo equipas concebidas numa tertúlia de amigos, à volta de uma mesa pejada de manjares, mais tempo menos tempo voltam as suas ambições na primeira divisão.
Pode até aqui não haver qualquer contestação, sendo um acto vestido de toda legitimidade o homem aspirar metas, traçar objectivos e querer sempre mais. Passa-se que com a inversão do quadro económico do país, em que todo e qualquer exercício passou a ter custos elevados, tal ambição longe de expressar um mero espírito competitivo, às vezes, cheira a alguma ventura.
No começo da História do Girabola podia ser mais fácil que nos dias presentes, pois para lá da tal política do \"Estado Providência\", havia sectores empresariais que viam no desporto um campo aberto para o seu marketing, que sponsorizavam deste modo alguns clubes, permitindo que estes tivessem uma actividade administrativa e competitiva sem muitos apertos de cinto.
O que vemos hoje é uma espécie de espírito aventuroso, reitera-se. Pois, equipas existem que chegam ao Girabola às expensas de um empresário, na maior dos casos o dono, que se julga a altura de suportá-la em perseguição de fins, que não sendo lucrativos, só o próprio sustenta e domina. Uns conseguem aguentar-se, outros nem por isso.
Contrariamente às outras edições, o presente campeonato, apesar dos tentáculos da crise, teve poucos problemas relacionados com ameaças de desistências. Parecia até aqui a correr tudo à preceito, quando afinal havia clube que já vinha a travar ferro com ferro para se manter em prova, gerindo a crise dentro de um silêncio estratégico até ao estalo do verniz.
Na verdade, no começo de época houve quem questionou a capacidade financeira que permitisse o JGM, um clube gerido com capital privado, se teria arcaboiço para fazer face às exigências das competições internas, do Girabola particularmente. A sua direcção deu garantias que estava preparada para todos os desafios. Conseguiu por alguma boa parte da época mostrar que era capaz.
Embora não se saiba se esta decisão já foi notificada à Federação Angolana de Futebol, seria bom que uma equipa que aguentou todo um campeonato, por entre todas dificuldades, que só a sua direcção saberá explicar, se aguentasse pelo menos até ao fim, já que restam apenas cinco jornadas, nem que depois tivesse que declarar a sua ausência na próxima edição.
Mas como mesmo em provas de fundo existem atletas que se aguentam para fracassar a escassos metros da meta, também o JGM pode fracassar quase já no cair do pano sobre o campeonato. Como um mal não vem só, também do Uige não chegam boas notícias. O Santa Rita de Cássia, que por sinal vai bem na Taça de Angola, também se diz sem condições para chegar à 30ª jornada.
Chegado aqui, espero que, apesar do lado negativo que esta provável desistência pode representar, sirva de exemplo a outras equipas que sempre tiveram como meta o Girabola. Percebam que não se trata de uma empreitada fácil, mas sim de um compromisso oneroso, quase invencível sem apoios de outras entidades e instituições. Desengana-se, pois, quem toma esta competição como uma feira de vaidade e de marketing.
MATIAS ADRIANO

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