Jornal dos Desportos

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Opinio

Fora de jogo ao racismo

20 de Fevereiro, 2020
Quem comigo priva relativa intimidade sabe que tenho a cidade do Porto-Portugal, como a “segunda pátria”, em função de ser na referida localidade em que busquei valências académicas, que para aqui não são chamadas, porquanto o assunto é futebol e, mais do que isso, algumas questões paralelas, sem que sejam na plenitude, afastadas do fenómeno desportivo.
Entretanto, nem por tal facto morro de amores pelo Futebol Clube do Porto, por razões de sentimentos, que se explica por si, de tal sorte que, durante a minha estadia na cidade invicta, não assisti qualquer jogo que envolvesse a referida equipa, no seu tradicional campo das Antas.
Ainda assim, respeito as opções e desejos dos que se ligam ao Porto como clube de eleição, sendo eles ou não, cidadãos portugueses, a considerar que o desporto é um fenómeno trans-mundial, de quem as incidências se reflectem em larga escala, muitas vezes sem factores de igualdade, quer a nível político, cultural e outros.
Neste entendimento, a circulação/movimentação de jogadores e treinadores, para além de elevar o sentido industrial do desporto, com tudo de positivo que daí pode ser extraído, é uma montra de excelente coabitação social, sem diferenças de qualquer espécie, quanto mais não fosse de estirpe racista.
E assim devia ser, sempre e sempre, com a bênção de todos, ratificada por Deus, na sua condição de Ser Supremo. Como assim não é, infelizmente, somos brindados com ocorrências como a do último fim-de-semana, no jogo que envolveu o Vitória de Guimarães e o Futebol Clube do Porto, duas equipas da parte norte de Portugal, que obrigam-me a expressar profunda e total repulsa pelos abusos de cariz racistas promovidos contra Marega, jogador da equipa treinada por Sérgio Conceição.
Dedico-me a este exercício com o sentimento de saber bem o que digo, baseando a minha exposição no que conheço da realidade do comportamento de certos cidadãos do norte de Portugal, que destas coisas de racismo têm muito que aprender, para serem considerados normais, no quadro da convivência humana.
É bom não esquecer que Marega já foi jogador do Vitória de Guimarães, por sinal a localidade de que os “Tugas” gabam-se ser o berço da pátria e, por tal razão, (a observação é minha), os seus naturais obrigam-se a maior sensibilidade e marcarem distanciamento da promoção de “pequenices”, que em nada dignificam a raça humana.
Tomado pelo prazer da docência que conservo como a mais íntima das minhas ocupações e paixões, sinto-me forçado a recordar que nenhum acto de racismo, por mínimo que seja a sua expressão, serve para ensinar alguma coisa que possa ser considerada valia para o ser humano. Penso ser por esta e outras razões que se estabelece o racismo como preconceito de discriminação com base em percepções sociais acentuadas em diferenças biológicas entre os povos que, precisamos recordar, não têm culpa pela corda tez com que nascem.
É bom dizer ainda que, das milhares de regras existentes para regular o futebol em particular e o desporto no geral, nenhuma delas se refere ao racismo como algo essencial, antes pelo contrário, as referências à tão desprezível questão aparecem justa e unicamente pelo sentimento de total condenação.
Entre as formas sobre como definir o racismo está a questão de se incluir a discriminação que, na minha opinião, é sempre intencional, as que fazem suposições sobre preferências ou habilidades dos outros com base em estereótipos raciais, que em última instância, de verdade e absolutismo nada têm para lá do reles prazer humano em subalternizar outrem.
Da leitura feita para elaborar este texto concluí existir uma interpretação que sustenta o racismo no sentido de ser entendido como preconceito aliado ao poder visto que, sem o apoio de poderes políticos ou económicos, o preconceito não seria capaz de manifestar-se como um fenómeno cultural, institucional ou social generalizado e, mais grave que isso, com tendência discursiva de que “não é bem assim”, como alguns portugueses tentaram fazer ante as evidências do caso Marega, que para este texto, foi um exemplar “fora de jogo ao racismo”.
CARLOS CALONGO

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