Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Futebol, factura e futuro

04 de Janeiro, 2017
O futebol vai renascer, tal como foi prometido. Por detrás do novo comando associativo devem então posicionar-se os agentes desportivos e reais forças do associativismo, os clubes e as suas respectivas associações provinciais capazes de empreender coisas juntos coordenadamente. Não haverá então maior erro do que pensar-se que a face desaparecida do futebol vai ressurgir como que por um acto de magia simplesmente, desde a chegada de uma nova direcção à federação, se primeiro os clubes não fizerem a sua parte - e pelo que vejo, fazem-na muito poucos e às vezes muito mal.

O problema do futebol está e continua nos clubes, consequentemente nas suas associações provinciais. O futebol é jogado pelos clubes, não pela federação; é feito diáriamente nos clubes, não durante a convocação das selecções. As arbitragens são más ou viciadas, não por orientação da federação, mas por práticas que se fazem um pouco à imagem do país e do futebol que se quer construir assim eivado de vícios, à falta de melhor resposta e de capacidade de quem dirige essas instituições. Todos reparamos com maior ou menor atenção na derrocada do dirigismo desportivo e consequentemente dos clubes e suas associações. É um pacote único de imperícia, desconhecimento profundo, empirismo e, muitas vezes, erros sucessivos de escolha e de orientação.

Quem olhar para o que os clubes eram, com muito raras excepções, por exemplo do Primeiro de Agosto, irá notar que a maioria dos clubes retrocedeu e isso não tem nada a ver com receitas do petróleo em baixa, nem falta de verbas chorudas como outrora havia; muito sinceramente, foi esse tempo de fartura que atraiu ao desporto autênticos predadores que deram cabo do que encontraram, porque simplesmente não souberam continuar. Então o cancro do futebol não está na federação, mas nos clubes e suas associações provinciais. É uma crise que começou por valores e princípios, prosseguiu através das incompetências e chegou a um estado de quase impraticabilidade das práticas que geram organização, boa gestão e crescimento antes de podermos falar em desenvolvimento. Este é a fase de fruição regular e constante daqueles outros factores.

Nunca ninguém traçou nesses clubes uma meta, que não fosse ganhar o Girabola, ou o Bic Basket, ou o que seja, por quaisquer meios; falar de formação para criar bons treinadores e jogadores é algo trocado por importar jogadores e treinadores, só não alinhando na mesma romaria aqueles cujos cofres não suportam a ousadia. E as associações provinciais, que dizem não funcionar por falta de fax e de combustível, seguiram a mesma inércia. Se uns e outros visitassem os países que dominam o futebol Africano iriam constatar que Angola ainda vai sendo dos países com mais recursos e condições para esse desenvolvimento desconseguido aqui em casa. Aliás, é dos países que melhor paga aos futebolistas.

Estamos então perante uma verdade incontornável que se chama empobrecimento e falta de recursos humanos e isto só se contorna com políticas; tais linhas de orientação, sim, é a federação quem as deve elaborar e monitorar, na busca de avanços graduais e necessários, que tirem da iliteracia desportiva e mediocridade centenas de quadros desportivos mal formados e mal aproveitados, quantas vezes por falta de qualidades suficientes desses mesmos quadros, contudo, aprender não tem idade e o objectivo é evoluir, saindo da estagnação actual. Enganar-se-á, portanto, quem achar que é a federação que vem mudar o futebol sem primeiro mudar o panorama e regimento do estado actual de coisas.

O mandato de Artur Almeida e Silva não pode ser bem sucedido por encanto se os clubes e associações não derem primeiro um chuto nas más práticas do passado, que desmoronam o edifício do futebol e, diria até, comprometem a sua organização e crescimento. Acerca das políticas necessárias à partida da anunciada revolução, espera-se que realmente a FAF recomece a obra por aqui, criando modelos de organização e de gestão que calibrem direito as aspirações e rejam a sério as obrigações dos clubes. Entre as tais políticas têm de ser pilares e basilares as da formação contínua dos quadros administrativos e técnicos do futebol, pois é o desenvolvimento destes recursos humanos que pode trazer desenvolvimento aos agentes desportivos e consequentemente à modalidade.

E em nenhuma parte deste raciocínio está implícito que a fonte de partida não seja o homem. Consequentemente e antes de mais, devem ser as associações profissionais implicadas, portanto dos atletas e dos treinadores, por exemplo, aquelas que devem contribuir para uma conscientização da sua classe para pleitear com os clubes por condições que favoreçam a sua capacitação, desempenho e crescimento. Se os atletas não exigirem dos clubes melhor treinamento, se os técnicos por sua vez não exigirem do clube formação nem superação profissional, então o profissionalismo do futebol Angolano é o equívoco de quem pretende ser profissional de algo por só viver disso, mas sem garantias nem direitos, apenas deveres. E quem pode dar um avanço e impôr formação e práticas novas e salutares aos clubes, é a federação.

Em seguida, a questão das boas práticas na organização, administração e gestão do desporto, é a federação quem deve dar o mote, primeiro adoptando ela própria esse quadro de desiderato, depois fazendo-o imitarem todos os demais actores. E isto não são particulares inovações, mas actos elementares e arte de compaginação da prática obsoleta dos clubes face à norma da CAF de 2010 que passou a exigir dos clubes a auto-sustentabilidade e a auditoria da sua contabilidade, mas que em Angola se escamoteia por se presumir que o desporto é mais uma paródia de amigos, do que um objectivo colectivo em uma actividade sócio-desportiva que trem custos para o estado, consome duodécimos nada pequenos e de que se devem concomitantemente prestar contas. Ora, os elementares princípios da boa gestão e transparência, tem que ser outra das políticas a encetar pela federação.

Quando assim se recomeçar, então o renascimento do futebol promete. Recordo a Alemanha, quando em 1998 empatou no Mundial com a Roménia; foi um escândalo erigido a vergonha nacional, a federação vaio abaixo e traçou um plano, ou seja, a mesma posição em que se encontra a direcção encabeçada por Artur almeida e Silva. Não sei o que ele vai fazer, mas sei o que fizeram os alemães; estes começaram por definir que países valia a pena imitar, primeiro; depois copiaram e elaboraram o seu projecto inigualável de formação de jogadores em pelo menos mais de 300 centros espalhados pelo país com o apoio da federação e seu patrocinadores de peso, como a Mercedes-Benz e a Adidas; e por fim pediram investimento, em vez de despesa pura.

Investimento em vez de despesa pura? Sim, partindo de contas auditadas para aprovar o orçamento dos clubes em seguida, ou seja, definir quanto dos 100 por cento dos recursos deviam ser para formação, para os séniores, para isto e para aquilo, e deste modo os clubes tiveram mesmo que limitar a X o gasto com os séniores e investir Y na formação dos jogadores do futuro. Mas, em Angola, falar de auditoria da contabilidade diverge logo para procurar um auditor corruptível e que escamoteie a verdade, dado que pelo menos mais de 50 por cento das pessoas que adere ao associativismo desportivo, fá-lo por necessidade pessoal de emprego e de rendimentos, ou de visibilidade; não por paixão, entrega e devoção.

Conseguiria a FAF voltar a criar imposições duras aos clubes, como quando o elenco federativo encabeçado por Justino Fernandes corajosamente obrigou os clubes a jogarem o Girabola apenas em relvados? Foi em 2004 e hoje isso só tem traduzido desenvolvimento à infra-estrutura do jogo.

Entre as exigências prioritárias da nova direcção do Futebol devem estar, para além das novas políticas gerais da modalidade, aquelas que tragam investimento, como seria auditoria financeira dos clubes e associações incluindo a federação, refrescamento e formação acelerada de quadros, aumento do calendário de provas internas com oportunidade de retorno aos torneios de abertura e taça de honra das APFs, sem descurar a obrigatoriedade efectiva de os clubes em geral movimentarem as suas classes de formação, com acréscimo do futebol feminino. Com políticas assim, os gastos mais significativos seriam irrisórios para o benefício colectivo e de facto.

Deste modo, a choradeira das academias e da liga serão coisas absolutamente descartáveis por enquanto, pois, não se deve aumentar a população de consumidores enquanto não se aumentar a fonte de consumo e essas políticas haveriam de começar a colocar os clubes numa base mais auto-sustentável, do que fictícia como sucede quando o dinheiro aparece sem saber de onde, nem se ter a certeza se assim continuará. Mas, terá a nova FAF essa coragem? Uma coisa é certa, metade do primeiro mandato parece-me que seja consumida pela tarefa de arrumar a casa e endireitar o jardim, enquanto se fosse removendo o lixo do futebol.
Mais uma vez, o fio da meada vem dar aos clubes. E às suas associações provinciais.

Porque não formam eles mais jogadores nem jogam mais partidas? Haverá imperativamente necessidade de dinheiro para treinar e jogar na tenra idade dos 13 e 14 anos? Haverá fatalmente necessidade de despender com treinadores e jogadores profissionais se, a par das classes jovens, forem preparados antigos praticantes para ser monitores, e treinadores de 3ª classe, para serem de segunda e, adiante, de primeira? Há portanto toda esta nova mentalidade que é preciso injectar nos clubes e os fazer viver mais de acordo com a sua e a nossa realidade. Ou de pouco servirá o futebol virem estrangeiros colmatar buracos que os angolanos não saibam mais tapar, pois isso é que tem sido despesa sem investimento.

Por outro lado, a auditoria de contas e a fixação de fatias orçamentais por escalões e equipas do clube traria consigo a normalização dos salários particularmente dos atletas séniores, dado que só estes consomem mais de 60 por cento dos recursos financeiros dos emblemas, retirando margem de desenvolvimento aos clubes, mormente através da formação adequada de jogadores jovens, que são sempre o futuro.

Esta falta de realismo nos tectos salariais só é possível dado que aos clubes nada custa ganhar os duodécimos que recebem, pois não têm depois contas a prestar nem avanços a mostrar obrigatóriamente. (Às vezes também penso que é uma situação de acomodação tolerada pela governação, por olhar para o desporto como mero entretenimento sem outros objectivos nem anseios, que assim caiem como luva nas mãos de quem for dirigir esses centros de custos do Estado sem este esperar dali outros benefícios).

Os clubes não se podem permitir todos a ter o mesmo desenvolvimento se não houver os mesmos recursos, pelo que importa atender ao seu redimensionamento; ainda assim, os seus moldes de gestão podem ser perdulários e inadequados para produzir organização, resultados positivos e crescimento. A par do refrescamento e formação de quadros, um seminário de clubes poderia ajudar os seus dirigentes a ter melhores práticas e resultados. Os recursos humanos são, de facto e à priori, o ponto fraco do nosso desenvolvimento desportivo e a causa principal do nosso estado de coisas um pouco por todo o país.

E se nem tudo se aprende na escola, pode a federação contribuir para que uma nova mentalidade no Futebol conduza e a uma visão mais moderna e consentânea com as chamadas boas práticas. E nisto, insisto, ver a FAF consumido metade do seu mandado, que seria o seu primeiro mandato pendente de um segundo com base em resultados. E não imagino alcançarem-se outros resultados, como taças de África e copas do Mundo, sem primeiro se alcançar o básico e consolidar uma base aprovisionadora do futuro.

Os clubes são a base, tal como a base deles é a formação. Mas os clubes angolanos de futebol precisam de outra cultura. Antes de serem sólidos nem percebem o quanto seriam engolidos por uma liga orientada pela vertente do negócio. De igual modo, uma formação bem feita nos clubes pode adiar a necessidade de academias. Nós não podemos copiar, por copiar, mas executar com realismo as políticas que criem aprazo as forças e recursos que faltam para, antes de mais, os clubes realizarem plenamente o seu papel.

E confundir que o clube é a equipa de futebol sénior vem abrir outra chaga e antes destas feridas de constituição estarem saradas, os clubes mal saberão para o que estão e ao que vão. Injectar, injectar mais e mais, e habitualmente a fundo perdido, não é e nem nunca será uma solução para organizações sobreviverem com tão sérias carências de base para o escopo que perseguem, que é estarem organizados para jogar futebol, sabendo que essa organização pressupõe apropriados recursos humanos, materiais, técnicos e outros, sem os quais as falha vêm de base.
*Continua amanhã

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