Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Futebol, factura e futuro

05 de Janeiro, 2017
O clube enquanto entidade de culto desportivo é culturalmente imperfeito enquanto o bairrismo não se manifestar e a sua ligação à comunidade não se sentir, nem fizer parte de usos e costumes locais como seria o levar as crianças ao sábado e domingo a jogar à bola, nem os jogos dos seniores forem precedidos de uma peladinha dos mais jovens dos mesmos clubes oponentes, nem a sociedade for em massa ao estádio com a sua equipa nos jogos em casa.

Esse clube recreativo que Angola tinha ainda até recentemente, quando nasceram o Libolo e renasceu o Caála, são exemplos de empatia e de alguma sinergia, graças à qual resistem. A partir de 2004 as estradas haviam sido reabilitadas e abertas por uma vida já em paz dos Angolanos e houve inicialmente alguma atracção pelas viagens intermunicipais, muitas vezes em excursão com a equipa de futebol nas suas deslocações em campeonato, porém, tanto o rápido empobrecimento dessas mesmas estradas como o estado decadente do futebol arrepiaram o público dos estádios virtude da pobreza do futebol e da falta de craques como atractivo.

O Futebol é perfeitamente fazível com receitas económicas para o futebol melhorar com políticas de auto-sustentabilidade, de racionalidade e de redimensionamento para os clubes serem reajustados e ao mesmo tempo preparar melhor os seus quadros através de formação intensiva visando melhor desempenho e produtividade nas relações dinâmicas que o desporto requer. Os seus quadros precisam de ser preparados para produzir resultados em época de vacas magras e saber criar formas de receitas próprias adicionais aos duodécimos recebidos do estado, usando a humildade de quem sabe tanto quanto quer aprender, a modéstia de quem não espera elogios nem bónus por fazer aquilo que é seu dever, o empenho de quem quer fazer tudo como deve ser e a genuína dedicação que só os verdadeiros homens do futebol têm.

Habitualmente o trabalho ninguém o quer, só os louros; os mandatos de direcção nos clubes e nas associações deixaram de ter verdadeira ambição colectiva e têm sido servidos mais à medida de ambições e ganhos pessoais, sejam eles materiais ou de imagem e visibilidade, mais que do que deviam ser os seus legados. E esta carência é o que explica parcialmente a falha de crescimento, pois a fractura entre dirigir um clube ou associação e vencer os desafios é cada vez maior. Porque os recursos humanos e o dirigismo desportivo são cada vez piores e se os clubes e suas associações não avançam, tão pouco avançará a federação. Nenhum boi puxa carroça travada, só a charrua e esta arar da terra é o tal trabalho que ninguém quer, daí o abandono da formação, a troca da fabricação de craques pela compra de craques, a suposição de que o treinador estrangeiro é melhor que o nacional por força de genética e não da formação, e as distorções todas que o aparelho apresenta exactamente hoje.

Quem falar das políticas de planeamento, orçamento, financiamento, até mesmo de investimento e de marketing, tem de incluir uma aproximação do clube à comunidade e particularmente à administração local, onde deve ter o maior aliado, que não pressupõe ser a maior teta, mas o melhor ombro. A progressiva inserção na comunidade tornará o clube ou grupo recreativo cultural e desportivo em um património não só desportivo, mas também cultural dessa comunidade e dessa localidade, o que se haverá de manter e renovar por gerações e gerações se tal for a tradição cultural do meio e por conseguinte a do próprio clube.

Há manifestamente um défice de pequenas acções e de linhas políticas de base antes de a acção da nova direcção da FAF poder causar impacto na rotina que existe na maioria dos organismos que ainda respiram maus hábitos do sector da função pública, como o absentismo, a baixa produtividade, a irresponsabilidade, a incompetência. Em Angola todos nos achamos especiais e capazes e audazes e espertos.

Não gostamos da sombra do rigor nem da disciplina, ofendemos a mãe alheia entre dentes e não concluímos nem a terefa mais fácil, de todas as que nos havíamos proposto ao colocarmos os pés numa direcção de clube ou de associação provincial, que seria o tal legado de cada mandato e que não poderia ser melhor nem mais importante para o clube, do que o seu viveiro. No entanto e começando pela simulada actividade a sério dos clubes nos seus escalões jovens, cujos campeonatos nacionais mais tarde serão todos parecidos com um deserto do futebol, é o mínimo que se poderia exigir, e também mais fácil de empreender e manter, porém, nem um craque conseguem descobrir.

Assim a explosão juvenil que noutros países é comum, entre nós não tem pavio para sequer arder e esta, sim, é outra prioridade e touro que a FAF precisa de segurar pelos cornos e abater o mais rapidamente possível. É sabido do compromisso do presidente eleito da federação com o relançamento das academias de futebol, contudo, estas não são prioritárias em relação às acções formativas urgentes para o terceiro e segundo escalão de treinadores, a constituir uma oportunidade também para antigos praticantes e que pode bem estar no topo da agenda da associação de treinadores, importante parceiro da FAF.

Multiplicar as oportunidades implica no caso dos escalões jovens se vir a explorar a possibilidade de em certos jogos levarem os contendores as suas equipas de jovens para se confrontarem em um jogo de Sub-17 a preceder o jogo dos séniores. Os jogos entre equipas de jovens dos emblemas que se vierem a defrontar no Girabola seria uma das importantes medidas a tomar inicialmente no sector juvenil; a outra medida seria assegurar que os melhores júniores pudesse ter licença de dupla categoria se aprovarem no teste de aptidão física para poder estar igualmente a jogar como sénior numa mesma época e clube.

Enquanto os Sub-17 e sub-20 de Angola continuarem a chegar às taças sub-continentais da COSAFA com um défice de jogos em relação aos seus adversários de países ainda mais aflitos económicamente do que Angola, como sejam a Zâmbia e o Zimbabwe, ao compararmos que para se tanto 15 jogos por ano dos nossos, os dos outros chegam a passar dos 30 e 40 jogos, então é esclarecedor por que será que somos quase sistematicamente batidos por eles. E ao mesmo tempo fica evidente que estamos a brincar aos futebóis e a persistir sistemáticamente nos mesmos erros e insuficiências.

E quem falar da pressa ou paciência das academias de futebol não deve também contornar o tema da liga, na esperança de que ambos os tópicos não lancem a FAF a correr no início, dadas as outras prioridades mencionadas, mormente em relação à urgência com a especialização dos recursos humanos e a modernização da gestão dos clubes. FIM

Por maior negócio que a liga represente, a nova direcção pode puxar para cima as calças da federação e suportar por mais um tempo esta caça ao tesouro que a liga parece. Os clubes, como constituintes da liga, precisam primeiro estar maduros e a FAF numa cadeira de rodas, pois nenhum argumento colheu até agora suficiente razão para colocar a carroça na frente dos bois. Existem modalidades desportivas muito particulares como o hóquei em patins e a fórmula um, em que uma entidade privada possui os direitos de organizar a competição e comercializar esses direitos, cabendo à federação somente aplicar o regulamento da modalidade e embolsar apenas um pequeno percentual das receitas.

Ora, não creio que seja isso que interesse ao futebol – dar negócio a um elenco de oportunistas da situação e da desorientação – nem deixar alicerce sobre alicerce à federação, que precisa de avançar a par e passo com o avanço dos próprios clubes e associações provinciais e recuperar estaleca para relançar os projectos das selecções nacionais sem ser perder a posição de supremacia nem arriscar andar a pedir datas e pausas a outra entidade, para poder tocar a reunir pré-selecções. E assim os clubes podem reabilitar-se, estabilizar e entrar em melhor estado e posição para enfrentar a racha de proventos desse negócio apetecido chamado de liga, sem que os clubes acabem engolidos por ela e metidos num saco no bolso de trás.

Fruto do papel privilegiado e relacionamento institucional, a federação poderá encurtar pesos aos encargos e distâncias às tarefas se a par do empreendimento de acções formativas, a FAF indigitar um director técnico a explorar termos e protocolos com os cursos universitário de motricidade humana e o instituto de educação física (INEF) visando a formação de monitores desportivos, desse modo culminando em beleza os primeiros cem dias de gabinete com os actos mais esperados do elenco de Artur Almeida e Silva, o novo presidente da FAF e aquele que uns esperam que consiga tudo e outras aguardam pela sua coragem de romper com o passado em todo e sentido da palavra e do futebol.
ARLINDO MACEDO

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