Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Gabo e o CAN2017

16 de Setembro, 2016
O conflito pós-eleitoral que eclodiu na vizinha república gabonesa, que tem deixado pelo caminho um rastilho de sangue e um cortejo de destruição de importantes infra-estruturas, remete-me a reflectir com alguma frieza e calculismo sobre o que espera do próximo Campeonato Africano das Nações de futebol marcado para aquele país da zona centro do continente africano.

Coloco-me , na verdade, algumas reticências se estará o país em condições de acolher a maior cimeira do futebol africano, uma vez que o calendário gregoriano coloca-nos a escassos quatro meses do seu “pontapé de saída”. Desde já, terminada a fase de qualificação está-se no período em que, por regra, acontece o sorteio do certame.

De resto, salvo raras excepções, é no mês de Outubro que as selecções qualificadas tomam conhecimento dos seus adversários , para a partir dai traçar os respectivos planos de preparação. A ser assim, posso aferir que estamos a poucas semanas da realização do sorteio. E estará o Gabão em condições para tanto? Estará o comité organizador do campeonato a trabalhar para o efeito?

Se calhar, seja hora de a Confederação Africana de Futebol se pronunciar sobre o assunto. De resto, para que a edição não venha ser marcada por um conjunto de constrangimentos este é o momento de se encontrarem alternativas. É urgente pensar-se nesta possibilidade. Pois, com o país em ebulição, é evidente que o comité de organização não funcione em pleno, se é que ainda esteja a funcionar.

A CAF precisa levar em consideração que em face da generalizada crise económica, pode não ser tão fácil encontrar países que aceitem, sem olhar para os prós e para os contras, assumir uma responsabilidade que à partida estava confiada a outro. É certo que no continente países há com excelentes infra-estruturas desportivas, mas isto só não basta. É sempre preciso que se providenciem outros serviços auxiliares, o que não se faz em tempo recorde.

Aliás, estamos lembrados que quando o Reino do Marrocos renunciou o CAN’2015, como acto de precaução à pandemia de Ebola, que ameaçou reduzir a zero países como a Libéria, Serra Leoa e Guiné Conacry, a CAF viu e desejou-se para encontrar uma alternativa, não tivesse surgido uma Guiné Equatorial no momento certo, talvez a edição tivesse ficado comprometida.

No fundo há indícios de se viver a mesma situação. É preciso que a CAF comece a se movimentar já, porque por este andar não se pode contar muito com o Gabão. O que pode estar a faltar é coragem das autoridades desportivas do país notificarem esta instituição sobre a sua renúncia à organização do evento. Os próximos dias poderão ser decisivos, sendo que para tudo o sorteio constitui o primeiro passo.

Desde Março de 1988 na presidência da CAF, o camaronês Issa Hayatou estará a viver a pior fase do seu consulado. Duas edições consecutivas em clima turbulento não é pouca obra. Em caso de o Gabão renunciar terá o homem que voltar a fazer o mesmo percurso de há dois anos. Sair à procura daqueles que lhe podem estender a mão para salvar o torneio que se disputa sem interrupção desde 1957 no Sudão.

Fiquemos atentos aos próximos desenvolvimentos. Mas se quando em 1996 o Quénia desistiu apareceu a África do Sul como salvação, e em 2015 a Guiné Equatorial veio acudir a desistência do Marrocos, é certo que em caso do Gabão renunciar apareça A ou B ao seu lugar. Mas é preciso agir já e agora...
MATIAS ADRIANO

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