Jornal dos Desportos

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Opinio

Girabola: o mito (real) em desconstruo (total)?

19 de Fevereiro, 2018
Começo o artigo de hoje, por previamente desejar a FAF, a ZAP e a todos clubes integrantes do Girabola, recém -iniciado, um “melhor” Girabola de “sempre”, porque pedir um “bom” Girabola de “sempre” nesta fase, é o mesmo que pedir ao Diabo que ensine o pai -nosso ao vigário!
Porém, devo dizer também que do fundo do coração estou preparado, para o “pior” Girabola de “sempre”!
Agora, na minha incursão para o artigo de hoje, de realçar que desde a primeira vez que tive contacto directo com a mítica e carismática obra literária \"Mito e Realidade\", do filósofo romeno Mircea Eliade, em que longe de apresentar um contraste abismal entre mito e realidade, como comummente muita boa gente entre intelectuais, académicos e leigos ainda o fazem em nossos dias, o referido autor defende uma fusão e integração entre os dois termos, que mais parecem de costas viradas, do que propriamente de mãos dadas, pois, deixei de olhar para muitos factos marcantes da história humana, principalmente os mais tristes, como mero exercício de aprendizado, ou como se de um “farrapo triste” se tratasse!
Para todos os efeitos, passo a citar textualmente uma das passagens desta obra que a mim muito me fascina: “O mito é considerado uma história sagrada e portanto uma ‘história verdadeira’, porque sempre se refere às realidades. O mito torna-se o modelo exemplar de todas as actividades humanas significativas”, fim de citação.
Pelo que se pode perceber na passagem acima descrita, o autor da obra referia-se principalmente às sociedades primitivas, mas essa compreensão é fundamental para o entendimento do mito no mundo moderno. Ser ou servir de exemplo é a chave utilitária do mito, tanto numa história fantástica como personificada em acontecimentos de grande mobilização e mobilidade social, com projecção e impacto na vida de uma determinada sociedade. Este último caso, é o que nos interessa de momento.
Afinal, considerar o Girabola especialmente este que já vai na segunda jornada, de forma habitual e viciosamente amputada em moldes brutal e violentamente atípicos, como a “festa das nossas paixões”, a “festa das nossas multidões”, soa aos nossos ouvidos de maneira banal, para não dizer ridícula em sentido humorístico, assemelha-se a alguém que nos diz meio a brincar e meio a intrujar, que podemos chegar ao mel sem passar pela colmeia!
Com tantos e tamanhos erros que se amontoam e se multiplicam ano após ano, muitos desses erros são absurdos e triviais na sua estruturação, na sua planificação e na gestão do campeonato desportivo mais nacional de Angola, como pode o mesmo possuir uma imagem fantástica e ficar para sempre “congelada” nas mentes e corações do povo angolano?
Numa altura em que definitivamente (já) devíamos fazer em termos de imagem, de brilho, de sucesso, de prestígio e de honra a nível da região austral e continental a histórica “curva para o nosso Girabola, sem corrermos o risco de perder o controlo do volante, eis que repetida e teimosamente piscámos à direita, para no exacto instante virar a esquerda”!
É verdade que desde 1979, quando o Girabola viu pela primeira vez a “luz do sol”, ocorreram edições com os habituais e incomodativos sobressaltos e solavancos, mas nunca com uma margem tão probabilística de ocorrerem estragos, com consequências (im) previsíveis na actual edição atípica do Girabola.
Se na realidade um mito constrói-se para além dele mesmo, muito mais pela demanda dos crentes do que pelos seus atributos imanentes, então, a desconstrução do GIRABOLA como mito real é inevitável.
Não tanto pela acção dos desafectos organizativos ou conjunturais, mas por suas próprias decisões de não corresponderem às demandas dos fiéis e prosélitos consumidores de um produto há muito depreciado e expirado. Como me perguntou uma pessoa desconhecida, que por ironia do destino estava trajada com a camisola em que estava estampada a “marca” Girabola Zap, se eu sabia o porquê de ele usar uma camisola daquelas! E, a procissão ainda vai no adro.
Basta olhar para o cortejo e desfile de queixas, de lamentações e gemidos à mistura, que se ouvem dia – sim, dia – sim, da parte dos clubes que estão a participar na compita, que até ao momento atravessam na sua maioria sérios problemas de tesouraria que se agudizam à velocidade da luz, dado o facto de muitos desses clubes viverem de mordomias e de excessiva dependência que proporcionavam os patrocinadores estatais.
Agora, estão a ver navios e a ver a banda passar, porque não têm espaço nem tampouco margem de manobra para buscar novas ou outras fontes de financiamento, porque os inputs que foram apresentados em termos de preocupação, por parte de algumas empresas que estão com interesses de começar a dar os primeiros passos para estabelecerem vínculos entre patrocinadores e patrocinados, referem que o Girabola na sua essência e no contexto actual devia apresentar uma visão comercial da competição, e que em função disso, não é um lugar indicado para se investir em termos de publicidade, imagem e notoriedade para as marcas empresariais.
E, só a Zap, com sua “engenharia” orquestrada ainda dá algum ritmo diferente à competição, embora a “engonhar e engonhar”, publicamente não chegou a dar a “cara” para explicar convincentemente qual a alma do segredo que está por detrás e dar o “naming” ao Girabola, se é que o Girabola tenha segredo em termos de negócio, já que se diz que o segredo é alma do negócio!
Enfim, que dizer mais? Que voltarei à carga em artigos futuros, mas não gostava de terminar o artigo de hoje, sem puder relembrar a frase usada ironicamente pelo malogrado treinador de nacionalidade brasileira, Djalma Alves Cavalcante, quando a seu jeito tratou de trocar o substantivo Girabola, por PARABOLA, pelo *+-acto da prova registar na altura paragens sucessivas, sem aparentes razões!
E, não nos devemos esquecer que naquela altura estávamos em tempo de vacas gordas, em que éramos felizmente desorganizados, embora, não soubéssemos!
Aí, não sei, tampouco gostaria de ouvir ou presenciar os estragos que devem surgir, se esse “fantasma”, GIRABOLA/PARABOLA, idealizado por Djalma Cavalcante, decidir “ressuscitar do túmulo, onde certamente, anda às voltas”!
*MENTOR E GESTOR DO FÓRUM MARKETING DESPORTIVO.
Nzongo Bernardo dos Santos

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