Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Hegemonia europeia

08 de Julho, 2018
Com Ásia e África feitos \"parentes pobres\", quase remetidos à mera condição de animadores da festa, sem performances para disputarem o título em igualdade de circunstâncias com a Europa e América do Sul, desde o Uruguai, em 1930, que o Campeonato do Mundo de futebol é monopolizado pelos países destes últimos dois continentes.
No cômputo de 20 edições já disputadas, não se conheceu campeão que não seja europeu ou sul americano. É quase uma tradição o bolo ser dividido pelos dois, sem migalhas sequer para terceiros. Entretanto, na última década, a Europa tomou à dianteira, \"violando\" o princípio da chamada \"Lei da Continentalidade\", que teve uma vigência de 48 anos, correspondentes a 13 edições.
À saída dos oitavos-de-final, a Europa voltou a vincar a sua hegemonia, deixando de fora a Argentina e o Brasil. As meias-finais são quase uma espécie de Euro. França, Bélgica, Croácia e Inglaterra formam o quarteto dos duros, daqueles que souberam espalhar um futebol mais vistoso, que bastou para superar as adversidades.
É certo que, em termos de potencial numérico, a Europa tem mais selecções em relação à América do Sul, que encontra a sua expressão máxima apenas no Brasil, na Argentina e no Uruguai. Logo, tem menor espaço de manobra e também menor possibilidade de se colocar em posição vantajosa, embora saibamos que já o fez durante cerca de cinco décadas.
Na verdade, desde 1962, quando a prova se disputou no Chile, que Europa e América do Sul passaram a travar uma rivalidade salutar. Durante 13 edições, o título nunca foi para um mesmo continente em duas edições consecutivas. Houve sempre um processo de revezamento, ganhando uma edição a Europa e outra a América do Sul.
Espantoso, e aqui radica o mérito da América do Sul, é que enquanto o Velho Continente contava com potências como Itália, França, Alemanha, Inglaterra, Espanha e outros, já do outro continente, com o Uruguai sem expressão competitiva durante anos, apenas o Brasil e a Argentina defendiam a honra. Conseguiram-no durante 13 edições.
Na edição de 2010, na África do Sul, quando era suposto ser a vez dos sul americanos erguerem o troféu, já que os europeus, por intermédio da Itália, o tinham feito na edição anterior, na Alemanha, foram outra vez os europeus a sorrir, coisa que não acontecia desde 1962 no Chile, onde o Brasil se sagrou bi-campeão mundial.
Na África do Sul o mérito coube à Espanha, que se apresentou com uma potente máquina de jogar futebol, cujo \"maquinista\" atendia pelo nome de Vicente Del Bosques. Daí para aqui só deu Europa. Alemanha em 2014 e outro com identidade europeia no próximo dia 15.
Brasil, Argentina e Uruguai, as potências do futebol sul-americano, precisam rever o seu esquema de trabalho e identificar o mal que penaliza o seu futebol. De acordo com a ordem no gráfico dos campeões e antes do Chile\'62, já se deu o caso de um continente ganhar duas edições seguidas, como foi em 1934 e 38 (Itália) e 1958 e 62 (Brasil). Mas agora estamos em presença de quatro edições.
Mais decepcionante é que sequer as selecções sul-americanas lograram chegar às meias-finais, sendo talvez a sua pior campanha, depois de, na edição passada, a Argentina ter disputado a final do torneio palmo-a-palmo com a Alemanha, naquilo que pareceu ser um sinal positivo do ressurgimento do poderio sul-americano.
De resto, esta decadência já há muito vem se manifestando. Pois, depois que o Brasil perdeu a final de 1998 para a França e ter triunfado em 2002 no Japão e Coreia do Sul, as finais dos mundiais de 2006, 2010 foram todas elas de timbre europeu. Tudo isto pode ter a sua explicação, mas que ultrapassa o conhecimento do articulista.
E assim o campeonato do mundo termina em espécie de Euro, numa clara manifestação da vitalidade, que vai pelo futebol dos países europeus. Talvez nos reste apenas aguardar e ver o que nos dirão o Brasil, a Argentina e o Uruguai daqui a quatro anos, quando a nata do futebol mundial, voltar a se juntar no Catar. Até lá...
Matias Adriano

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