Jornal dos Desportos

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Opinio

Homenagem merecida Chinho e a Pipas

13 de Julho, 2019
É difícil falar de desportistas, que partem para a outra dimensão. É difícil falar de referências do desporto que, num passado recente, cativaram e incentivaram a juventude com a sua força, vigor, entrega, determinação e, sobretudo, patriotismo.
É difícil falar de jovens que, na flor da idade ainda, apesar de terem deixado a prática activa do desporto, davam o seu contributo à causa. É difícil falar de desportistas que prestaram valiosos serviços à Pátria, particularmente pela forma como fisicamente desaparecem. A maneira como as fizeram desaparecer.
Falo particularmente dos ex-praticantes de basquetebol e futebol Avelino Silva “Pipas” e João dos Santos Almeida “Chinho”. Dois ícones do nosso desporto, que pereceram nos últimos dias e, por consequência, deixaram o nosso convívio definitivamente. Morreram. Primeiro, o nosso Pipas. O grande Pipas. Teve morte natural, mas ainda assim, prematura. Segundo relatos chegados de Benguela, sua terra natal, o mesmo teve morte súbita. Lá se foi o Pipas! Filho de uma família de desportistas. Aliás, não é em vão que é filho do também malogrado mais velho “Pepino”.
Pipas teve um trajecto notável a nível do basquetebol, sua modalidade de eleição onde, por força disso, actuou em vários clubes em Portugal e em outros países do velho continente e, particularmente no 1º de Agosto onde assinalou uma passagem notável. Depois, preferiu enveredar na carreira de treinador, para transmitir o muito que aprendeu ao longo da sua carreira. Nos últimos tempos foi técnico da equipa da Crisgunza e estava a apostado em devolver a província de Benguela à alta-roda do basquetebol nacional. Perde-se um verdadeiro homem do desporto, cuja petulância competitiva era por demais conhecida.
Por seu turno, perdemos Chinho. O grande Chinho! Um futebolista de eleição, cuja trajectória é consabida. Jovem cordato, educado e de trato fino. Desde logo sobressaiu nas escolas de futebol do Petro de Luanda, das mãos do mister Carlos Queirós “Man Quera”. Guindou para a equipa principal, onde foi um verdadeiro craque. Mas, antes, ainda garoto, com os seus 17 anos, fez parte da selecção da categoria, que disputou, pela primeira vez, o Campeonato Africano das Nações (CAN), na Guiné-Conacry, em 1999. Chinho era o “ÁS” num conjunto onde pontificavam Mantorras, Mendonça, Dedas, Gilberto, Ângelo, Fefé, Igor e tantos outros. Chinho era o capitão duma selecção que tinha como timoneiro o nosso Oliveira Gonçalves. Chinho era a extensão do treinador dentro do campo. Permitam-me dizer e dar o meu testemunho porque, nesta participação de Angola em Conacry, fomos, eu e o meu colega Honorato Silva, pela Edições Novembro, os únicos repórteres angolanos a fazer cobertura do mesmo.
Aí desenvolvemos uma relação muito próxima com os jogadores da Selecção Nacional, principalmente os mais influentes. Certa vez, depois do primeiro jogo do combinado nacional em que o desempenho não foi o dos melhores, longe das expectativas, ousadamente, sem que Oliveira Gonçalves se apercebesse, movidos pelo alto espírito de patriotismo que nos consumia, chamamos para o nosso quarto do hotel, Chinho, Mantorras, Mendonça e Gilberto para uma conversa séria, dando-lhes a ver a importância, que aquela participação tinha para o País e para o futuro das suas carreiras. Em determinado momento da conversa, tivemos que lhes dar “bafos”, dado a “mangonha” que pareciam fazer em campo.
Depois disso, foi o desabrochar. Os quatro jovens, sempre que nos encontrássemos, agradeciam o facto de lhes termos “puxado as orelhas” e lhes ter despertado para assumirem o potencial que tinham. Acto contínuo empenharam-se e, o resultado foi o que se viu. Embora naquele CAN não tenham logrado muito, mas, no prosseguimento, a mesma geração viria depois vencer o CAN de Sub-20 na Etiópia, em 2001 e depois participado, de forma notável, no Mundial da Argentina.
Deixa-me realçar aqui a humildade, a seriedade e a responsabilidade que, já naquela altura, Chinho cultivava. Era determinado. Conseguia incentivar os seus colegas, para desafios maiores. O certo é que, a sua carreira foi um autêntico sucesso e, por onde passou, no Sagrada Esperança, no Santos FC e no Recreativo do Libolo, acredito que a sua folha de serviços foi notável. E, acredito que não só isso, mas, sobretudo como pessoa doce que era. Certa vez, já depois de ter deixado de jogar futebol, numa entrevista na Rádio Cinco, Chinho já feito empresário de sucesso, incentivava os ex-futebolistas a saberem viver, depois de terminarem as respectivas carreiras.
Dizia que aproveitou formar-se e criar as suas empresas. Era feliz com sua família, amigos e negócios. Portanto, como devem calcular, não é fácil encarar estes acontecimentos de ânimo leve.
O importante será, sem dúvidas, sabermos honrar a memória desses dois “gurus” do nosso desporto, que partem de forma prematura para outra dimensão. Este é um golpe duro! Chinho e Pipas merecem a nossa homenagem com vénia!
Morais Canâmua

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