Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Homenagens e lapsos de memria

22 de Novembro, 2018
Aqui e agora não é o mesmo que todo o sempre. O que entrar para a história deve ter o valor eterno e não apenas uma validade por época.
Homenagear não pode ser um acto de vaidade, embora possa ser da preferência pessoal de quem prestar a homenagem. E isso não é justo, nem deverá constituir marco histórico sequer. Fica num acto de amigos simplesmente. Mesmo se for público, embora com as bancadas vazias, como foram homenageados sábado último “Os Luvas de Ouro” do futebol angolano e que se esqueceu da nata.
Se as pessoas quiserem homenagear estão no seu direito, porém, ao dar uma dimensão histórica única, era bom ver primeiro quem se perfila ao longo da história como merecedor de qualquer distinção pública e honorífica.
A primeira grande questão que estão a levantar as homenagens é se elas estão a ser despolitizadas e neste caso não fará nunca sentido em homenagear só aqueles que nasceram a partir do dia seguinte à independência do território em diante, mas também aqueles que sendo da mesma nação, atingiram a glória alguma vez nacionalmente representativa.
A segunda questão e não mais pequena que a primeira, é habituarmo-nos ao critério do mérito aferível e neste caso sempre haverá entre os guarda-redes de qualquer jogo, ou os defesa, ou médio, ou atacantes, aqueles que ou foram mais vezes campeões, ou mais vezes goleadores, ou mais vezes seleccionados; entre os guarda-redes homenageados sábado passado, nos Coqueiros, quantos chegaram à selecção nacional e jogaram?
Para mim, essa seria a pergunta que haveria de diferenciar os candidatos a homenagem e os verdadeiramente unânimes e homenageados por isto também. As recentes homenagens do Palácio não foram as primeiras, mas foram nacionais; e ao que parece, na homenagem às luvas de ouro do nosso futebol esqueceram-se de muitos pares de luvas, pois uma homenagem aos guarda-redes da história do futebol angolano merecia melhor preparo da base de dados.
O evento vinha agrupado com uma partida de futebol entre antigos craques desde o tempo do Abel Campos (Anos 80-90), para citar aquele que havia chegado mais longe no estrangeiro, depois de Jacinto João, Joaquim Dinis ‘Brinca n’Areia’ ou Domingos Inguila; é que há uma diferença entre antigos craques e velhas glórias.
Os craques são os tecnicamente considerados melhores, mas as velhas glórias são as que mais se notabilizaram (e daí o termo glória, velha glória disto ou daquilo) sendo eles craques ou não tanto assim. A lista de velhas glórias particularmente consagradas no futebol colonial, ou agora, nesta fase pós-colonial em que estamos ainda, também teve guarda-redes. Mas destes só Carlos Alberto “Calabeto” (Ferrovia de Luanda e ASA) e Manecas Leitão (Sporting de Luanda, Ferrovia do Huambo/Kurikutelas) foram pinçados.
Assim e para fazer um bocado de luz sobre os antecedentes que rondam estes nomes, vou aproveitar ter falado no Manecas para dizer que ele ficou muito simbólico no futebol angolano pelo facto de ser o guarda-redes campeão de Angola (Ferrovia do Huambo ou “Kurikutelas” 1974) à data da sua independência, e depois o primeiro guarda redes do país aquando do nosso baptismo internacional.
E não será em vão que vou mencionar o seu suplente, Ângelo Silva. Ele era júnior do Manecas, quando este passou pelo Sporting de Luanda em 1972, ano do primeiro campeonato de Angola com o formato do ‘Girabola’, quando os verde-e-brancos foram vice-campeões, sagrando-se campeão o Mambrôa do Huambo. E em 1973, o Futebol Clube do Moxico.
Curiosamente Manecas foi também o primeiro guarda-redes de selecção numa Angola independente, quando sob o comando do seleccionador, Lutero da Costa, foi chamado a defender a nossa baliza no jogo que seria do baptismo internacional dos “Palancas Negras”, realizado a 8 de Fevereiro de 1976, no Estádio da Revolução, em Brazzaville. Angola defrontou uma selecção local inseparável dos seu quatro futebolistas de referência, uns autênticos tratados do futebol africano da época e intratáveis craques desconcertantes com a bola nos pés: François “M’Pelé”, Jean-Jacques Ndomba “Géomètre”, Noel Minga e Pepe.
Angola perdeu com o Congo por 2-3, com golos nossos apontados por Geovetti e Nelito. Esses “Palancas Negras” fundadores eram: Manecas (Ângelo); Catarino, Luisinho, Nelson e Mascarenhas; Ginguma, Geovetti e Chimalanga; Arlindo Leitão, Carlos Alves e Luvambo. Também jogaram Santo António, Arnaldo Chaves e Chibi.
Ainda em 1976, essa ‘selecção’ de Angola foi também a São Tomé e Príncipe fazer uns jogos de demonstração. Comandado pelos então seleccionador Ferreira Pinto, estavam Manecas e Ângelo, que jogou a guarda-redes titular dessa vez; Jaime, Armandinho, Santo António, Vinhas; Ginguma, Augusto Pedro e Geovetti; André Costa, Matreira e Arlindio Leitão. Na segunda parte entraram Manecas; Catarino, Luisinho, Mascarenhas e Juca; Beto, Nelito e Ernesto; Chibi, Rábida e Arnaldo Chaves. Jogaram ainda Figueiredo, Lalá, Mateus e Sardinha.
Assim e voltando ao assunto, onde hão-de ficar na história do futebol angolano os nomes dos guarda-redes da nomeada de um Benge (Atlético, Sport Lisboa Benfica e Varzim Futebol Clube), “Kopé” (São Paulo Luanda), Neto (Portugal de Benguela, Independentes do Tombwa), ou ainda Valongo (Portugal de Benguela, Sport Lisboa Benfica)? Ou ainda Piedade (Benfica do Lubango) e Monteiro da Costa (Mambroa)...
Sábado passado, nos Coqueiros, aquilo tratava-se de uma homenagem intitulada os “Luvas de Ouro” do nosso futebol, mas seria exclusivamente para gente viva e sem direito a homenagem póstuma para gente que um dia foi quem foi? E se assim for terá
a mesma dimensão histórica que se queira que o futebol recorde, ou apenas se quer recordar uma época? Ainda assim, os mortos da mesma época não tiveram uma vida e obra para ser lembradas, nem uma pátria que os recorde?
Curiosamente o caso de Ângelo Silva é um deles. O antigo júnior do Sporting de Luanda e protegido do general Ndalu, era um dos nomes que haveria de sobressair na fundação do clube Primeiro de Agosto. Antes disso, o general havia enviado Nico Berardinelli ao Huambo, para convidar Manecas e Arlindo, bem assim como a Carnaval, Chimalanga, Lutucuta, Mascarenhas, entre outros mais, para virem para a capital concretizar o novo emblema. Porém, casado e a querer reforma dos campos, Manecas não veio, nem o irmão; somente Carnaval, Chimalanga e Mascarenhas.
Mas os militares haveriam de conseguir juntar outros futebolistas que havia tresmalhados de uns clubes ainda a querer perceber a nova situação do país, e nomeadamente como se haveria de reger a vida desportiva, tendo o Petro e D’Agosto aproveitado isso para criar património e as duas melhor recheadas equipas.
Um desses reforços viria a ser o guarda redes Napoleão Brandão, então suplente do Carlos Alberto “Índio”, nos Dinizes de N’dalatando, uma senhora equipa dos Anos 70. Pois, ia o Napoleão fardado de polícia, a passar de motorizada, quando o Manecas o viu e apontou dizendo “olha, olha, ali vai um bom guarda-redes que conheço e é para aproveitar”.
Foi assim que o polícia Napoleão Brandão entrou para o clube militar, a par de Ângelo Silva e Carnaval. Para Manecas, era uma dívida moral saldada, ter ajudado a ferrar a baliza do nóvel clube militar. Porém, isso não explica que ambos tenham sido lembrado, enquanto Ângelo, não.
Os nomes do tempo e da lembrança de uns, infelizmente não de todos, sobre quem foi quem nas redes do futebol em Angola, não estão rigorosamente baseados em feitos, números, dados ou algo de facto objectivo e não subjectivamente falando apenas; por isso não se descortina, no final da cerimónia, de que tamanho tenha sido realmente o escopo do seu critério sobre os nomes de guarda-redes que o futebol angolano deva recordar.
O problema do critério está sempre em ser justo. Homenagear os guarda-redes é uma coisa e nomear aqueles que foram os luvas de ouro do futebol, é outra; por exemplo, um dos critérios seria considerar “luvas de ouro” todos aqueles guarda-redes em vida ou não, que vestiram a camisola da selecção do país; ou, então, todos aqueles que efectivamente defenderam a baliza nacional, já que muitos suplentes nunca saíram do banco em jogos.
Eu não acho que este critério fosse injusto em qualquer uma das versões, seja a primeira e para todos aqueles não mais praticantes e que um dia já estiveram numa convocatória da FAF; ou então, uma versão mais selecta ainda e somente de todos aqueles que alguma vez entraram em campo e jogaram de facto.
O tempo sempre cria oportunidades para se repararem as injustiças do reconhecimento público, e espero que esta seja uma delas. Para que as luvas de ouro sejam justas recordei aqui alguns nomes e feitos que devem contribuir para uma história do futebol angolano inclusiva e sem artifícios de épocas, umas em detrimento de outras; nem favorecimentos particulares que parecem ser demérito para aqueles já perecidos, mas que um dia também entraram para a história com factos. Arlindo Macedo

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