Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Honremos as nossas glrias

15 de Dezembro, 2018
Afigura-se sempre pertinente falar ou escrever sobre ex-atletas, de qualquer modalidade, que num passado recente deram o seu melhor, contribuindo para a evolução da mesma e, também para que o País alcançasse glórias no contexto continental e internacional.
Neste particular são vários os nomes que podem ser apontados mas que, por ironia do destino, e também por “pouca sorte”, hoje foram atirados num recanto e esquecidos pelo tempo. Infelizmente, a memória colectiva esquece-se dos seus melhores filhos que, por amor à camisola, suaram-na, proporcionando vitórias e alegrias a um povo que, estando no limiar da sua independência, dava os primeiros passos no contexto das nações.
Os exemplos são vários e nas mais distintas disciplinas desportivas onde os suportes para a salvaguarda do homem no período pós-competição, não foram salvaguardados. Por mal dos pecados, e porque estávamos numa altura da chamada “reconstrução nacional”, muitos dos praticantes, vindos já do tempo da outra senhora e dispostos a darem continuidade, emprestando a experiência acumulada, preferiram com patriotismo, dedicar-se exclusivamente ao desporto, deixando de lado a outra vertente, a preparação para o “day after”. Não tendo linearmente acontecido assim, na maioria dos casos, o passar dos tempos veio provar o que muitos não previam.
A maior nata de desportistas não estava suficientemente preparada a encarar o dia seguinte, ou seja o período após o abandono da prática do desporto. Poucos foram os que conseguiram com esforços mil, estudar e se formarem.
Os outros, à guarda do Estado e da Economia centralizada de então, se deixaram levar com pequenos benefícios que passavam em lojas francas, cartões de abastecimentos, etc., etc, próprias de uma realidade que o sistema impunha.
Na verdade, poucos previam que o futuro era muito mais desafiante. Muito mais feroz. A evolução dos sistemas político e social e da própria sociedade em função dos sinais do tempo, provocou que as viragens se processassem sem contudo alguns pressupostos sensíveis, principalmente os ligados ao desporto. Essas, provocaram derrapagens cujos efeitos se foram manifestando de forma natural. Os antigos atletas que ontem foram ídolos de milhares de jovens, acabavam treinadores sem formação e, outros, remetidos à mendicidade e pedintes de esquina.
Ainda assim, durante vários e largos anos, ninguém ousou dar ouvidos aos gritos para acudir uma causa que impunha protecção e acção. Havia necessidade de se criar políticas urgentes para salvaguardar àqueles que ontem, no limiar do nascimento da República seguraram o leme para nos fazer afirmar como país novo, com uma diplomacia desportiva acentuada no patriotismo e no amor à camisola.
Não ganhavam absolutamente nada. Uns, nos seus clubes de referência, faziam contratos inclusive de aparelhagem de som, de motorizadas, de mobílias de quarto, de cartas de condução, enfim de electrodomésticos, etc., porque a própria realidade social exigia.
A realidade era dura e crua. A realidade social era àquela!Ao cabo do tempo, tudo transformou-se e eles acabaram na rua da amargura, sem nada. Absolutamente nada! A necessidade de uns tempos à esta parte, tem sido no sentido de lhes devolver a dignidade. A honra. O valor que realmente têm no cômputo do desporto.
A institucionalização por parte do Estado da devida protecção social com base em instrumentos legais que visam refazer o quadro, é bem-vinda, na medida em que, mais dos que outros que de arma na mão proporcionaram a consolidação da independência, estes, os desportistas, tiveram a sua quota-parte na intensa luta. Na emancipação desportiva da sociedade. Na identificação do desporto no País. Na construção de todo edifício que proporcionou que, anos mais tarde nos impuséssemos no continente nas modalidades de basquetebol sénior masculino; andebol sénior feminino; hóquei em patins, no desporto adaptado, enfim, no futebol cujo ponto mais altos foi a presença de Angola no Mundial da Alemanha em 2006.
Há que continuar na senda da protecção social dos nossos valorosos ex-desportistas que hoje, anos depois de darem o seu melhor e provocarem a conquista de imensas glórias, possam desfrutar das recompensas que a Pátria lhes deve.
Só assim, teremos esperanças de que os que dão o seu melhor hoje, na perspectiva de continuidade para se manter a bitola gloriosa, amanhã, num futuro que está já ao dobrar da esquina, possam ter igualmente um “estatuto” digno e reconhecido.
Temos que ter coragem de fazer reformas em alguns aspectos profundos, principalmente aqueles que se identificam com a salvaguarda do valor humano. Da dimensão humana. Da dimensão dos desportistas da alta competição, no que ao “day after” diz respeito.
Palmira Barbosa, Gustavo, Sidrak, Kaissára, Sayovo, João Machado, Chimalanga, Eduardo Laurindo, Ndungidi, Jesus, Alves, Napoleão, Tó-Zé, Nejó, Paulão, Amaral Aleixo, Vicy, Fusso, Nzuzi André, Sarmento, Malé, Pepé, Brás, Basílio, Lucas e tantos outros, são as nossas referências máximas de um tempo em que se fez desporto com imensas dificuldades, mas conseguiram demonstrar vigor, patriotismo e amor à prática desta vertente social incentivando e influenciando os jovens de então para a continuidade persistente, resiliente e vigorante. Hoje, somos uma Nação de referência desportiva em África e não só, graças à eles. Saibamos reconhecê-los!
Morais Canãmua

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