Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Hora de decises para o cofre do desporto

18 de Maio, 2019
O orçamento do Estado para o desporto reduziu-se drasticamente em 2019, como não poderia deixar de ser. Assim e se os perto de 650 milhões de Kwanzas não chegam claramente para alimentar o sonho a todos, era preciso um critério para escrutinar na pobreza, quem seriam os mais merecedores.
Defender que o igualitarismo é a melhor forma de satisfazer a gregos e a troianos, implicaria que primeiro não nos fizesse diferença se vai um campeão ou outro, uma selecção ou outra, porque assim é o igualitarismo, ou seja, tanto faz uns ou outros.
Nesse particular competirá sempre ao órgão reitor do desporto e gestor da verba estatal para essa actividade, ter critérios para subsidiar as missões desportivas. E esta é a grande questão, a destrinça entre as diferentes missões que se apurarem para campeonatos continentais e mundiais. Mas se assim não se fizer, então depreender-se-á que os sortudos que tiverem provas no primeiro semestre do ano ainda encontrem uma sobra no fundo do saco, enquanto os azarados com provas no segundo semestre estarão na corda bamba, até ver quando cairão.
Como me contava um amigo ligado à questão desportiva no país, estão curiosamente a qualificar-se todos para saírem, viajarem e merecer competir lá fora, quando era admissível que alguns atletas ou selecções pudessem ser descartados por insuficiência de resultados, logo, serem eliminados da equação financeira na pobreza. Como em tudo na vida, a excelência é um marco e olhando para todos esses nossos já qualificados, posso estar como um professor diante duma turma em que todos aprovaram, porém, uns passando com notas máximas e outros com tangentes e sem um quadro de honra. E assim, se fossem escassas as bolsas de estudo, para quem elas deveriam ficar?
Não vejo o desporto de forma diferente dessa, pois, as notas escolares equiparam-se facilmente a resultados desportivos, logo, haverá atletas ou equipas que se apuram com recordes nacionais ou novos máximos pessoais, enquanto outros simplesmente logram apurar-se, mas sem algum realce particular para além desse apuramento matemático. E neste caso, serão todos iguais, ou uns menos iguais que outros?
Entre nós, acredito que faltam critérios de mérito desportivo baseados em qualidade e performance, na hora de se dar o visto bom ou nem tanto, para aprovar as representações desportivas angolanas viajarem a custas do Estado, para uma prova internacional, continental ou mundial, sabendo-se que ao sairmos do país, nem todas as competições a que vamos serem equiparadas.
Assim e de entre todos os critérios que possa haver, em princípio pré-definidos, nenhum outro seria tão meritório como ter-se obtido ou perseguir um novo record nacional, por exemplo. Mas também se um atleta individual se apurar graças a um novo máximo pessoal, sinal de evolução e de merecimento de mais oportunidades. Mas se for uma equipa, ter ganho de maneira expressiva e promissora de melhor resultado do país, que os anteriores. O que não se deve, é não ter plano algum, nem critérios de aferição, faltando-nos depois desafios e estímulos para o crescimento do rendimento desportivo dos atletas e equipas que atinjam nacionalmente a excelência.
Ora, campeão nacional é aquele que vencer o campeonato, porém, à falta de suficiente verba para todos os nossos campeões nacionais, individuais ou por equipas, irem lá fora competir, então abrir-se-nos-ão dois cenários: é preferível deixar cair uma equipa sem grandes promessas e mandar vários campeões nacionais individuais às suas provas internacional, em vez daquela; ou, inversamente, sacrificar-se a viagem de vários campeões nacionais individuais sem grande relevo internacional, caso a equipa que se vá privilegiar possúa real potencial para brilhar lá fora.
O que eu não posso é dividir pouco por todos se o quociente ficar irrisório, mas salvaguardar o pouco que houver, para quem mais resultados me prometer. No entanto, será assim que se pensa no ministérios dos desportos, que mais vive preocupado com a distribuição de sonhos e promessas de futuro, pela juventude?
Sim, somos um país novo e temos muito a aprender, ainda, porém, desaprender o que já sabíamos, é que me deixa preocupado.
Breve e para concluir a ideia, defendo que entre os critérios para se aceder às escassas divisas do país que restam para o desporto, importa sempre analisar-se primeiro o custo/benefício de cada missão desportiva. E as vantagens dos vários resultados positivos possíveis, sendo uma dessas vantagens, a ocasião que nos oferecer.
Vejamos o seguinte exemplo: nunca como antes Angola pôde estar tão perto do top mundial do hóquei-em-patins. A demonstração recente em Montreux e as leituras que se fazem, tornam a nossa actual selecção numa equipa capaz de tudo. Conta quem lá esteve e viu: Argentina, Espanha, Itália e Portugal, assim por ordem alfabética, pode estar todas ao nosso alcance, como nunca antes, no próximo Mundial. Entretanto, há um factor dominante e chama-se idade biológica. Estes jogadores, um dos quais a quarentar, mas de todos o melhor, ou têm esta oportunidade, ou tão proximamente não teremos outro combinado tão talentoso reunido. Assim sendo, fica a selecção nacional de hóquei entre as equipas angolanas favoritas para aceder às escassas divisas?
Eu duvido que no MINJUD se reflicta assim, e não é que eu reflicta melhor, apenas com o bom senso desportivo de quem já viu o desporto nacional a ser erguido, e logo a seguir a começar a ser derrubado, bastando para tanto surgirem as pedras erradas no xadrez das tomadas de decisão. Trocar especialistas por políticos e politólogos não me parece a composição mais sensata dos homens e mulheres que hoje decidem os futuros desportivos do país. De uma coisa eu estou certo, é que a última selecção a entrar em competição mundial poderá ser, até, aquela para quem já existirá uma reserva necessária, e então acreditarei que critérios já os haverá, simplesmente podem não ser os mesmos a toda a hora, nem sequer justos. Simplificando, para dezembro, no Mundial do Japão, já haverá pé de meia para a selecção feminina de andebol?
Bem, esta é daquelas nossas selecções que, pelo seu histórico e percurso, merece contínua aposta, mas o que se dirá a outras selecções que compitam antes, como as de hóquei, ou de futebol, nesta altura em que ambas estão sem saber com que dinheiros contarem para ambicionarem também elas, a excelência?
Como se vê a questão, seja ela posta direita ou do avesso, não parece haver ainda clarividência a respeito de como tratar a representatividade do país em todas as frentes desportivas, face à exiguidade actual de meios financeiros para suporte, porém, algumas irão, só não saberemos, aqui fora e entre nós, qual será o critério seguido por quem escolhe, distribui e dá, ou corta. Nem esperemos que nos venham depois explicar, pois em Angola, há coisas no desporto que ninguém explica, e outras que nem explicação têm. Chegando ao futebol, falemos primeiro da medalha de bronze africana dos Sub-17 e do cenário para a sua ida ao Mundial da categoria. Pelo meio, o (res)surgimento dos “Palancas Negras” com ambição e um retorno ao CAN seis anos depois. E, porque não são menos que os outros, a selecção de basquetebol e o seu mundial sénior masculino de finais de Agosto, na China. Honestamente, dessas três, qual haveria de merecer mais que outra? Que ordem de precedência se poderá estabelecer?
Aos poucos iremos perceber que somos um país que não sabe ainda exactamente o que prefere e como tal parece o Zé Nabiça, que tudo o que vê, cobiça. Já é tempo de termos uma espécie de fundo de gestão de reservas para, dentre as obrigações nacionais, definirem-se as prioritárias. Mas, o que parece, é que para o MINJUD, prioritário são as questões da juventude que se apagam com dinheiro distribuído e esbanjado, como se viu dos créditos mal parados de 2018, e o andebol sénior feminino.
Fico feliz pela igualdade e pela distribuição das oportunidades pelos dois géneros, mas não pela supremacia dum género quando se tratar de dinheiro, pois, acima do género, deve estar o impacto desportivo e não parece que nesta aspecto, o andebol encha mais o coração do país desportivo que temos, do que o futebol. E esta parece-me ser a reflexão e trabalho de casa que não se faz oficialmente, deixando as decisões um pouco por conta de um tanto de livre-arbítrio, outro tanto de pessoalismo, mais um tanto ainda de protecção na cozinha, e o resto, se houver, para todos os enteados.
Bem, foram algumas ideias em torno de uma questão que não se tem a coragem de aflorar, nem discutir publicamente, mas que é uma questão de facto, realista e envolta em bruma artificial, por falta da definição das regras e metas no que concernir a planos de contingência no desporto. Arlindo Macedo

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