Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Ignorar as concluses

14 de Abril, 2015
O país está expectante em relação à conferência nacional de futebol, a realizar-se de 25 a 27 de Junho, na capital do país. Aliás, não se esperava outra coisa, pelos contornos que a mesma está a conhecer e por ser a primeira vez que a discussão sobre a modalidade atinge um patamar alto.
Vendo bem as coisas e penso que não sou a única pessoa a pensar assim, a globalização está a influir directamente em diversas áreas, como na economia e finanças, onde as regras do jogo são assimétricas e favorecem os países com maiores posses.

Por outro lado, e é bom que se diga, a influência não pode ser diferente do futebol em Angola e no mundo inteiro, pois desde o principio do século, passou o desporto a ser mais popular a nível mundial. Por ser rico, global e variado, cada um dá o melhor de si e o reparte com os demais, a aprender também se ensina, o futebol tornou-se mais competitivo.

Hoje em dia o futebol cada vez mais assume uma posição tão destacada, que podemos considerá-lo como um dos maiores embaixadores do país, abre portas para as outras áreas. No caso concreto do nosso país, o futebol não é apenas uma modalidade desportiva, mas sobretudo uma das mais significativas expressões culturais.

A conferência vai dar lugar a um momento de discussão importante, acerca de uma modalidade do desporto, endógeno, pelo que todos os desportistas e a família do futebol em particular, devem procurar dar e tirar o aproveitamento, para que a modalidade e o desporto no seu todo saiam a ganhar.

Até aqui nada de contrário. Contudo, não vai ser a primeira vez que o futebol vai estar à mesa de discussão. No decorrer do ano de 2003, sem a abrangência da conferência, realizou-se o 1º Encontro Nacional da modalidade. Mas as suas conclusões não saíram das gavetas. Entre os dias 30 e 31 de Março desse ano, realizou-se a 1ª Conferência Nacional de Treinadores de Futebol. As suas conclusões continuam até hoje engavetadas, se já não desapareceram.

A questão é pertinente, diga-se, que não me inibo de colocar a seguinte questão: quais os benefícios que os amantes do futebol vão tirar com mais esse encontro? As suas conclusões vão mesmo ser postas em prática? Ou vai repetir-se mais uma reunião igual às outras? Na minha modesta opinião, esta conferência deve constituir um marco importante para o futebol e não só. As conclusões que dela saírem, devem contribuir em grande medida para elevar o nível da qualidade, a ponto de garantir a satisfação de milhares de adeptos e amantes que o futebol apaixona. E os dossiers que não fiquem nas gavetas a ganhar pó, bolor e traça.

Todos sabemos que o futebol nacional está em crise, está em decadência, está a morrer, tal qual um paciente acometido de um tumor devastador. A agonia é imensa, mas o próprio “paciente” recusa-se a acreditar que o seu fim está próximo. A minha opinião – desabafo de um simples adepto - é uma série de pequenos factores e detalhes que vão muito além do vexame para as nossas selecções nacionais, que tiveram nos últimos tempos um afastamento precoce (dos nossos clubes) nas competições africanas, que se tornaram risíveis e acabam por não ser nenhuma novidade.

Estes constantes desaires colocaram a nu todas as vísceras de um tumor altamente maligno, formado por inúmeras camadas, que já contamina o futebol nacional há décadas. Só não vê quem não quer. Os tempos estão difíceis e vão ser ainda mais no futuro, caso não se leve a sério toda esta aflição que vive a modalidade. É preciso um planeamento de longo prazo, porque quanto melhor estiver o futebol no nosso país, melhor é o produto e melhor será para todos os seus intervenientes.

O nosso futebol tem de sofrer uma mudança radical urgente, por mais que custe a muita boa gente. Não será fácil, mas alguém arrisca a dizer que é impossível? Não quero ser ingénuo ao pedir aos prelectores que a ética, o fair-play e o respeito sejam preservados e que não aproveitem a conferência para julgarem quem quer que seja. E que as suas conclusões sejam levadas a sério. Um desejo partilhado por muitos.
Policarpo da Rosa

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