Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Imitar o que est bem

27 de Setembro, 2018
Só ouço dicas boas nos últimos dias. Preferia que fossem já notícia, pois, até haver factos ainda não se passa de rumores.
Nos respingos da vitória do campeão angolano de futebol, em Lubumbashi, ficou a nu algo que deve inspirar o resto do futebol angolano. E o desporto, de maneira geral. O Primeiro de Agosto e o general Carlos Hendrik acabam de subir a parada, a nível dos clubes angolanos. E como em todo o mundo é o futebol quem mede o resto, graças à sua maior popularidade.
Ouvi também falar-se duma conferência para a educação física e desporto sob os auspícios do MINJUD e achei isso o máximo se acontecer sem cair no ‘dejà vu’, ou seja, não chover no molhado, a montanha não parir um rato e apenas concluir algo já anteriormente recomendado. Ainda assim ficariam dois coelhos por matar duma só cajadada: se a conferência fosse um fiasco e desperdício, poucos sairiam insuspeitos de se ter forjado um evento para cabritar verbas.
Igualmente há dias atrás, ouvi um rumor sobre uma eventual reunião na cúpula do partido governante para analisar o estado do desporto e caso for verdade é bom sentir que naquela casa renasceuma outra ordem moral das coisas e da nossa vida em sociedade. O facto de a ministra ter ali assento há-de lhe proporcionar clarividência suficiente à saída dessa hipótese de sentada da senioridade partidária debruçada sobre o estado do desporto em Angola.
Uma tal sentada pode propiciarimportantes subsídios para a ministra partilhar mais connosco as suas ideias e, quiçá, através da referida conferência sobre educação física e desporto, nascer a necessária empatia entre o discurso e a prática, entre o acionista e alternadamente também o fiscal relativamente à outra Parte, agente desportivo. Como os novos tempos aconselham uma gestão responsável e boa governança, o MINJUD poderá aproveitar a conferência para falar disso aos agentes e assim exercer uma liderança melhor.
A ser verdade que os mais velhos se vão debruçar sobre o estado do nosso desporto, tal poderá indiciar que o comité de especialidade do seu partido, que era visto cá de fora como Academia, terá perdido relevância e, ademais, comprovado ou inutilidade ou falta de sintonia com algum processo em que mudos, aos olhos do público, pactuaram no silêncio com quanto possa ser hoje decrépito no sistema desportivo angolano. Não obstante, a especialização é uma palavra na ordem do dia e muito mais o caso do sector desportivo, afastando-mos de processos eivados de amadorismo, apriorismo, empirismo, metafísica e outras pseudo-ciências que entorpecem o crescimento e desenvolvimento desportivo do país.
Ora, o Primeiro de Agosto foi a epitome do que acabei de discorrer, visto o clube militar angolano ser primeiro na praça em qualquer um desses itens. Tem um projecto gerido com transparência e com resultados desportivos e financeiros positivos. Todo o clube sabe o que isso representa e, por isso, eu já havia dividido louros, honras e méritos entre o clube e o seu presidente.
Poucos clubes em Angola auditam as suas contas e podem enumerar conquistas e avanços a cada final de temporada desportiva; a maioria sobrevive e uns quantos só servem para viver do próprio clube. E clubes com esta falta de agenda, nem crescem, nem se mantêm direito. Assim, auditoria e responsabilização são termos novos do léxico de negócios em Angola, razão pela qual os gestores das empresas chamadas clubes devem estar mais atentos às exigências e resultados da sua função.
Além daquela abordagem, sobre a responsabilização, a conferência sobre a educação física e o desporto de que se fala, era oportuna para pôr igual acento tónico na especialização. Nenhum outro sector sofrerá tanto quanto o desporto ante a falta de especialização dos técnicos, de correcção dos métodos e processos, com que se constrói vitória e fazem campeões. E o INEF tinha esse ADN, durante uma época que foi de 1973 a 1995, quando subitamente a educação e o desporto perderam aceleração e depauperaram.
Se a conferência for um facto, a mesma deve ser inspirada pelo papel histórico e a qualidade técnico-científica desportiva que premeia o histórico do INEF, garante de um desenvolvimento desportivo auto-sustentável em Angola e berço das suas mais brilhantes duas gerações de técnicos desportivos angolanos (1973-1995). Perante a obsessão actual representada pelo desporto escolar, é avisado priorizar a formação de formadores e, através destes, numa segunda fase, iniciar o processo da municipalização desportiva, bem mais aberto, simples e exequível que o desporto escolar, além de poder ser sustentado pela municipalidade.
O INEF é a chave de qualquer progresso desportivo em Angola; contudo, ele precisa de revalorizar as suas competências e readquirir as valências que possuía. A maioria dos treinadores e selecionadores angolanos haviam sido ali formados e eles foram quem mais títulos e troféus deu a Angola dentro e fora do país.
O ministério precisa de insuflar alento no Mercado desportivo, depois que uma maioria de clubes enfrenta risco de vida, encerrar total ou parcialmente as suas secções desportivas, e isso volta a chamar a atenção para a simplificação da lei dos clubes, se puderem ter só uma modalidade em vez de três no mínimo. Tal mudança legislativa, no âmbito da municipalização desportiva, conjugado com a correcta actividade do INEF, haveria de criar emprego gradual para muitos técnicos desportivos e formandos do referido instituto.
À medida que mais clubes encerrem portas, sem que outros nasçam, veremos decompor-se o,já de si, pequeno e frágil mapa desportivo de Angola. E esse não é um tecido social fácil de recriar quando se lhes perdem as raízes. Ademais, um país sem quadros técnicos desportivos suficientes, nem recursos humanos necessários para iniciar a formação de técnicos especializados em educação física e iniciação desportiva, é um país absolutamente comprometido desportivamente. De igual modo, a falta de refrescamento dos seus técnicos mais veteranos proporciona a ruptura dos mesmo com a actualização, um facto infelizmente frequente.
Se o INEF é um marco incontornável, há-de levar um ciclo olímpico a formar os primeiros formadores. E outro tanto para estes educarem os seus primeiros formandos em como um dia darem frutos. Bem vistas as coisas, estamos a dez anos de distância da possibilidade de acertarmos em cheio.
E, precisamente, um exemplo de acerto que eu vejo é o antigo capitão artilheiro, Carlos Hendrik, teve em 2000, quando era vice-presidente do clube dirigido por um seu irmão, o ‘Hendrik do basquete’, de quem também viria a ser o presidente-adjunto e, por fim, presidente, agora reeleito, do Clube Central das Forças Armadas Angolanas 1º de Agosto. Então, o ‘Hendrik do andebol’ teve a ideia de criar uma academia para o seu jogo de Sete e para as raparigas juvenis, principais activos do clube. Passados 18 anos, o andebol é a modalidade com maior evolução no clube, para o que concorre igualmente a categoria dos seus técnicos. Depois o êxito do andebol foi copiado pelas outras modalidades, com franca evolução. E hoje o D’Agosto tem infraestruturas próprias incluindo piscina, academia e centro de estágio, condições estas impulsionam o desporto e os resultados.
São os homens quem faz um clube e a profissionalização no clube militar é das mais elevadas na praça, graças à metamorfose, em dirigentes, de antigos craques do clube que abraçaram o dirigismo, sendo privilegiados conhecedores do clube, seus quesitos e premissas. No entanto, santos de casa não fazem milagres e o atletismo continua a ser um calcanhar de aquiles para se desenvolver, apesar de o clube ter nos seus quadros o antigo campeão e professor Bernardo Manuel, tira o atletismo da mó de baixo no Rio Seco.
O plano financeiro do emblema militar é presentemente o do seu pé de apoio, sendo esperados envelopes na ordem de mais de um milhão de dólares de encaixe no final da campanha, mesmo que não chegasse à final; desportivamente falando, o campeão e e também líder do actual campeonato, tem uma vantagem substancial sobre os seus rivais angolanos. Quem contra o TP, como a seguir, o Espérance, o D’Agosto só têm a lucrar somar intensidade de jogo e resistência competitiva a níveis muito superiores aos daqui de casa.
Os militares, a exemplo do arqui-rival Petro, são dos poucos emblemas com contas auditadas e revelam já ter enveredado pela gestão moderna e empresarial do clube. Outros casos não são públicos e, por isso, também não são conhecidos. O clube do rio Seco é igualmente o mais estável quanto a contratações e técnicos em particular. Além de segurar a bandeira de fair-play financeiro e esperar um grosso encaixe financeiro, o d’Agosto promete continuar a fazer história.
O D’Agosto acaba de bater todas as barreiras. Desportiva, financeira e cultural. Graças à sua estonteante ‘vitória’ com o apuramento às meias-finais da Liga dos Campeões da CAF, foram rompidas barreiras e quebrado o mito da superioridade de uns, sobre outros, nas relações desportivas transfronteiriças, cuja história sempre nos parecia madrasta. Até os simpatizantes do adversário se renderam.
Os D‘Agosto nunca mais serão os mesmos, mas, melhores. Basta provarem que este não é um estado de graça, mas, de forma.
Arlindo Macedo


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