Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Norberto Costa

Incidncias do futebol na msica angolana

26 de Março, 2018
É um lugar comum dizer-se que \"o desporto é cultura\". Grosso modo, a cultura constitui a relação que o homem estabelece com a natureza, a sociedade e o seu semelhante. O exemplo mais eloquente disso será fornecido por uma partida de futebol, a interacção entre os companheiros de equipa e a disputa da bola no terreno de jogo, operada entre os contendores , articulada com a resposta da audiência nas bancadas, com aplausos, apupos e assobios à mistura.
\"Stritu sensu\", a cultura reflecte as diversas manifestações de espírito traduzidas nas artes, nomeadamente na literatura, artes plásticas, dança, teatro a música, sem esquecer os jogos tradicionais que compaginam o espaço do lúdico, sobretudo na zona da ruralidade. Mas é das incidências do futebol na música angolana de que nos vamos ocupar ao longo deste breve discorrer, designadamente em duas vertentes principais: no cancioneiro popular e na Música Popular Urbana Angolana(MPUA), com particular destaque para este último \"item\".
Convenhamos que o cancioneiro popular é tributário da oralidade, ou seja de provérbios, contos, adivinhas e canções ou poemas ditados de geração em geração; enquanto a música popular urbana angolana, para além de estar embebida do seu contributo, às vezes até com outras roupagens, não se esgota por aí, radica também da capacidade de imaginação e inspiração criativa dos músicos da nossa contemporaneidade e que curaram da sua modernização, fazendo inclusive apelo a vários instrumentos, para além dos tradicionais que sinalizam a sua matriz, que o outro chamaria \"essencial\".
Assim sendo, explorando vários temas de carácter político, económico, social, cultural e até desportivo, os criadores musicais angolanos não deixaram à margem o tratamento do tema do futebol, como é o caso de Bonga, Teta Landu, Dionísio Rocha, entre outros.
Nestes termos, enquanto no cancioneiro popular as músicas caem no plano do anonimato, sendo cantadas por quem quer que seja, como ocorre no nosso contexto.
Senão, vejamos o trecho seguinte executado por diversos músicos da modernidade: \"Salalé três três/Salalé/três três/ saíste aonde?/no Maculusso/ fazer o que é? Kalinguidon/Kalinguidon\". E agora para o fecho(?) do texto oral : \"É na baliza/ é na baliza/ golo// É na baliza/ é na baliza/ golo.\"
Mais uma vez, atentemos num outro texto oral, cujo refrão popular faz também recurso ao futebol:
\"Perder como ganhar /Casa Verde é perigosa// Perder como ganhar/C.V. é perigosa\". (Trecho musical que atravessou o nosso imaginário infantil, resgatado doutros tempos imemoriais, quando ganhássemos os adversários na nossa meninice nos jogos do pelado bairro Marcelo Caetano.)
Já na vertente da Música Poupar Urbana Angolana o tema do futebol é igualmente recorrente, como ocorre no poema satírico de Bonga, ainda que o proprietário da ditacuja seja um \'nabo\': \"Dono da bola é que joga/ dono da bola é que marca\". Bonga canta na sua música, bastante celebrada pela sua veia crítica e humorística, resgatando do passado vivido e realmente sentido por todos que jogaram nos seus tempos de infância, adolescência e juventude a bola de trapos, de \'mica\' ou de catchu: \"dono da bola é que joga/...marca/ e vai \'mbora com a bola\", para desespero e desgosto dos demais jogadores pela desfeita, induzindo também uma certa injustiça social e batota no futebol e na vida, em geral. A música em questão é o retrato patético , real e objectivo, da arrogância jocosa e abusiva do dono da bola, caso não fosse alinhado, excluído ou contrariado durante o jogo da bola (da vida).
Haja em vista assinalar que, além de Bonga Kwenda, outros autores exploraram de forma não menos criativa a temática futebolística, invocando de forma magistral a sua infância, como é o caso paradigmático de Teta Landu: \"Fuguei na escola/ só para jogar a bola/ mamã me batia/mas não doía/ fuguei na escola/ só para jogar a bola\", deixando escapar as traquinices dos seus tempos de menino, sancionadas pela sua tutora por via da tareia.
No fundo, no fundo, o músico oriundo do Uíge dá-nos uma demonstração, lá como cá, de quanto uma certa indisciplina pôde pôr em causa o futuro do sujeito do enunciado, que obcecado pela prática futebolística no pelado, furta-se às aulas, arriscando-se a reprovar por faltas e perder, consequentemente, o ano lectivo; comprometendo assim mesmo todo um projecto de vida, esboçado carinhosamente pelos progenitores, que gostariam de vê-lo formado. No caso do autor implícito trocou as voltas ao futebol pela música, dispensando as engenharias, aventura em que foi feliz contra a vontade inicial dos encarregados de educação, sendo uma das raras vozes mais marcantes da nossa música de todos os tempos, destacando-se, decididamente, numa época de ouro.
Na verdade, à luz da teoria da \"intertextualidade\" inventada por Júlia Kristeva \"os textos (orais ou escritos) dialogam entre si\". A canção nostálgica de Teta Landu retrata o drama pungente da infância, dialogando com os clássicos de David Zé e Tonito. D. Zé canta que \"quando era miúdo brincava(jogava) com os meus amigos/ subia nos cajueiros à cata dos sumarentos frutos\" ou Tonito, o próprio da \"Mafumeira\" que evoca a sua infância, canção que parece ser a mais conseguida entre todas que se reportam à infância; implicitamente dos tempos dos trumunos da sua meninice, travados no pelado e não só, dialogando com Teta Landu em virtude da fuga da escola, e que ao contrário do protagonista da canção do seu colega, era o pai a reprimir para que não caísse na rua da amargura, provocada, por vezes, pelas desventuras futebolísticas no pelado e não só em pleno perído de aulas; tempos que o tempo levou e já não volta mais, por si exacerbados até pelo tom profundamente tristonho do seu lamento, circunstância, talvez, que explicará, por que outros curaram de reintepretar os seus tempos de undengue(criança), como Rui Mingas, entre outros músicos renomados.
Um outro músico que também explorou o tema do futebol, com o Petro na crista da onda - uma das mais celebradas equipas do nosso Girabola - foi o categorizado músico Dionísio Rocha, uma maiores referências da nossa praça: \"Am Angola/ o Petro é campeão/ o Petro é campeão/ ninguém segura o Petro.\" Descontado o tom publicitário, a música tem o condão de levar para a posteridade da história da incipiente indústria musical local, o nome do club, concorrendo mais uma vez para a representação do futebol na música.
Finalmente, faz-se importante destacar que a abordagem da temática em apreço não se esgota na literatura e na música, mas também na dança, nas artes plásticas e no teatro: basta ver as danças exibidas pelos jogadores para celebrarem o golo; o facto de um artista plástico angolano levar para a sua tela a selecção nacional, exaltando-a através da sua plasticidade, por altura das exposição colectiva sobre os 42 anos de independência; e a peça teatral sobre uma partida de futebol, levada ao palco este último final de semana por um dos grupos do nosso burgo cultural luandense.

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