Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Indignado

12 de Julho, 2017
Estou mesmo indignado. Há coisas que a gente experimenta directamente e outras observa. E neste caso o que eu venho partilhar é uma indignação.

É possível conceber actualmente entre nós, a segregação? Numa Angola independente a segregação racial – e refiro-me ao sector desportivo - será sempre algo incongruente. E não será preciso filosofar muito; basta recordar como a nossa luta e independência pareceram genuinamente de todos. Éramos um ‘povo’ progressista e assusto-me se já teremos deixado de o ser, por ventura.

Vem isto a propósito de um projecto desportivo fadado a dar certo sobretudo por envolver muitos jovens e isto ser pressuposto de um desenvolvimento concreto, mensurável e, por fim, real; algo diferente do que se tem visto fazer e quem tem decretado a falência dos processos, primeiro, e das modalidades, depois, nas mãos de certos indivíduos por demais revelados ‘indotados’.

Então, e dirigindo-me a um dos esteios desse projecto, recordo o convite que eu havia recebido do mesmo para me juntar a eles, mas que tive que declinar por já me sentir comprometido com outra associação e ser difícil dividir-me. Mas, ainda assim, estava a ser um fã do projecto deles e quis saber como estava a andar isso.

- “…Eu não acreditava naquilo que me diziam, infiltrei-me (e será uma) maneira de dizer... e agora posso falar porque vivi o que é o desporto actual angolano e com nomes de malabaristas, verdadeiros jogadores, onde ouvi ‘vocês têm uma boa equipa, mas... são muito claros’, têm brancos e a maioria são mulatos, (mas) se escurecessem mais um pouco ainda podíamos votar em vocês e mais, vocês têm elementos da Casa-Ce.” (sic)

Não quisera acreditar, mas estava a ler isso mesmo. E agora só posso lamentar, afinal, porque sou daqueles que acompanhou esta longa marcha, travessia e pedreira, até, do desporto nacional, para chegar ao que chegou, dar os frutos que ainda consegue dar, mas que é um processo actualmente inconsequente, dado que os novos ‘inquilinos’ do poder desportivo parecem ter outras ideias misturadas e que não sabem totalmente a desporto.

Se assim fosse consabidamente, de isto agora já só ser para alguns, no desporto, talvez não tivéssemos desperdiçado tanto na juventude, e mais ainda os antigos dirigentes desportivos, que despejaram no desporto dos primórdios do país, tanto a juventude que lhes restava, como a saúde que debilitaram por entre disputas, por vezes acirrada, mas jamais eivadas de divergência assente em alguma diferença racial, pois, não acredito, nem eles por certo, em desporto para raças.

Fosse assim e não se teriam esbatido ‘preconceitos’ de que os negros não servem para ginástica, ou natação, como era crença dos ‘gurus’ do desporto olímpico. Ou então, que atletas brancos não teriam ADN para jogar na NBA. Contudo, tais dogmas autênticos foram desmontados, e esta, sim, foi uma ‘desmontagem’ progressista.

Mas quem não aceitava aquilo, também não aceitaria ouvir hoje em Angola, que isto ou aquilo não fossem mais para brancos, nem mestiços, que em Angola apostaram num país independente e progressista.

O desporto não pode criar a sua particular ‘inibição da verdade’, entenda-se comissão da verdade, para vir dirimir que os cidadãos angolanos passaram desportivamente a ser escalonados em racialmente preferenciáveis, ou não. E assim o que o meu ‘amigo’ me contou vai morrer como presumível fofoca, porém, estas fofocas podem tornar-se dramaticamente reais.

Assim fica turvo e difícil saber-se que rumos o desporto de Angola quer seguir realmente. Não há campeonatos de raças, mas de desportistas, julgo eu até agora e agradecia que me dessem pistas de já haver provas em contrário. De outro modo fica comprometida a beleza da nossa reforma desportiva, em que deveríamos ver florir as surpreendentes sementes desportivas que semearam a flora desportiva do país nos seus primeiros 30 anos de uma sociedade em guerras, mas unida. O próprio desporto foi sempre factor de união, nunca de desunião.

Infelizmente, a história do país e por analogia, a do seu desporto também, sofreram os efeitos perduráveis da segregação racial moderada, no passado – não se chegou a viver aqui em um ‘apartheid’ – mas se essas mágoas uniram os angolanos indiferenciadamente unidos e a lutar por um mundo, e particularmente um país e uma sociedade melhores, então fica difícil entender de onde provêm e com que apoio singram estas idiotices rácicas que nos podem apenas dividir e enfraquecer. E o desporto nunca havia sido, propriamente, um palco de racismos na nossa sociedade. Nunca ouvi um branco ou mestiço queixar-se de racismo, por não ser seleccionado. Então, de onde está a nascer agora isso? Será que aos poucos estaremos a deixar de pensar como progressistas?

Quando em 1979 o governo orientou o então Secretário de Estado da Educação Física e Desportos, Rui Mingas, e este por sua vez delegou no ‘olimpiano’ Rogério Silva que encabeçasse uma delegação que foi, porta-a-porta, filiar as primeiras federações nacionais desportivas da República Popular de Angola, recordo que a unidade revolucionária de então não prescrevia se o ‘embaixador’ devia ser um desportista negro ou transparente. E desde então foi assim o desporto Angolano, feito sem pensar-se em raças, independentemente de eu julgar sermos hoje um povo de diferentes raças, embora predomine a raça negra por factores endógenos e naturais, sendo então ‘reaccionário’ ter manifestações rácicas. E hoje, as mesmas terão já deixado de ser anacrónicas, ou seja, impróprias do progresso?

Estamos a esquecer-nos rapidamente de onde proviemos e como até há pouco fizemos tudo isto juntos. Mas, então, o que será que agora ‘desanacronizou’ tudo a ponto de ‘catalogarmo-nos por raças’ ser hoje um critério de ter-se uma utilidade nacional ou não?

Eu desejava bem que isto não passasse de mais um ‘episódio’, porém não se deve deixar esse série ser mais que apenas uma ficção. Lá nas bases os jovens ‘arrivistas’ precisam de escutar as ‘cúpulas’ e tratarem de tratar direito a criação da nação e reconstrução do país, algo que já em guerras era atribulado destrinçar quando se recebesse uma arma para defender o país, pois não se olhava para a raça das mãos que empunhavam a defesa nacional. Então estes valores e suportes de um querer nacional não se podem deixar abalar por condutas de má índole não só desportiva, mas social.

A diferença de direitos, regalias e benefícios costumava ser uma forte base para reivindicar, mas na actualidade o desporto Angolano não precisa de reivindicar outera coisa que não seja apenas, competência, trabalho e dedicação, precisamente aquilo que cada vez menos dirigentes dão. E deixam ficar feito, para quem vier.

De um lado esforçam-se uns, aparentemente partem em faze-lo, para endireitar o país, enquanto este depois adormece e na calada da noite, outros laboram engenhosamente para ir destruindo os avanços do país. E abalarem pilares da sociedade, como este, das raças, outra vez. E somos tanto tão poucos para erguer Angola em toda a sua extensão territorial, então imagine-se se, na óptica desses mentores raciais, fossemos menos ainda? Nem quero imaginar se isto passasse do dirigismo, para os campos de jogos, passaríamos a prescrever e banir todo o atleta angolano não negro?

Em resposta a estas inquietações, o meu ‘contacto’ comentou que ele, como dirigente desportivo da primeira hora, tem sentido como os angolanos brancos e mestiços se foram recolhendo após enfrentar os primeiros embates rácicos do desporto pós-independência em Angola. Não é que tenham desistido, apenas se sentiram escorraçados uns, que já não calçam mais a chuteira, e outros, que se passaram a dedicar a regar jardins e espairecerem. Mas eu tenho medo de prometer cortar um dedo se algum dia voltarei a ver em Angola, angolanos a jogarem ou escorraçarem-se mais como ‘brancos’ contra ‘negros’…

Esta não é uma luta de classes justa nem real, é apenas uma etapa mais de protagonismo de entidades e figuras que se têm por politicamente caucionadas, fazem ameaças, represálias e empreendem uma falsa luta de classes, em que eles ainda não se deram conta que são os burgueses da actualidade. E as vítimas deles, distraídas, nem lhes sabem chamar ‘neocolonizadores’ do desporto, precisamente por estarem a trazer ideias retrógradas, que haviam trazido os últimos colonizadores do território.

Espero que esta nuvem seja passageira e que a prevenção de tempestades raciais faça parte de políticas integracionistas, dado que o papel de um ministério é ordenar as coisas, a começar pelas fileiras desportivas. Mas não me seria de todo espantoso, que no próprio ministério haja quem inspire estas ‘ondas’ de um tsunami perdido, mas teimoso.

E que nessa indiferença e semelhança ao mesmo tempo, entre as raças e povos de Angola, esteja sempre a força da nossa luta, da nossa razão comum e dos nossos êxitos colectivos, em um país e com um pvo predisposto a partilhar totalmente da vida política, económica, cultural, desportiva, juntos como deve andar uma nação.

A segregação sempre enfraquecerá a harmonia do país, assim como o movimento desportivo nacional, para além de ser um mal gerado artificial e politicamente apenas para criar oportunidade a pretendentes inseguros de si mesmo e militantes desportivos de baixo cortuno, até quando jogam, porque o seu jogo é soez, baixo e anti-desportivo. Mas infelizmente parece haver cada vez mais em Angola quem se orgulhe de estar no desporto fazendo batota… E fazendo de toda essas batotas, a pior: o racismo no desporto.
ARLINDO MACEDO

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