Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Instantneos do quotidiano

04 de Outubro, 2016
A indisfarçável proximidade política do Desporto cria um clima em torno das eleições, comparável à escolha final entre quem se porta bem e quem nem chega a ter tempo de portar-se mal, pois fica pela campanha apenas. Mas o estado actual de coisas desportivas requer pessoas que se portem desportivamente bem, ou os revezes poder-se-ão tornar repetitivos, e Angola depois vir a parar onde nunca pensámos tocar tão fundo.

É Desporto e portanto, ainda se olha a brincar para tal, mas recordamo-nos de quão árdua foi a subida, nos anos 80, equiparável a uma escalada da montanha, aparentemente sem fim, porque foram necessários anos de subida íngreme, e sobretudo, muito empenho, a começar pelo Presidente da República, que tinha orgulho na sua juventude e nos seus feitos desportivos.

E, várias foram as ocasiões em que o demonstrou, recebeu no Palácio campeões e troféus conquistados para o mérito e orgulho de todo Povo e nação, graças aos seus filhos que com denodo e sacrifício removeram montes e montanhas, para içar mais alto a bandeira de Angola em África, primeiro, e lograrem ainda elevar a fasquia Africana no mundo.

A encruzilhada do tempo produziu três fenómenos, designadamente, o envelhecimento dos primeiros grandes dirigentes desportivos que este país teve, o pendurar das chuteiras de atletas trintões de nomeada, e o pressuposto de que eles tinham naturalmente o pedigree suficiente para dirigir e desenvolver a modalidade. Mas não tem sido assim, e hoje estamos a ver o resultado fatal ao suceder outros dois fenómenos resultantes do primeiro equívoco.

De facto, parecia fácil, mas foi o contrário. Foi inclusive falacioso, senão, vejamos. Sem uma estratégia, como se havia feito quando crescemos e aparecemos, os novos tempos não só ditaram uma drástica redução do número de praticantes, e de equipas, como também vimos os clubes socorrerem-se de atletas estrangeiros, com o incontornável argumento de que eles vinham trazer mais valias. Inversamente, as nossas mais valias não passavam dos juniores, na sua esmagadora maioria, por falta de lugar no plantel sénior do seu emblema.

Deste modo, as selecções nacionais seniores ou absolutas – excepção se faça nos desportos colectivos, ao Andebol e Hóquei -em- patins – passaram a andar sem frescura suficiente, enquanto o tal efeito trazido pelos estrangeiros integrados nas equipas dos clubes, ficaram de provar até que ponto nos tinham ajudado. Ou nós, sem saber como explicar que a ajuda deles resultara como chumbada a puxar a isca do benefício para o fundo, neste caso da lagoa.

Deste modo, está posta em causa a política desportiva de alto rendimento e a dispersão de teorias, que não criam um modelo desportivo nacional, exactamente, como tinha sido feito para subir a tal montanha do êxito durante as décadas de Oitenta e de Noventa. Desta vez, não vale a pena olhar para o Palácio, pois a resposta precisa não é a que tenha de vir de lá, mas a dos dirigentes das Associações desportivas, os quais devem começar por perceber que dirigir é algo mais do que mandar. É planificar e gerir com uma estratégia de permanente valorização dos recursos. Em primeiro lugar, os recursos humanos.

Sem um quadro de técnicos apoiado em duas vertentes, o INEF e a permanente actualização dos directores técnicos nacionais na óptica da formação de formadores como pragmatismo para a redução do défice de conhecimento técnico -desportivo, e a doutrinação das modalidades desportivas em Angola, eis-nos ao sabor do vai -vem e da dança das cadeiras, a envolver a mais das vezes treinadores e seleccionadores estrangeiros, sem uma perspectiva sequer de médio prazo, para a inversão do quadro. Isto pode parecer demasiada retórica, porém, não é mais que uma explicação simples e lúcida de como se faz em quatro anos, um tombo magistral. E, em outros quatro anos mais, um tombo maior. Até que alguém consiga realmente acordar da ilusão.

Ora, vamos lá abrir as cortinas e olhar direito para a situação: - como se estão a ver o Desporto, os clubes/selecções, as escolhas e os resultados? Se alguém responder normal, eu acharei anormal. Se ouvir que já esteve melhor, eu perguntarei se não tem saudade disso e desse tempo. E se me responder que está assim -assim, eu pedirei que me diga claramente está assim! E, é deste assim, que se tem de falar, mas falar seriamente, antes de se fazer a próxima escolha, que pode repetir-se, também se diga.

De facto está um bocado difícil descortinar se há um pacto para o Desporto ser mais um espectáculo de entretenimento popular, e portanto desprovido de rigor excessivo como seria de se ter em desporto de rendimento, que deste modo não fará jus ao termo rendimento, onde treinadores e atletas de excelência se distinguem e catapultam às potencialidades do conjunto, para melhorar o aspecto dos gráficos e das galerias de troféus, quer de clubes como de selecções.

Mas se efectivamente e atrás das cortinas não se pretender mais que distracção e carregar as pilhas dos prosélitos para as tarefas da reconstrução, então nem vale a pena estarmos a criar atrito, só por querer ver o nosso Desporto melhor. É deixar que as coisas sejam, como acabarem sancionadas superiormente, com a conivência dos órgãos Assembleia-Geral e Assembleia Eleitoral das Associações desportivas. Conivência da primeira, com o estado de coisas, e conivência da segunda, com a escolha do futuro.

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