Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Nzongo Bernardo dos Santos

Interesses cruzados ou objectivos comuns? Parte-1

05 de Março, 2018
Este pedagógico e didáctico artigo foi preparado e escrito propositadamente para provocar e promover debates, discussões e reflexões em busca das melhores soluções, de formas a projectar o futuro que de forma tímida já marca presença na nossa realidade, sem descurar pensarmos seriamente no presente, perspectivando para o efeito um desenho tangível, clarividente, sobre o qual se possa materializar a concepção transversal de um modelo de financiamento para o desporto nacional, que possa dar auto-suficiência e auto-sustentabilidade.
É que dá dó, ver dirigentes e outras pessoas ligadas directamente ao fomento e ao desenvolvimento do desporto nacional, andar ora pelos corredores de edifícios e instituições públicas, privadas e até mesmo de particulares, ora com os telemóveis “amarrados” aos ouvidos, a pedir “esmolas”,“batatinhas”, e até a fazer “piquete”, para que os seus planos ou projectos desportivos, sigam em frente e tenham um rumo.
Na actualidade, os modelos de financiamento para o desporto, e aqui vale sublinhar que faço referência única e exclusivamente ao desporto profissional e de alto rendimento, um pouco por todo o mundo, estão assentes em dois pilares: O modelo de financiamento SUBDESENVOLVIDO e o modelo de financiamento DESENVOLVIDO!
É assim, que científica e teoricamente penso e acredito que para o efeito não esteja errado, embora, possa ter sempre alguma razão!
No que se refere ao modelo de financiamento, que considero SUBDESENVOLVIDO, destaco três eixos: COTAS, MECENATO e BILHETEIRA.
A começar justamente pelo último eixo mencionado, a BILHETEIRA, sabemos todos que as receitas referentes à maior parte dos eventos desportivos, são cobrados e geridos pelos órgãos associativos.
Sabemos todos ainda, que as receitas de bilheteira há muito deixaram de ser a solução para os problemas financeiros das Federações, Associações e clubes, tanto é que já não é escândalo para ninguém, ver ou acompanhar um elevado número de jogos, em que todas as portas dos Estádios estão complemente abertas, sem que os espectadores paguem valor algum para os bilhetes, mesmo assim, por incrível que pareça cada vez menos pessoas assistem aos respectivos jogos!
Acerca das COTAS, não há muito a falar sobre isso, basta olhar para a nossa realidade e darmo-nos conta de que são a panaceia para os males da maior parte dos clubes em Angola, porque não há a real contrapartida para os associados dos respectivos clubes, torna-se uma fonte de financiamento irrelevante para a sustentabilidade financeira dos clubes.
No que refere ao Mecenato, um mecanismo muito defendido e também atacado na maior parte das vezes, por quem tem um CONCEITO muito social do desporto, e por outro, por quem tem uma VISÃO comercial ampla do fenómeno do desporto como negócio, deve salientar-se acima de tudo e de mais alguma coisa, de que os efeitos práticos da aplicação da lei do mecenato, por sinal há muito aprovada e muito pouco divulgada e conhecida pela generalidade da família desportiva nacional e não só, não atingiu e não atingirá o seu real objectivo, porque poucos são os mecenas preocupados ou engajados com os ganhos fiscais que não permitem contrapartidas a nível comercial, a nível da visibilidade da marca, tampouco traz retorno em novos negócios e nem sequer promove o aumento da notoriedade da referida marca, no dia-a-dia, e na vida das pessoas.
E, vou mais longe, não se procura na actual dimensão que o desporto atingiu a nível global e de globalização, que é o de gerar retornos financeiros, confundir caridade com aquilo que é a visão que o empresariado tem para dar sustentabilidade aos seus negócios, e até expandi-lo que é o de conjugar SEMPRE o “espírito empresarial” com a obtenção do “máximo lucro”, do que estar a gastar tempo e energia a “romancear” um mecenato “encantado”, que está “belamente adormecido”!
E, reafirmo “SEMPRE”, porque muitos discursos actuais procuram escamotear esta realidade, falam da necessidade de participação activa e convivial das empresas no desporto, apontam até para uma espécie de “humanismo económico”, em que o “amor” do empresariado pela “causa” desportiva social no país, pode constituir a base de uma “revolução cultural” de hábitos e vícios, que muito se pretende no seio da nossa sociedade.
É preciso coragem para admitir que no actual contexto local e mundial, aquilo que denomino de modelo de financiamento SUB-DESENVOLVIDO para o desporto de uma forma global, e para o desporto nacional de uma forma geral, está falido e é urgente abraçar os ventos da mudança do paradigma que trazem consigo uma brisa acalentadora dos pilares que sustentam o modelo de financiamento DESENVOLVIDO, baseado no MARKETING DESPORTIVO, PATROCÍNIOS E CONTRATO -PROGRAMA.
Sobre esse assunto vou dedicar atenção especializada e argumentativa no artigo a ser publicado, na segunda-feira!
*Mentor e gestor do fórum marketingdesportivo.

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