Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Inverso e reverso da nossa dimenso desportiva

28 de Junho, 2017
Adaptamos-nos naturalmente a situações e vícios, de tal sorte que hoje práticamente muitos entre nós já adoptaram posições viciosas, condutas viciosas, como sendo normais.

Os cidadãos comuns têm todo o direito e devem se sentir lesados e até muito revoltados com a crescente persistência da gente que se fizer passar por candidatos de digna e honrosa virtude mas que, desgraçadamente, acabarem por servir de maus exemplos a todos aqueles que neles votaram.

Veio isto a propósito de apelar para uma direcção mais diligente no desporto e consentânea com a moralização que é precisa no sector, precisamente por o desporto ser uma área diferente dos jogos de casino e de apostas em lutas de animais; o sector desportivo é um ambiente que deve respirar e transpirar limpeza, pois o desporto educa, mas é preciso ver em quê.

Assim e depois de ter primeiramente abordado a ‘visão’ despesista com uma eventual massificação preconizada para um milhão de crianças, com o próximo governo, não poderia sentir-me em maior desacordo e prefiro insistir novamente em que é o desporto, mais a escola, quem devem andar de namorico o tempo inteiro e multiplicarem a verdadeira ‘vacinação desportiva’ da criança a cada ano de escola, ao invés de se poder vir a despender em uma massificação apenas de entusiasmo e solavancos – quem sabe se não passou de propaganda apenas – pois, ninguém garante à partida quanto tempo vá durar um projecto desses. Nem se ele há-de se repetir.

Ao contrário das parangonas entusiastas e sem lastro longo como a massificação em sentido lato ou estricto, temos que a escola é perante o cidadão um direito a uma actividade regular e de aprendizagem conferida como um direito inalienável do cidadão e mormente da criança e adolescente. E nada se revela melhor que uma escola para a criança ir tendo um culto metódico e uma mentalidade educada positivamente e carregada de inoculação do ideal desportivo e da prática de desporto como se fosse uma vacina em doses semanais. De outro modo ficaremos sempre a imaginar quantas crianças em Angola aprendem por ano a fazer pino, cambalhota e salto mortal?

É um facto que tanto por via da escola, como da massificação planeada fora dela, os talentos descobertos sempre irão enfrentar comummente a falta de clubes novos para os absorver - e se forem para os que já existem lá encontrarão outros talentos à espera também de aproveitamento - pelo que a depois as empatias geram o desporto escolar ou entre estudantes, todavia, a escola será sempre o elemento mais aglutinador dessa juventude em idade desportiva, comparando com um clube e sobretudo se esse clube não estiver implantado em uma comunidade com bastante população jovem.

Mas isso não exclui a possibilidade de criar-se na comunidade clubes juvenis. Esta seria, então, a magnífica oportunidade de fazer surgir emblemas novos capacitados para enquadrar praticantes iniciados e juvenis, os quais como cadetes terão já uma maior definição do seu potencial e uma oportunidade mais concreta em um clube. Mas, no final, vão ser esses novos clubes juvenis aqueles fadados para o êxito a curto-médio prazo por estarem a ser estruturados direito, debaixo ou da base para cima, ou seja de iniciado até cadete, e não o inverso como hoje e por via de (má) regra faz a quase generalidade das associações desportivas em Angola.

Evoluir partindo da base é uma determinação pela qual cada dirigente desportivo moderno deve pautar a sua agenda e condução da associação ou clube, partindo sempre do seu jardim-escola desportivo, no intuito de criar raízes e, a prazo, atingir o desenvolvimento desportivo baseado na correcta gestão e desenvolvimento dos recursos humanos, como devem ser também considerados técnicos e atletas.

O não ver-se as coisas assim é que causa traumas ao desporto. Um exemplo está na extinta ‘bolha das escolinhas’ em que alguns devem ter visto empresa e furo comercial, mais do que futebol em miniatura. Mas ao não terem pernas próprias para andar e apelar do estado que invista nelas, estarão essas ‘escolinhas’ na disposição de repartir com o estado as receitas da comercialização de atletas saídos das suas fileiras? E é claro que, não...

Foi o desenvolvimento desde há uns anos de infra-estruturas e quadros técnicos de base aquilo que possibilitou a alguns clubes começar a desenvolver pequenas academias internas, graças às quais tais emblemas estão a ter presentemente uma florescência invejável nos escalões de base. E graças a isso, em especial no andebol e basquetebol, observamos que alguns clubes começam a mostrar frutos e a poder colmatar, inclusivé, a fuga dos seus ‘profissionais’ estrangeiros insatisfeitos com o seu regime cambial de crise, promovendo em substituição dos mesmos jovens crescidos nas suas fileiras desde tenra idade.

Assim e desfeito o mito das ‘escolinhas’ e a falácia de que sem o estado não haverá futuro no futebol, por exemplo, o que importa aos clubes é meterem mãos à obra e erguer obra, portanto, terem direcções obreiras e com um verdadeiro espírito empreendedor capaz de fazer desporto sem tanto dinheiro como se tem pedido ultimamente para mover um músculo.

Mas o que mais aparecem agora são dirigentes chorões e que não movem uma palha sem primeiro ver debaixo do capacho se vai haver bom dinheirinho ou nem por isso. Mas uma coisa será certa, seja qual for esse ‘envelope’, quem seha-de-tramar sempre será a criança e o adolescente, pois não são chamadas á toa de classes nem idades mais vulneráveis. Ou sejam, sujeitos a ser tratados por adultos de qualquer maneira.

Não foi o desporto que modificou e se tornou caro; foram as pessoas que deixaram de saber fazer desporto por desporto, e através da ventania soprada no associativismo, estão a encontrar na gestão do desporto novas fórmulas de enriquecimento.

Já me convenci nos últimos anos que não há mais paixão desportiva nem carolas como havia. Se os dirigentes desportivos da nova gama forem tendencialmente ‘materialista’ então os métodos eactos insólitos de gestãoque observo, uma vez somados dizem-meaté por via da ‘regra dos noves fora, zero’ que a mudança do nosso ‘dirigismo’ desportivo havia aberto primeiro a crise no desporto, após o que se começou a registar umdesinvestimento com empobrecimento técnico dos treinadores e desenvolvimento limitado dos atletas.

Históricamente tenho visto facilidades criadas através de melhores infra-estruturasirem parar em benefícios pessoais e em exclusividade de certas pessoas por suposição bem colocadas e que encaixam por sob uma capa mal acabada de parceria público-privada. Vejamos alguns poucos mas esclarecedores exemplos, todos na capital do país.

Graças a jogos internacionais organizados pelo país, o Estádio Municipal dos Coqueiros, em Luanda, começou a ser reabilitado em 1999 e ficou pronto para reinaugurar em 2005, tendo sido restaurado e equipado por 18 milhões de dólares americanos. E como então ainda havia muita gente sem propensão para o uso ilícito das coisas, fez-se um concurso sem saberexactamenteos critérios que ditaram a vitória de uma empresa cujas receitas de exploração de 26 sub-lojas e um restaurante na envolvente do recinto, mais 14 escritórios ocupados alegadamente por associações desportivas provinciais, se traz algum benefício ao país e à sociedade em termos desportivos, mas um facto é que também não se vêem publicados relatórios de contas dessas parcerias e a verdade é elas só vieram tornar mais caro fazer-se desporto.

Já se havia visto o desporto a perder significativo património no dia em que o ‘multipartidarismo sorriu’ à sociedade e a esta se abriuo Mercado, e em pouco tempo a Casa do Desportista da Ilha de Luanda mudaria de mãos, passando a propriedade privada. Entretanto, benfeitorias e ampliação da mesma Casa do Desportista de Luanda não viriam a dar grande proveito aos desportistas porque depressa foi também cobiçada, cercada de esplanadas para comida e álcool sem nada a ver com desporto nem desportistas, e em pouco tempo possuída por interesses estranhos ao desporto, seja na serventia como no usufruto.

Desconhecem-se hoje os reais donos das duas Casas do Desportista da Ilha de Luanda, cujas acomodações viraram lojas, escritórios, salões, apartamentos, restaurantes e bares, tal como se desconhece quanto a sua perda para o desporto, rendeu ao desporto.

Mas mesmo ficando afastada da costa, a atracção pela água fez daPiscina Municipal do Alvalade, em Luanda, pioneira deste aniquilamento gradual do carácter social de estruturas desportivas supostamente posse do estado, que se tornaram do dia para a noite, posse de interesses privados. E os clubes ali praticantes tiveram de encontrar ‘suas próprias’ piscinas sem ser a do município Luanda.

Tal como o estádio municipal, desconhece-se quanto renderá ainda ao estado e particularmente ao governo provincial de Luanda esta forma casuística de gestão do património público que em certa medida é discriminatória e impositiva respectivamente por falta de concurso público e abuso de prerrogativas da autoridade que lavrou tais cedências. E assim se foram somando recintos desportivos do município Luanda tornados privados após as melhorias ali introduzidas e rubricadas originalmente como sendo despesas do estado.

Assim também e na sequência da construção dos primeiros cinco pavilhões multiusos em 2007, para o Afrobasket, e de seguidapara o CAN de Andebol, o governo concluiu em tempo ainda útil que não ia ser fácil conservar os ditos pavilhões, mas 3 anos depois, voltou a exagerar na dose de sobre-dimensões de pelo menos quatro estádios, desta para o CAN de Futebol de 2010. A exemplo dos recintos multiusos também os estágios exageraram na previsão da utilização e da procura tendo gerado ‘elefantes brancos’, pela desproporção do investimento face à necessidade.

Não havia sido tudo ainda. Mais recentemente e para o Mundial de hóquei construiu-se a Arena do Kilamba em Luanda,com proporções igualmente olímpicas, mas uma taxa de utilização e de ocupação igualmente baixa sobretudo desde a entrega da sua gestão a uma outra parceria público-privada surgida de repente e após longa espera pela definição do ministério sobre quem seriam os vencedores dos contratos de gestão de todos estes recintos modernos e exagerados que Angola construiu, mas que os desportistas precisam de pagar caro para aceder e usar.

Assim por junto e atacado, havendo-se verificado haver um elemento denominador comum a todos estes casos, concluí que o estado investiu sempre como se após o evento objectivado e que motivara tal construção nova, depois se fizesse descaso do que acabasse por se tornar o recinto, após este ter já dado tanto a ganhar a uns poucos envolvidos na sua construção, e a outros na sua posterior gestão. Quanto a estes o gerir não combina com fomentar o desporto, mas, sim, cobrar para poderem fazer desporto e viver-se de encarecer o fazer desporto. É uma regra de três, assim simples, que está a transformar o desporto um rendimento para quem nem o pratica ou incentiva sequer.

As tabelas de preços de acesso e usufruto dos recintos públicos sob gestão privada embora divirjam, não deixam de conservar como denominador comum a mesmo onerosa situação criada à prática do desporto de rendimento, cujas equipas e atletas não podem pagar luxuosamente por treinar ao abrigo de um estatuto que deve merecer protecção, incentivo e certas insenções. Há que haver um meio termo e sobretudo uma negociação sobre custos, depreferência perto do simbólico para atletas federados e selecções, e que envolva antes estas partes.

A prática desportiva nas actuais condições de carestia corrobora a conclusão antes tirada e por aqui reiterada, de que as parcerias público-privadas ou ‘PPP’ para exploração e manutenção de recintos desportivos públicos não se revelaram, nem parecem ter sido negócios bem conseguidos para o estado. Nem para o desporto.
ARLINDO MACEDO

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