Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Investimento nos clubes

20 de Maio, 2016
Devem saber os académicos que o desenvolvimento e a subsistência da raça humana obedecem a um processo de formação e sucessão contínuo. O risco do colapso é permanente quando as políticas de investimento se distanciam dos escalões jovens. Quando assim ocorre, por alguma distracção ou na sequência de estratégias mal concebidas, regra comum, compromete-se o futuro.

Alegra a qualquer homem identificado como membro da tribo do futebol a aparição na praça futebolística nacional de uma catadupa de jovens trabalhados e feitos jogadores nas camadas de formação dos clubes nacionais ou se não em algumas, poucas, academias, que por entre dificuldades de toda ordem, ainda se entregam à ingente empreitada de velar pelo dea-after do nosso futebol.

Começa a tomar lugar nas nossas mentes o conceito de que embora o futebol angolano no plano internacional esteja na penumbra, a culpa não deve ser assacada por inteiro aos clubes. A razão da crise de resultados da nossa selecção pode ser outra, quiçá a precisar de uma investigação profunda, de preferência com a competente ecografia, que ajude a visualizar o parasita que dilacera as sua fundações. As agremiações desportivas, embora nem todas, bem ou mal, se esmeram em fazer a sua parte.

É lógico que em função das circunstâncias do momento os frutos desta formação não caem com a mesma intensidade em que ocorria por exemplo nas décadas de 80 e de 90, mas existem. Para tanto, basta prestar alguma atenção a certas unidades jovens que evoluem em equipas que militam no Girabola, para perceber que o trabalho pode ter perdido o rítmo do passado, mas não parou.

A diferença consiste em que alguns clubes em face da sua condição financeira, estrutural e organizativa possam investir mais em relação a outros que vivem atolados num conjunto de limitações. Mas no fundo, todos conjugam algum esforço visível neste sentido. Gelson e Ary Papel, principais referências do 1º de Agosto, são ambos produtos da sua lavra, o mesmo se pode dizer de Carlinhos(Petro de Luanda), Chabalala(Académica do Lobito) etc, etc.Trata-se de um processo que deve ser incentivado, pois mesmo com a possibilidade de os clubes fazerem recurso ao mercado externo, ante a possibilidade de alinhar cinco jogadores em simultâneo, não se devem limitar as iniciativas e as acções propensas à formação. Afinal na hora da constituição das selecções nacionais para compromissos que envolvam o país é com a prata da casa que se deve contar.

Fora isso, é importante reconhecer que a formação também prestigia os clubes, sobretudo quando os seus rebentos conseguem se firmar na carreira.
O Nacional de Benguela por exemplo não ostenta nenhum título do Girabola, mas por as suas escolas terem trabalhado e lançado Fabricio Alcebiades "Akwá" para o mercado é hoje um emblema com nome escrito em letras de ouro na história do futebol angolano. O Petro do Huambo não fica atrás. Diga-se, em obediência à verdade, que já foi um baluarte, para não falar do seu homónimo de Luanda e do 1º de Agosto.

Em resumo, é salutar o trabalho que alguns clubes têm vindo a desenvolver. Infunde confiança num amanhã futebolístico sadio, se se souber tirar o devido proveito àquelas unidades com habilidades natas e maior capacidade explosiva. Mais do que isso, há no nosso futebol um capital que deve ser suficientemente explorado. Refira-se ao número de técnicos com forte vocação para a formação. Não interessa citar os nomes.

O quadro orientador indica que se está no caminho certo, sendo uma questão de prosseguir com a mesma perseverança, com a mesma alma, apesar de tudo isso implicar também alguma capacidade de contornar escolhos que se colocam no caminho. Fica aqui uma palavra de apresso a todos os clubes com políticas para o fomento do futebol bem alicerçadas, assim como àquelas escolas de iniciativa privada que, alheias a todas limitações, não regateiam esforços para lançar frutos saborosos no mercado futebolístico nacional.
MATIAS ADRIANO

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