Jornal dos Desportos

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Opinio

Investimentos feitos no nosso desporto...

27 de Julho, 2019
Tal como começa por perspectivar o meu companheiro desta coluna de opinião, falar de investimentos que se fazem a nível do desporto angolano revela-se como um aspecto bastante sinuoso e que encerra uma análise complexa.Na verdade investir hoje no desporto é praticamente uma utopia, dado o facto de a aposta (grande em muitos casos) que se faz nesse sentido, não ter qualquer retorno e daí afigura-se, todavia, colocar obra num poço sem obter rendimentos ansiados.
Para já é uma questão que tem sido muito badalada no que concerne ao Girabola Zap, a maior prova do futebol nacional, e que, de certeza, há-de fazer correr ainda muita água por debaixo da ponte. Clubes há, nesta maior montra do desporto-rei no país, que fazem investimentos de vulto mas sem, contudo, tirar alguma contrapartida disso.
Isso, por vezes, cria grandes constrangimentos aos clubes que têm responsabilidades acrescidas com questões que se prendem com pagamentos de salários de treinadores, atletas e outros intervenientes do seu processo desportivo, que, por si só, já representam valores exorbitantes. Como se não bastasse isso, há ainda aquelas agremiações desportivas que ousam fazer contratações a preços de ouro, mas sem resultar daí qualquer lucro em termos de contrapartida.
Já é por demais sabido que hoje, no que ao futebol por exemplo, diz respeito, as equipas não ganham quase nada com as receitas proveniente da venda de bilhete para os ingressos nos estádios. Isso, porque os proventos que advêm daí não servem sequer para cobrir as despesas decorrentes de salários, prémios de jogos, deslocações e outras.
Mesmo no que diz respeito aos dinheiros provenientes dos direitos de transmissão televisivos dos jogos do Girabola-Zap, os lucros daí abonados não cobrem os avultados encargos que os clubes têm durante uma época desportiva.
Essa questão dos direitos de transmissão televisivos dos jogos do Campeonato Nacional de Futebol da I Divisão é assumida pela Zap, fruto de uma “joint-venture” entre a empresa de telecomunicações portuguesa NOS e a SOCIP – Sociedade de Investimentos e Participações, SA que disponibiliza televisão por satélite, principalmente para Angola e Moçambique, na África subsariana. Porém, a grande questão que se coloca é saber dos benefícios que advêm daí para os clubes do Girabola, sobretudo numa altura em que se vive os efeitos da crise económica e financeira. É por isso uma questão bastante premente e que merece uma análise profunda.
Nesse sentido e como já se defendeu aqui em outros espaços de opinião, falta no seio dos clubes, sejam eles do topo ou não, uma abordagem profissionalizada das suas marcas e do futebol angolano como um todo, com um projecto mais amplo que envolva a Federação Angolana da modalidade e a Zap, como detentora dos direitos de transmissão dos jogos. Por isso, é imperioso que se mude o actual figurino para que, efectivamente, os rendimentos dos clubes sejam mais significativos nesse campo.
E em face da persistente crise resultante da baixa do petróleo no mercado internacional os clubes nacionais precisam de ser mais criativos em termos da divulgação das suas respectivas marcas para daí buscar mais receitas, não obstante hoje por hoje o mercado publicitário, as agências e os próprios anunciantes estarem à deriva, como de resto também já foi várias vezes apregoado. É, enfim, uma tarefa árdua que os clubes desportivos têm nesse campo se quiserem, efectivamente, evoluir para verdadeiras Sociedades Anónimas Desportivas (SAD). Impõe-se fazer isso.
A ideia do surgimento de uma Liga, no caso particular do futebol, pode também impulsionar esse aspecto que se pretende com a busca de maiores fontes de receitas para os clubes. Por essa razão e isso hoje está mais do que claro, a nível de Angola está a se perder espaço para as ligas sul-africana, zambiana, nigeriana, queniana, ugandesa, tanzaniana, que têm suporte financeiro da SuperSport e os seus jogos são transmitidos um pouco por todo o continente africano. Para já, cabe ao actual elenco da Federação Angolana de Futebol (FAF) a estratégia para dar azo ao surgimento de uma liga no país.
É bom que se diga, também, que esse velho problema de investimentos sem retorno no nosso desporto não é um aspecto que se coloca só ao nível do futebol. No basquetebol, no andebol e noutras modalidades, o quadro não foge à regra.
Tal como no futebol, nas demais modalidades e particularmente no caso do basquetebol e andebol, também tem-se verificado contratações de treinadores e jogadores por somas avultadas, mas sem todavia, resultar nos lucros esperados. Portanto, no seu afã desesperado de buscar títulos por intermédio de projectos imediatistas, os clubes enveredam por esse caminho sem ter em conta outras aspectos que, à partida, deveriam afigurar-se como prioritários, como a formação, investimentos em infra-estruturas e em outros projectos afins, para não comprar “gato por lebre” como se diz na gíria. Mas para isso deve-se dar a César o que é de César e colocar mãos à obra para que, efectivamente, os investimentos no campo desportivo tenham o tão esperado retorno. Sérgio V.Dias


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