Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Investir no vazio ou sustentar o futuro?

27 de Julho, 2019
Hoje ousamos abordar um tema complexo. Sinuoso até. Mas, mesmo assim, vamos abordá-lo. Ainda que de forma superficial, sem a profundidade que se impõe, mas vamos abordá-lo. Trata-se efectivamente da questão de investimentos sem retorno no desporto, com particular destaque para o futebol, o basquetebol e o andebol, onde alguns clubes fazem investimentos com contratações de activos, nomeadamente de jogadores, sem no entanto terem os retornos que deles se esperam.
Mas afinal, porquê alguns clubes da nossa praça, mesmo mergulhados na crise, insistem em fazer investimentos, contratando a preço de ouro, este ou aquele atleta e técnico, sem o retorno que deles esperam?
Estas e outras questões poderiam ser colocadas por qualquer aficionado leigo e disposto a conhecer os meandros da coisa. Se por um lado, os atletas são os principais activos de um clube, sobretudo os que nascem da sua canteira, por outro, a visão é sem dúvidas proporcionar potencialidades à agremiação para resultados que se perspectiva.
Por esta razão os clubes elaboram os seus projectos e traçam os seus objectivos em função da competição que se propõem disputar. No caso concreto do futebol, do andebol e do basquetebol cá entre nós, que de resto são as modalidades de ponta onde os mercados estão bem evoluídos, o que se passa, manifesta-se algo estranho para aquilo que deve ser o pensamento normal.
Reparemos que, por exemplo, clubes há que, mesmo não tendo, digamos possibilidades à partida de conquistar o ceptro, procuram contratações de avultado custo na perspectiva da estabilização do plantel, ao invés de por exemplo, fazer investimentos sérios na melhoria das suas infra-estruturas e nas camadas de formação.
Mesmo não conhecendo a verdade profunda, arriscamos como exemplo, o Atlético Sport Aviação (ASA) cuja equipa de futebol foi despromovida no último Campeonato Nacional de Futebol da I Divisão. Mesmo vivendo problemas mil no que aos aspectos financeiros dizem respeito, ousou contratar treinador estrangeiro e provavelmente um e outro atleta expatriado. Durante a época a equipa viveu imensos problemas, debatendo-se com greves motivada por falta de pagamentos dos honorários e prémios dos atletas, resultando tudo isso, na descida de divisão, por maus resultados desportivos.
Na mesma esteira estão outros clubes, muitos dos quais que militam na divisão maior do futebol nacional e que têm essa prática como bandeira. Ou seja, preferem contratar atletas estrangeiros, muitos dos quais de nível inferior aos nacionais, em detrimento da criação de condições propícias e estimulação de investimentos nos escalões de formação, nas infra-estruturas e na aquisição de material e equipamento desportivo.
No basquetebol, no andebol e em outras modalidades igualmente se regista este “fenómeno” manifestando-se nesta altura uma inflação do mercado.
As equipas, em cada pré-época esmeram-se para reforçar os seus planteis, preferencialmente com atletas e técnicos expatriados. Na verdade, muitas das cláusulas constantes do regime contratual reserva o pagamento dos mesmos em moeda estrangeira e, com os problemas que actualmente temos no aspecto cambial, torna-se muito difícil fazer gestão deste assunto e satisfazer as pretensões contratuais.
Temos que dizer também e julgo não ser segredo para ninguém que esses procedimentos se manifestam devido ao imediatismo que muitas das nossas agremiações desportivas têm. Ou seja, lutam a todo custo para conquistarem títulos, esquecendo-se da sustentabilidade desportiva num futuro próximo.
O investimento quase sem retorno que fazem acaba por ter imensas implicações na gestão desportiva geral e na consistência da continuidade e vitalidade do clube se não for doseado, equilibrado e aceitável. Hoje, as contratações de atletas, quer sejam basquetebolistas ou futebolistas as somas são chorudas. Muitas vezes não justificando tamanhos valores. Os agentes, estes, acabam por fazer o seu trabalho bem ou mal, no sentido da transacção, restando ao clube saber se compram “gato ou lebre”.
Estamos em crer que o mercado precisa sim de ser disciplinado e organizado. A legislação sobre esta matéria deve funcionar “de jure” e salvaguardar os maiores interesses. Caso isso não acontece, continuaremos “pendurados” nesta “inverdade” que nada traduz para aquilo que queremos. Os investimentos de qualquer ordem, devem traduzir, regra geral, perdas ou lucros e, nestes casos, tudo podemos fazer para que sejam rentáveis para nós, quer no aspecto competitivo, como na sustentabilidade que se procura para as gerações de amanhã. O imediatismo e a ganância de conquista de títulos hoje, pode ter um custo alto no futuro. Morais Canãmua


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