Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Arlindo Macedo

Ironias do Maro Mulher e bem comum

15 de Março, 2018
Março da Mulher tem sido um período para uma reflexão que tarda. Ninguém em sã consciência pode dizer que se tenha feito pela Mulher tudo quanto possível.
Dar um feriado nacional pela “Dia Internacional Da Mulher” é chique, não sei quantas economias no mundo o farão; mas para a complexidade do problema da mulher angolana – mãe solteira, mãe-atleta, filhos de pai incógnito, desemprego e falta de estatuto protector, cabeça-de-casal e chefe de família, etc. – um feriado é brincadeira.
Não podemos empurrar para debaixo do tapeta algumas questões que afectam o nosso entendimento comum; ou somos progressistas e apoiamos a completa igualdade dos géneros masculino e feminino, ou continua-se a proteger o homem contra a mulher.
Para mim o Estado tem pilares e habitar nessa casa-comum requer princípios. E regras. E justiça. Deste modo, umas coisas presidem a outras, em uma relação vertical; por exemplo, na Constituição afirmam-se coisas que seria justo e de direito, cumprir-se. Uma delas é o direito do cidadão ao desporto e o apoio total do Estado para garanti-lo.
Entre essa Lei nacional omnipresente e a realidade que se vive com os pés no chão, ressalta que nem tudo se respeita e tal afecta sobremaneira a sociedade quando as vítimas disso forem milhões de indivíduos.
Haverá, por isso, uma camada cultural que devia existir na nossa sociedade, entre cidadãos e Estado, que não se esgota no governo e assembleia nacional; é sempre precisa a sociedade civil, conjunto este de organizações sociais e personalidades que mal se sentem nos problemas eternos do país, como seja a educação e o género.
Além de uma má escola, agora temos também uma juventude regredida aos tempos em que as nossas irmãs é que limpavam e arrumavam a casa, ou ainda nos cosiam a roupa e escovavam o calçado, o que não contribui para uma sociedade favorável ao igual e normal desenvolvimento das raparigas na maioria dos lares angolanos que segregam as raparigas.
Sim, isso é segregação da mulher no seu estado jovem e propenso ao desenvolvimento de todas as suas faculdades físicas e intelectuais, entre outras, que são pisoteadas já não só nos lares e na família, mas na sociedade em geral, que tem consentido isso.
Afinal de contas, a minha filha não desfruta do mesmo ambiente de desenvolvimento do meu filho e isso é, no mínimo, traumatizante; é que, amanhã, eu gostaria de saber que o meu filho tinha uma mulher saudável e fisicamente bem desenvolvida, tal como eu gostaria de ter a minha filha, para o filho de outrem.
Não estou a falar de nada absurdo, nem estranho, mas invulgar, pois, os Angolanos começam a aceitar com naturalidade os destinos diferentes de uns e outros num mesmo país. E mais uma vez, isto é um caso cultural.
A nossa cultura está a mudar, até já mudou muito, e não vai parar de mudar porque sente-se a falta de um travão exercido por pressão de uma maioria que não dá solidariamente sinais de consciência e que assiste muda e surda, nem sempre cega, às transformações quase radicais que se operam na sociedade, e na juventude particularmente.
Há uma sociedade de certa forma sem rei, nem roque, onde tudo quanto não roce o desafio político, parece estar entregue ás forças do mercado e num mercado com 45 por cento de população menor de 15 anos, estamos nós bem entregues, como se diz ironicamente.
Mia uma vez, a dimensão do problema é cultural e a pobreza actual do ensino não desperta os nossos jovens para hábitos sãos, tanto quanto para a maldade que é índole da juventude e que requer a força dissuasiva da moral, da família e da escola, para tentar manter espíritos avessos, nas boas práticas.
É próprio dos jovens desafiar e desacatar, faz parte da psicologia das idades, contudo, a simples falta de educação sexual na escola secundária, ilustra o quanto cheio de lacunas é o nosso sistema educativo, onde nem há educação física – tiraram-na da escola em meados dos Anos Noventa -, nem há oficinas e nem lavores, nem há coisa alguma que costume desenvolver as potencialidades dos jovens, como o computador e a internet, por exemplo.
Assim atrasados e descompensados, temos as nossas raparigas na actualidade. Nenhum pai pode estar satisfeito das condições de desenvolvimento das suas filhas, se tal pai for pai de verdade e encarregado de educação, alguém que além de ostentar esta categoria, papel e função, seja realmente um apoio ao sistema educativo nacional e, do mesmo modo, seja uma voz ouvida pelo sistema educativo.
Por isso, repito, não entendo como se chega ao ponto de se ter um feriado nacional, sem o mínimo nacional requerido pela Mulher. É certo que Angola costumava ter uma maioria de população rural num território mais conservador e agrícola, ou agro-comercial, que favorece os rapazes, em detrimento das raparigas, muitas delas para quem a escola só vai até à quarta classe.
Há, por tanto, um choque de tradições e cultural que o Estado tem estado a perder por não se sentir; contra aquilo que o Estado propõe e promete, existe o que este depois não impõe, até tolera e parece que protege. É quase parecido com aquele dizer popular que “faz o que eu digo e não o que eu faço”.
Estou a falar de cultura física e recreação, e de desporto, não de outra coisa; estou a falar de um feriado e do Dia Internacional da Mulher em que as manifestações públicas das mulheres não devem ter ido além de deposição de coroas de flores,
marchas e um ou outro evento possivelmente desportivo, os quais, feitas as contas, tinha sido mais um dia de festa dos tristes. Ou das tristes...
Não se pode estar satisfeito com os rumos culturais da mulher, que deviam ser protegidos para alcançar a verdadeira igualdade. Por exemplo, no desporto, dever-se-ia cobrar isso dos clubes desde logo, porque os emblemas são os primeiros a desfazer-se de desporto feminino quando os recursos escasseiam. Mesmo se uma equipa feminina prometer mais que outra masculina, pois, os sentimentos do clube são reflexo da sociedade e em Angola a sociedade é machista.
O legislador faz um papel de Estado moderno e que subscreve todas as convenções reformistas do estatuto antigo da mulher, privilegiando-a como mãe, inclusive, porém, se os estados socialistas protegem a mulher no desporto para fazer dela operária e campeã de alguma coisa, já os estados capitalistas diferenciam-se entre desenvolvidos e ainda por se desenvolver, que é o nosso caso.
Nenhum país que esteja francamente a desenvolver-se por de ter 99 por cento das meninas fora do sistema desportivo, pois, tal representa uma grave consequência para a saúde pública, a prazo; tais meninas serão um dia mães...e seus filhos herdarão quase tudo delas.
Mas Angola tem quem tenha percebido já isso; ao que sei, escolheram mulheres norte-americanas para procriar e fala-se em uns rapagões entre os seus 14 e 8 anos, cujo potencial de futuros bons basquetebolistas vai passar igualmente por fazerem-nos estudar nos Estados Unidos, onde nasceram, de pais angolanos.
E é isso, todo o Estado deve ter seus estrategas e estes devem protege-lo, porém, não protege direito o Estado quem não proteger os seus concidadãos. Proteger o suficiente. E nalguns casos, proteger o necessário. E tal como Ensino, o Desporto anda desprotegido...
Angola não terá hoje quinhentas atletas de basquetebol, só talvez de andebol. E para um país de 24 milhões de cidadãos – com até 3 milhões de dissimulados congoleses, malianos e outros – afigura-se um descrédito ter uma juventude tão sedentária, doméstica ou na vadiagem.
É um facto que, para se atenuar a culpa dos pais que não dão educação física, nem preparo atlético aos seus filhos, existirá a desculpa de faltarem aqueles que deviam enquadrar os jovens nessas actividades ditas circum-escolares, uma vez que se trata de um hábito físico que devia haver em todo o estudante. Mas, ainda assim, o grande responsável é o Estado porque a ele cabe o actual estado de coisas.
Vejamos doutro ângulo, a questão.
A Ministra parece ter encontrado que o Estádio Nacional “11 de Novembro” tem dono, mas, será surpresa? Não seria a primeira vez que o património do Estado encontraria o dono.
Ao que me parece, a Piscina Olímpica do Alvalade, A Casa do Desportista, o Campus Olímpico rebaptizado parque de campismo, são exemplo de grandes investimentos do Estado que em pouco tempo viram outro dono. Alguns outros donos de outras peças de património nacional ainda estão na fase da sua metamorfose de gestores da parceria público-privada que vai ditar que, na prática, já é dono daquilo que lhe derem para gerir.
Andamos, assim, a formar a nova burguesia nacional à custa do que costumava ser, ou ainda é por enquanto património público. No caso do desporto, tão carente tem ficado o país de locais de entretenimento colectivo e desportivo, que se tem estado a construir zonas de recreio em pracetas no meio da circulação de automóveis e massas avultadas de gases tóxicos dos escapamentos e motores já sem segmentos que valham.
E isso não é a mesma coisa que os parques para jovens e recreação, sinal de que, quando as cidades e bairros se estão a planificar, das duas, uma: ou se esquecem dos parques e depois colocam-nos onde não deviam, ou, como na Cidade do Kilamba, têm lá os parques, mas não quem lá esteja para instruir a juventude e iniciar-lhes uma prática desportiva.
O Estado não se pode eximir de responsabilidade em tudo isso, pois, a ele cabe preparar os recursos humanos do país para as necessidades de formação do país.
Não faz sentido eu querer saber do Estádio Nacional, se nem capacidade existe para tomar conta do imenso parque desportivo, nem consigo estancar ou reverter processos que já me levaram o quintal, o celeiro e a paisagem. Ou o meu gabinete jurídico precisa de rumo fixo, ou ele andará agora comigo na caravana como se tal estado de coisas lhe fosse alheio.
O património é para o Estado um activo que não parece valer tal, nem estar a ser preservado.
A moda que se instalou e parece ter atravessado até meio do ano passado uma fase desenfreada para se ganhar posse de fontes presumivelmente inegociáveis porque altamente rentáveis para o Estado e o papel social deste ente para com todos, é uma situação perniciosa tanto dos negócios com o Estado, como dos interesses do Estado.
A falta de um cultura de licitação dos bens públicos, ou seja, de abertura ao concurso público, é um vício de forma desse processo de alienação do património do Estado, o qual se presume caucionado pelo próprio Estado, por se passar dentro do mesmo.
Assim continuando a raciocinar, a falta de reacção do Estado a súbitas mudanças de ‘dono’ do seu património, acaba por ‘legalizar’ a transferência da titularidade sobre esse imóvel, conjunto de imóveis ou simplesmente estrutura desportiva de raiz do Estado, a que o povo e os desportistas perdem o direito de livre acesso, passando a pagar pelo usufruto do mesmo.
Visto e comprovado que parece ser desta mesma forma que aconteceram e continuam a acontecer as coisas, resta-nos a desolação colectiva em relação ao empobrecimento, agora a todos os níveis, do estado do desporto em Angola.
Não sei em que circunstâncias o Estado se possa ver hoje confrontado, até, com o risco de perder a ‘posse’ do Estádio Nacional. Ao que percebi, da recente visita de uma delegação ministerial feita ao mais precioso dos nossos elefantes brancos do desporto, assim chamados até pelo tamanho da dificuldade em assegurar a sua manutenção, resta apenas a minha conclusão de que o Estado está a ficar cada vez mais pobre.
E um Estado a empobrecer e perdulário será sob qualquer ângulo de análise, um Estado que se enfraquece. Para aqueles que só vêem o papel do Estado na política e na economia, é conveniente dizer que o Estado é muito mais porque somos nós, a nossa vida e os nossos bens colectivos.
É preciso ajudarmos o Estado, todos sabemos; mas o que podemos nós, cidadãos e desportistas, fazer quando o próprio Estado é que se deixa escancarar?

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