Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Isto Angola e no precisamos

15 de Março, 2017
Cada vez mais transparece que o Angolano não gosta que um estrangeiro venha fazer o que ele julga também que sabe. Mas o conhecimento precisa de ser continuamente elaborado e não creio que se adquira conhecimento essencialmente fora da academia, por exemplo observando outros. Mas creio que é o que mais fazem, entre a classe de treinadores de tudo, em Angola.

Talvez entre eles saibam, mas, oficialmente, todos os nossos treinadores são místeres e todos os místeres parecem professores; mas não se sabe entre eles quem é de que grau, ao contrário de que numa clínica se pode distinguir o enfermeiro, do massagista, ou do fisioterapeuta, já sem precisar de falar em médico. E é isso, quem são na clínica do nosso futebol, os médicos?

Quem serão os nossos estudiosos actuais do atletismo, do andebol, do basquetebol, do futebol, etc. que prosseguem estudando essas modalidades, e pelo menos possuam uma carteira de treinador válida reconhecida pela CAF e FIFA?

Apesar de tudo, foram as bolsas na antiga Alemanha Democrática, RDA, nos Anos 80, o berçário dos nossos formadores desportivos, com bolsas de 3 a 8 meses consoante os casos, estando entre os primeiros contemplados o antigo internacional de futebol, Domingos Inguila, e um pioneiro do nosso futebol nacional, professor de Educação Física, Joca Santinho. Com eles também fora, pelo atletismo, o Professor André Kitongo.

Ainda do futebol e para a RDA, foram em 1985 os ‘bolseiros’ Arlindo Leitão, Cumandala, Jaime Chimalanga, Kata, Nando Jordão, Pedro Garcia, e possivelmente mais algum sem registo nos anais do nosso desporto que existem virtualmente, esperando-se um dia ver nas prateleiras do nosso museu do desporto.

A exemplo do futebol, em Angola também o andebol e basquetebol foram ganhando bolsas de estudo na RDA. Em 1982, no andebol, os pioneiros das bolsas foram Jorge Gonçalves, José de Sousa e Norberto Baptista, seguindo-se-lhes em 1987, Amílcar Benjamim, Beto Ferreira, Divaldo Ângelo, Pina de Almeida, Victor Araújo. Em caso de notar uma ausência e omissão, a mesma foi involuntária.

Em 1981, o basquetebol já pensava mais ambiciosamente e começou a navegar por outras águas do conhecimento, quando o já professor deEducação Física do INEF, Victorino Cunha, incrementou o seu conhecimento do basquetebol através da participação infalível nos ‘clinics’ de top mundial.

No entanto, os primeiros ‘bolseiros’ de facto foram Beto Portugal, Bebé Rosa Lopes e Wlademiro Romero, todos eles professores do INEF se não erro.Curiosamente, no andebol registam-se mais casos de antigos seleccionadores sem carteira de treinador e que avolumaram formações apenas em seu currículo, casos de Vivaldo Eduardo e Gerónimo Neto.

Já o actual seleccionador nacional feminino e antigo técnico das campeãs africanas, transferido para treinador masculino do Primeiro de Agosto, Filipe Cruz, será para nós um caso ‘sui generis’.

Após longa e bem sucedida carreira em Portugal, com um sucesso transbordante até para o estrangeiro, aquele angolano e antigo internacional de Portugal ganhou da federação portuguesa a equivalência a um treinador do nível três. Mas algo deve ter sucedido de estranho, pois quando esteve na França, em Janeiro último, para participar no mundial masculino, o nosso Filipe não foi ao ‘clinic’ dos seleccionadores do mundial da IHF.

Ora, não só o seleccionador de Angola deve ter presumido que não iria ali aprender nada, como nada trouxe para contar ao corpo dos treinadores nacionais da modalidade, nem ao seu clube ou federação.

Isto apenas serviu para percebermos quais são as fundações do nosso saber colectivo e quais são as etapas que o mesmo tem atravessado. As formações não são tão frequentes, nem tão categorizadas como eram no século passado. Correntemente, as federações internacionais patrocinam formações mais genéricas e rentes à formação.

Assim e por maioria de razão, julgava eu que cada vez que um treinador estrangeiro aparecesse na praça, ao invés de o hostilizar, devíamos ‘sugar-lhe’ tudo aquilo que soubesse, levando daqui os ‘nossos’ dólares, em troca da sua exaustão. Isso, sim, aproveitar para beber dele o máximo, observá-lo e segui-lo em suas escolhas, preferências ou opções. Questionando-lhe o necessário e saindo dali mais sabido.

Exemplo disso foi, cronologicamente falando, o surgimento no Primeiro de Agosto do dinamarquês Morten Saubak. A onda de indignação dos treinadores angolanos da modalidade depressa superou a vaga de curiosidade que deveria haver e a procura em observar de perto quais os truques e artes mágicas deste antigo campeão mundial de andebol feminino com o Brasil.

Fica assim patente e por demais, que os Angolanos julgam ter mais ‘nada’ a aprender em andebol. E uma situação parecida ocorreu no futebol mais recentemente, quando há precisamente uma semana foi apresentado o novo seleccionador ‘AA’ do país.

Como era sumamente sabido, afinal, o treinador brasileiro com dupla cidadania, também é espanhol, Roberto Bianchi, ao serviço do Petro Atlético, havia enchido o olho na praça, relativamente a outras opções, para o posto vago da FAF nos ‘Palancas Negras’. Realmente, um treinador que consegue domar o ‘Catetão’ e meter o coqueluche Job na linha, deve ser alguém com particulares dotes de ensino e pedagogia.

Assim, aquele antigo jogador, cuja carreira já o levou a oito países diferentes como atleta e técnico, quando apresentado ao público no anfiteatro da FAF, no pretérito dia 8, despertou mais curiosidade pelo tamanho do ‘bónus’ que lhe prometia o presidente da federação, do que pelas preocupações mais comuns dos presentes com os seus objectivos e metas, conjugadamente com a curiosidade em saber dos meios para lá chegar.

Na hora, Beto Bianchi pareceu mais angolano, que os Angolanos. Ciente de que não teria salário adicional, mas apenas o que o Petro lhe pagava, para ele e para a sua equipa técnica, ainda foi o novo seleccionador compreensivo em mostrar que a falta de recursos financeiros jamais o impediria de trabalhar.

Explicou, então, como usava as novas tecnologias da informação e da comunicação para poder saber de qualquer selecção ou atleta, sem precisar de sair das suas paredes no ‘Catetão’.

Mas também disse, que esperava a colaboração geral e preveniu contra o facto de não pretender chamar reforços e nem convocar jogadores que não tivessem um registo regular de pelo menos 20 minutos em campo por jogo. E mesmo assim, ninguém indagou o técnico sobre o que seria dos Astros nacionais, Gelson e Ari Papel, que não têm feito senão aquecer o banco dos seus novos emblemas. Portanto, havia ali uns bloqueios pouco compreensíveis.

Ora são precisamente esses bloqueios mentais ocasionados pela confusão que fazemos emocional e psicologicamente entre os conceitos de ser-se Angolano e dever-se ter primazia absoluta por conta disso; até aqui, tudo certo, porém, com que requisitos seus iremos contar? E é aqui que jogam papel as valências e as competências de cada um.

Não compreendemos como é importante mantermo-nos assistidos por competências que nos faltem. Actualmente até empresas estratégicas nacionais contratam assessores estrangeiros para suprir carências em recursos humanos.

E os treinadores Angolanos deviam estar sob este escrutínio, partindo até da iniciativa das suas próprias associações de classe, as quais não saberão responder agora e sem hesitação sobre quantos treinadores têm de cada nível.

No sector do desporto, ainda a vivermos em apriorismo, empirismo e desprovidos de universidade, e portanto sem parecer haver nesta sociedade uma filosofia do desporto, debatemo-nos com uma curiosidade suscitada pela forma circunstancial e o trajecto errático como empreendemos o desporto de rendimento.

E ao mesmo tempo rompemos a tradição com a cultura do desporto de massas. Até que ponto o nosso ‘desporto’ serviu mais de bandeira e propaganda, do que se terá constituído em movimento de massas, cultural e científico do desporto?
Arlindo Macedo

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