Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

"Isto no se faz"

02 de Novembro, 2016
Novos jogadores a caminho da elite de Luanda – captei isto, numa rede social e da lavra de um amigo e colega de profissão ademais fiável - e daí, parti ciente de que não vou falar de certezas ainda, mas de princípios- E, se for verdade, será boa-nova, ou escândalo?

Sempre houve quem defendesse que o mercado deve ser aberto, que cada um tem o direito de ir buscar o reforço que puder pagar. Ora, nem mais, tal como as donas-de-casa quando agem sem economia doméstica, então coleccionam dívidas, atrasos, e mais atrasos. Tal e qual. Vai-se sistematicamente pensar que se pode comprar fora, mas será que se produz em casa? Os princípios são para tudo, então, a economia dos clubes não deve ser diferente, para mais numa era em que todas as federações internacionais recomendam a cultura da auto-sustentabilidade responsável.

Acredito que a nossa não será a única, mas de facto, sociedades há que na sul cultura empresarial cultivam não prosseguir a obra encontrada, e ponto final. O meu mandato, o mandato dele - uma inconvivência histórica tremenda, e cáustica para o erário, para o legado, para a obra. E, para o futuro, sempre interrompido e recomeçado, ou mesmo retrocedido, que é o caso do nosso Desporto.

Já devia haver um regulamento , que espelhasse não apenas a protecção do futuro garantido em competição dos nossos jogadores jovens, em viés daquilo que dita o desenvolvimento para fazer sentido, quando se fala em margem de progressão e que só se obtém a trabalhar e não sentado à espera do desenvolvimento “natural” – a tal margem de progressão que se explora, ou se entorna – e que por via disso, lhes assegurasse a licença de dupla-categoria (para crescerem já com os mais crescidos), para além de haver igualmente um regulamento sobre o licenciamento de estrangeiros por equipa e em campo. Globalização, sim, mas sem supressão do que é nosso, e que é com o que pretendemos ir competir lá fora. Melhor seria se essa globalização fosse “país-acção” e levasse mais Basquetebol da capital ao interior do país.

Por este andar cosmopolita também nas Federações a gravitar tudo em Luanda, a nossa bola ao cesto há-de resumir-se qualquer dia a uma Liga com apenas quatro clubes..., todos em Luanda. Sei que já está quase nesse estado, mas também quero ser condescendente o quanto baste, e dar ainda um benefício da dúvida de que já esteja de facto.

Quanto mais dermos ao investimento no estrangeiro e menos para dentro, estaremos a adiar uma solução, e a exportar dividendos em vez de os conservar e investir na multiplicação interna das raízes. Pois, diz a sabedoria popular pouco escutada, tirar não é pôr, então, tirar o futuro aos jogadores jovens mais brilhantes e detentores ainda da tal margem dos seus 20 anos, jogadores esses que só têm garantido em séniores o assento no banco, e o faz de número na fase de treinos, é um contra-senso do mercado que gerimos, pois, afinal é o mercado Angolano de talentos, não o mercado internacional de comércio a retalho.

Só que o nosso Desporto não deve continuar a abrir laterais! Isto, não é um Dubai onde falte mão-de-obra de Desporto, ou então, são os locais de Angola que não querem suar mesmo e preferem continuar a importar a força-de-trabalho para poderem jogar o jogo, ao nível que acham o nacional incapaz de atingir. Mas isto, não é o caso do adágio “em casa de ferreiro, espeto de pau”, pois, Angola tem ainda essa capacidade, só que desinstalada.

Tínhamos políticas de construção da casa a partir do solo, no Desporto, e agora, ficamos toda a hora a olhar para o tecto e sem cuidarmos das fundações. E , tal não para uma gestão responsável de uma Federação. Já irei ao tabú de que mini-isto e mini-aquilo, é encargo da sociedade civil e não de Federações.

A harmonia do sistema é que pode assegurar a sua solidez e eficiência, logo, o nosso sistema desportivo ainda à espera de desenterrar as cinzas da estrutura social desportiva que dizem que o SEF (Programa de Saneamento Económico instituído na II República) destruiu, estrutura essa que através da escola fomentou até 42 equipas – uma altura em que os liceus ainda tinham ginásios – é aonde prometemos voltar, faz já anos e nota-se a demora, nas nota-se sobretudo, o desinteresse e urgência em dar vida à letra de tanta conclusão e recomendação saída de diversos estudos e conferências – como se por vezes fosse necessário reunir e justificar muito, para dar a mão à palmatória e recuperar logo o que se descuidou e se perdeu.

Nota-se a difícil sintonia entre os dirigentes desportivos, os novos espíritos saídos dessas conferências, e as iniciativas de facto por ver em cada canteiro do Desporto em Angola, entenda-se Federações e Associações e clubes, que são os Agentes aparentemente mais despreocupados com toda esta penúria desportiva. Sim, sei que falta o carro, o fax e o crédito para o telemóvel, mas falta sobretudo, o tal espírito empreendedor e que se caracteriza por desenrascar situações e criar, logo, empreender condições alternativas para usufruto urgente.

E, a questão até é simples, pois, como se diz – e as políticas desportivas não diferem de natureza – a política é a disputa pela gestão da coisa colectiva, neste caso tendo por colectivo a sociedade. E então, qual é a disputa que aqui temos senão a disputa entre o bem e o mal, entre o fazer o deixar andar, entre o vir mais além e o apenas ver-se o umbigo (entenda-se ver-se a si e ao seu mandato)? Qual é a iniciativa que se nota ou se percebe que já role? E, tem mais, será o nosso Desporto na era actual – a de pré-crise e agora, já de plena crise –, uma actividade apenas votada ao entretenimento e sem um fito de aposta no fortalecimento da modalidade, concluído em actos de construção, experiência e resultados das selecções?

É além de organizar os campeonatos e cuidar do trabalho continuado das comissões técnicas e pré-selecções, espera-se também das Associações desportivas e da Federação em particular um gesto ou atitude de iniciativas para mobilizar então a sociedade civil, para fazer aquilo que os clubes não fazem quando esbanjem tudo no “Girabola”, sem meio termo com o resto do orçamento de actividade das demais secções do clube.

E, como não lhes sobra depois para poderem investir na formação, não se podem sentar e esperar colher o que não semearam, então, é realmente mais confortável ir lá fora e comprar o que é preciso. Mas já são precisos há uma dúzia de anos, e pelo andar da carruagem significará que não conseguimos mais talentos como os que defrontaram o “DreamTeam” nos Jogos Olímpicos de 1992 e até venceram a Espanha no seu próprio solo?
Isto, já ultrapassa a gestão e situa-se na incapacidade, mas esta estando desinstalada, então significa que foi substituída pela incompetência. E, qualquer dia, além de fora do CAN, já arriscamo-nos a ficar também uns cacimbos fora do “Afrobasket”...

Mais uma vez indago e sem aparente sucesso, qual será o fito último e sério e comprometido do nosso desporto federado, será o de competir para entretenimento, e então tem-se a porta escancarada e cabem já todos no coliseu, ou será o papel também de a Federação promover, além de organizar a competição do seu desporto? Os jovens, que tanto exultamos quando vencem em Sub-17 ou Sub-20, têm o solene direito de aspirar a representar o País na selecção, e para tal, o que se faz em protecção do produto nacional nesta era de mercado escancarado e indústria desportiva ridícula? Esta é a tal resposta que ainda não foi dada pelas ´Federações em maioria e todos sabemos que a desculpa de que o mandato vai já no fim é descabida, dado que o novo espírito de englobar desporto jovem no movimento é algo já discutido, visto e revisto há pelo menos dois ou mesmo três anos.

Não há, por isso, sinais de sintonia. Nem de vontades ainda sinceras, apenas politicamente correctas no papel, mas embebidos de inacção. Se tal é o aspecto retórico e mais formal da questão, já a análise estrutural do sistema revela rupturas drásticas surgidas em relação ao passado recente e de sucesso absoluto, pelo que essas rupturas se nos apresentam como que pecaminosas e prejudiciais - quase de lesa-património humano - ao sentirmos que falta, agora, um sistema estruturado em que haja um conselho e não forçosamente um consenso de opinião, mas uma dinâmica de natureza metodológica e técnica que volte a produzir resultados antigos, mas nossos, dos mesmos aqui presentes ainda, embora alguns já sem vida.

Alguém e algo, que para além das Associações de treinadores em cada modalidade, reunisse todos os nacionais com a carteira de treinador que já tenham sido seleccionadores nacionais e cujo saber e legado pesam o suficiente para serem ouvidos em questões de estado, como esta, que é o estado do Desporto Angolano na actualidade.

Ninguém em sã consciência pode conceber que em Angola não haja um enquadramento qualquer dos antigos seleccionadores, que agissem como uma assessoria ou conselho técnico consultivo dessa dada Federação. Veja-se os casos de Oliveira Gonçalves, no Futebol, ou Beto Ferreira, no Andebol, ou ainda no Basquetebol, onde Victorino Cunha – mesmo se já jubilado, mas também Alberto de Carvalho “Ginguba”, Jaime Covilhã, José Carlos

Guimarães, Manuel de Sousa “Necas”, Raúl Duarte, todos eles antigos seleccionadores nacionais seniores, andem hoje funcionalmente desempregados da modalidade, e mais, a parecerem técnicamente marginalizados, enquanto sabemos que são quadros com provas dadas e capacidades para ajudar as comissões técnicas e eventualmente directores técnicos nas Federações a corrigirem a posição do mastro e a apontarem na direcção do vento se realmente quisermos voltar a navegar nas águas gloriosas do passado desportivo deste País.

Aproveito a ocasião para sugerir às Associações de antigos treinadores, que trabalhem uma recomendação aos clubes para estes futuramente incluírem nos contratos com os técnicos estrangeiros, a necessidade de darem uma vez por época, uma conferência sobre um tema relevante do treino, da metodologia ou do que constitua saber para a classe dos treinadores nacionais, a ver se ajuda com algo para repôr a nossa pirâmide desportiva de pé.
Arlindo Macedo

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