Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinião

Já fomos longe demais nesta carroça

11 de Outubro, 2017
País cuja história não tenha sido escrita, escrever-se-á a cada estória. E a nova ministra pode escrever ricas páginas se não cair vítima do peso efeito ou consequência.

E com efeito estamos já a descontar os primeiros cem dias de nova governação e a reparar nos esboços verbalizados que se fizeram, quer durante os juramentos e discursos, quer durante os pressupostos das nomeações, que apesar da controvérsia, que seja, podem realmente criar uma boa governação no sentido do simples compromisso de realizar obra, desenvolver o país e fazer história.

E a história tem sido feita mais de proezas, do que de falhas, as quais normalmente ficam apagadas pelo tempo quando a vontade política se materializa nos passos e actos visíveis aos olhos de todos e que exprimem uma convicção naquilo que se conhece e que se faz com a certeza de que vai resultar, tal como aos generais era pedido no auge da contenda que travámos, que rompessem caminho.

É preciso romper caminho. É preciso libertarmo-nos das amarras do retrocesso porque o nosso desporto está visivelmente a andar para trás e a repetir erros como se entre os espectadores não houvesse a possibilidade de replicar e corrigir o treinador, dada a soberania deste sobre a equipa e no jogo.

Quis dizer com aquela analogia que há uma dimensão ética necessariamente em torno do nosso cilindro imaginário tal como se sentem os jogadores de basquetebol no seu jogo e onde não podem ser ofendidos, tocados. E quantas vezes, magoados. Então essa ética em um cilindro imaginário é o que separa cada um de nós, do outro.

Mas é uma separação em forma de código. Como no tráfico. Como a subir escadas, porque o corrimão é sempre mais de quem sobe, do que de quem desce. E pelas escadas tendemos a dar a parede a quem sobe por estarmos habituados a conduzir o carro pela direita. E a obstruirmos o corrimão de quem sobe.

Assim sendo, a dimensão ética que o desporto perdeu foi o primeiro forte pressuposto de que o desporto de rendimento precisa e que se cultiva através da academia e dos próprios clubes, os quais são culturalmente pobres, ou não tão ricos quanto deviam ser, pois, a história também não se escreveu ainda na maioria dos emblemas, que a cada ano perdem sempre e fatalmente um histórico mais.

E as fotos e vídeos, até em telemóveis, fazem-se e apagam-se na mesma facilidade em que se enviam para o outro a mostrar como foi. E nem isso os clubes aproveitam e recolhem.

Se a dimensão ética rapidamente se altera o código deontológico e hoje é comum o presidente ir comprar o atleta ou escolher o seleccionador, pois, tal como o professor parece na escola, também o directo técnico passou a ser ignorado pelo sistema e há uma épica precisa em que isso sucedeu e que foi quando após o SEF, só para podermos ter um marco referencial, começou a renovação no desporto impulsionada pela antiga boa juventude em perigo de sobrevivência na carreira e a querer usar o seu prestígio para se guindar a novos heroísmos, tal como o astronauta soviético Yuri Gagarin se havia tornado herói nacional ao realizar o primeiro voo humano orbital.

A juventude angolana atravessa hoje esse mesmo momento do impulso para o mais ansiado de tudo o que tenha já querido na vida, que é estabelecer-se depressa e a correr e a desfrutar daquilo que o pai nem em metade do tempo havia conseguido amealhar. E depois mais do que apenas amealhar. E tal como se conta do camanguista que não valoriza o dinheiro que lhe corre pelas mãos, também o nosso jovem sonha em prosseguir e os exemplos não nos faltam incluindo cenas públicas e impunidade.

Então e nesse afã, a forma como as novas gerações trepam é devastadora e não se preocupa com o tema ambiental. Foi assim na geração e com o pioneirismo do Gustavo, prosseguiu assim na do Godinho, e continua assim na do Artur, para dar exemplo de três modalidades de proa, nossas.

Os antigos são tratados de maneira pouco ética e indelicada. Ignorados e tecnicamente apagados. Será porque isso fará parte da sua afirmação e soberania?

Falei de gerações referindo-me a nomes e não pessoalizando nem generalizando, pois o comportamento tendencial em causa não é uma unidade de massa, apenas uma tendência grupal e nem sempre fácil de determinar na sua extensão e profundidade, porém, visível no efeito da alteração climática da modalidade.

E das modalidades. No fundo o desporto é um processo mais ou factor do meio social, que acaba sempre regido pelas relações entre os homens e estas nem sempre foram de muita ética e cortesia.

A expressão da minha indignação está no facto de a falta de ética ter sido comprovada pelo erro cultural histórico, em que numa sociedade os mais velhos passaram a ser ignorados, o que é obviamente um contraste com a nossa tradição e cultura, o que por sua vez vem provar a desaculturação da nova juventude angolana. Ela não respeita mais os anciãos, mas proclama-se autêntica e genuína em seu novos traços comportamentais. Aos olhos dos seus avós mudos e seu pais sempre muito ocupados.

Só um pai ocupado não se dá conta de que o filho não está a exercitar-se, aliás, nem a sua própria mulher. E os nossos pais perderam esse cuidado, daí não estranhar não haver escolar, nem sequer já, de bairro; na maioria dos bairros. E assim anestesiados e cada vez menos próximos da realidade e da sua própria noção de cidadão, por isso inconsciente e já nem sequer resignado com a mudança e empobrecimento do nosso desporto em geral – quem se recorda dos jogos corporativos? – lá viemos silenciosamente despencando em valores e costumes e práticas e resultados, claro está.

E o nosso resultado é este: os país não usam do seu papel educativo, a escola argumenta que lhe falta cérebro para trar disso, a fábrica de professores deixou de funcionar a gás e não há lenha, então os filhos dependem dos amigos que tiverem, ou dos filmes que virem. Mas é preciso sabermos ultrapassar o impasse. E sair dele.

Por isso havia pegado na ética, por ser o valor dos nossos actos. E o nosso compromisso em agir correctamente. Contribuir para a formação correcta da juventude e aliar-se a forças juvenis consagradas pelo tempo e a prática, como as organizações juvenis religiosas, mais activas e efectivas que as demais organizações juvenis.

Os vectores de força devem ser escrupulosos aliados da ética para eivar a juventude de uma seriedade necessária, sem ilusões de ‘Hollywood’ nem sonhos virtualmente reais tais como ter uma bela vida sem precisar de trabalhar. Isto vai levar tempo, só precisa de ser começado.

O rastro desta nova era de mentalidade, que subsiste na medida em que se tolerar a mesma, deu cabo do nosso tecido social – como se vê na indiferença da força motriz jovem em relação ao saber científico e a sapiência sempre maior da soma do antigamente que os mais velhos representam – e só quando todos os pais e famílias agirem em conjunto se vão mudar as coisas. Porque a acção social é um facto e não devia ser preciso chegar ao cúmulo de medir a pulsação pelas redes sociais, mas pelos factos reais. O nosso desporto tem estado a mudar para pior. E a nossa juventude não está presente. Qualquer jovem na actualidade pretende uma realidade intangível e a verdade é a transformação tendencial da nossa ideia de pirâmide novamente errónea, se continuarmos a deixar que em breve haja mais licenciados do que que operários qualificados e a qualificação técnica é tudo quanto um jovem não pode dispensar no mundo contemporâneo e a ficar cada vez mais dependente de tecnologias que ainda não são um hábito nas nossas escolas. Então é um caso muito sério também, a desta pirâmide.

Já no desporto cometemos o logro de enveredar por esse caminho tragicamente inovador, sempre que se insiste em partirmos do desporto sénior como maior objectivo e prioridade, sem primeiro assentarmos o edifício num viveiro constante.

Ora, porque há-de haver apenas uma academia de futebol na nossa capital, se em Abidjan funcionam presentemente mais de 80, ou em Kinshasa nem a guerra inibe a academia Ujana de crescer. Trata-se de um caso de estudo, mas não sei o que será maior caso de estudo ainda, se a academia Ujana de Kinshasa, se o tombo e o desporto angolano na actualidade.

Se a escolha for o caso de estudo da Ujana, saiba que ela tem quatro campos relvados, mãos cheias de professores e monitores, custando aos pais 40 dólares por mês. Actualmente com mais 4,200 matriculados – não sei quantas vezes mais, o número de todos os jovens angolanos federados e portanto nos clubes - a academia também faz uma acção social.

A poucos quilómetros dali, oferecem a 400 jovens desfavorecidos um acesso gratuito ao treino da academia, mas, o objectivo não é mandá-los amanhã para o Inter de Milão, é inculcar-lhes quaisquer valores que possam ser inculcados através do desporto, e ainda outras coisas, como a educação, para que amanhã possam ser cidadãos válidos ao país. É urgente assentarmos os pés completamente no chão e de preferência na terra. Descalços.

É inevitável ser preciso corrigirmos. Inadiável, até. É mais do que tudo preciso racionalizarmos e empreender uma prática quotidiana daquilo que claramente entendemos como sendo positivo e efectivo. E ver-se as coisas a resultar. E , senão, emendar.

Aliás, o novo Chefe da Nação foi claro ao exprimir como sendo um compromisso do seu Executivo‘corrigir-se o que está mal e melhorar o que estiver bem’. E assim a Ministra nem vai precisar de ter o ónus para começar a agir e a moralizar o desporto, em primeiro lugar. E a desagravar os seus custos. E a fazer levar os pais a olhar pela educação física dos filhos.

E tratar de ver porque os alunos do antigamente no seu instituto de formação de referência, hoje não passa de uma nostálgica lembrança com saudade do passado. Que só não sabe quem não viveu. E não pode comparar. Mas pode perguntar aos seus pais, aos mais velhos esquecidos e que deixaram por más mãos alheias, o desporto angolano.

E é preciso pôr mão nisso, senhora Ministra! Por mais que lhe custe afrontar o‘establishment’ do desporto na actualidade, comece a agir com energia e voz de (co)mando.

Todos ouvimos até à exaustão que por trás do homem tem de estar sempre uma grande mulher, pois, é chegada a altura da Mulher se pôr à frente dele!
Já fomos longe demais nesta carroça.
ARLINDO MACEDO

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