Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Jornalismo VS clubismo

15 de Março, 2016
Reiteradas vezes, no exercício da profissão jornalística, fomos incompreendidos, acusados de algum sentimento clubístico, por a nossa análise revelar uma certa tendência paternalista. Em muitos casos tal presunção resulta apenas de uma percepção enviesada de quem nos lê ou nos ouve. Em outros pode até ter alguma lógica ou fazer algum sentido.

Afinal nem todo crítico da "coisa desportiva" tem tacto para poder separar as coisas, quiçá incapaz de saber fazer a delimitação do campo de actuação e a partir dai perceber onde termina o adepto do clube X e começa o jornalista que deve esgrimir os seus argumentos despido de qualquer paixão clubista.

Em tese, quando não se separam as águas corre-se o risco de não levar a quem nos lê ou nos ouve, uma informação coerente e plural, que corresponda ao ocorrido. Tomaremos o penalte, justamente assinalado contra a nossa equipa, como algo forjado pelo árbitro em serviço, e aplaudimos euforicamente o golo por ela marcado em posição irregular.

Pessoalmente tenho a percepção de que cá entre nós temos sabido gerir este dilema. Não tenho memória de um caso bizarro que tenha marcado a classe, embora, e para não me assumir em advogado do diabo, não se descarta a possibilidade de existirem isoladamente alguns casos inteligentemente engendrados por alguns "compagnons de route".

Na verdade, o que tem maior ênfase neste caso, são acusações de certos dirigentes desportivos a jornalistas, na maior dos casos infundadas. Mas já é hora de se perceber que o jornalista é antes de tudo um homem como qualquer outro, que tem sentimentos paixões, sendo normal, pacífico e aceite que seja adepto de alguma equipa.

Aliás, o afecto por um determinado emblema desportivo quase que nasce com o homem. É algo que se manifesta aos oito, nove, dez anos. Pressupõe que quando abraçamos o jornalismo desportivo já temos a camisola e o cachecol do clube X. O resto, como já me referi no começo, é tacto para gerir o cenário sem atropelos nem fanatismos.

O mesmo ocorre com dirigentes desportivos. Muitos são aqueles que laboram em clubes de que não são adeptos, porque o adepto nasceu antes do dirigente. E se no final da formação em dirigismo procurasse, cada um, emprego no clube de que tem simpatia certamente mataria a família à fome. Em regra corre-se para onde surge a oportunidade. E como têm gerido as suas emoções?

Em finais dos anos 70 influenciado pelo espírito bairrista e com o Progresso Sambizanga no auge da sua história, fui atraído por este histórico clube luandense, cuja relação perdura aos dias de hoje. Adolescente exultei pelo desempenho da equipa no memorável torneio "Ano da Agricultura", e desatei em choros ante a amarga derrota naquela memorável final com o 1º de Agosto. Mas ninguém ousará dizer que os meus escritos denunciam esta aliança.

Estive, estou e estarei sempre disponível a dar a mão ao clube no que estiver ao meu dispor. Mas jamais mergulharei a caneta no tinteiro para defender o indefensável. O meu discurso enquadra-se sempre na veracidade dos factos, e nada mais do que isso. Jogou bem , jogou bem. Jogou feio, jogou feio e ponto final parágrafo. É isso que faz do homem um profissional íntegro e descomprometido.

Portanto, e para fim de conversa, se sabermos separar as águas deixamos de dar a este ou àqueloutro motivo para acusações descabidas de clubismo. Pois, não encontrarão nas nossas matérias quaisquer indícios de parcialidade analítica. É fácil trilhar este caminho, e ficamos bem connoscos, enquanto membros da tribo desportiva e formadores de opinião.
MATIAS ADRIANO

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