Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Norberto Costa

Lendrios craques que brilharam na "meloy"

19 de Março, 2018
Irrecusavelmente, foi através do desporto, nomeadamente, atletismo e futebol, que alguns angolanos se impuseram no tempo da outra senhora, ganharam um status social privilegiado que permitiu evoluir no esquema da mobilidade social e geográfica ascendente, venceram a barreira da discriminação social, económica e racial.
Insisto: foi por via do desporto que se abriu o caminho, à posteriori para adesão à causa nacionalista na fase de implementação, ao apelo de Mário Pinto de Andrade, na Câmara dos Comuns, em Londres, no sentido da passagem à “acção directa” traduzida na luta armada.
Antes disso, por esse processo de “afirmação social positiva” passaram os ‘filhos da terra’, imbuídos na redescoberta de Angola, como os futebolistas Américo Boavida, Júlio Chipenda, Araújo, França Ndalu, e dos atletas em estafeta e salto em altura, de que vos vamos falar na próxima edição, como os manos Mingas (Rui e Saydi) e José Barceló de Carvalho, o futuro Bonga Kwenda, que venceu o constrangimento inibidor da rouquidão da voz na Holanda e tornou-se, denodadamente, o embaixador da celebrada Música Popular Urbana Angolana, a maior parte deles oriundos dos então musseques de Luanda, nomeadamente, o Bairro Operário, São Paulo e arredores.
Esquematicamente falando, na época, a delimitação divisória entre o musseque e a baixa, era entre o areal vermelho e o asfalto de alcatrão, ou ainda, o colono branco habitante na zona baixa da cidade e o negro colonizado, na periferia suburbana; diferenciação sociológica que vai sinalizar de forma marcante a Luanda do antigamente, como cantaram os poetas da \"Geração da Mensagem\" e pintaram os prosadores da \"geração da Cultura\" e subsequentes plumitivos das letras angolanas, retrato vivo de um diminuto processo de miscigenação e amalgamento cultural.
Aliás, potenciado com a política do povoamento branco, em princípios dos anos 50, apesar do preconceito racial reinante na época, nomeadamente, contra os casamentos mistos do apartheid de triste memória. Por isso, passou Américo Boavida e sua esposa de ascendência europeia, indo casar no Porto, Portugal.
É neste ambiente social desolador que o grosso destas figuras furam o empecilho da grave fractura social existente , a jogar não só nas equipas dos musseques, em São Paulo, como na baixa, Atlético e Ferroviário. O “Team” de S. Paulo conta Bonga “era considerado clube dos pretos”, pela simples razão de encontrar-se localizado na periferia onde habitavam os nativos.
No final dos anos 40, um antigo praticante de atletismo no Atlético de Luanda e futebolista, de sua graça, Américo Boavida, nascido em 1923, na casa dos 20 poucos anos é dos raros jogadores nativos angolanos a evoluírem no futebol em Portugal. Depois de concluir o 6ºano, - nesse último ano lectivo feito em Angola, colega de turma de Agostinho Neto com quem partilhava a carteira, travavam profunda e eterna amizade no Liceu Salvador Correia, fundado em 1919, no ano que o maestro Aniceto Vieira Dias (Liceu, nasce daí a alcunha) - o jovem estudante liceal A. Boavida vai prosseguir os estudos a Portugal, para concluir o 7º ano dos liceus e frequentar a Universidade que não havia na colónia de Angola, junta -se a pouco mais de uma vintena de estudantes africanos afectos à Casa dos Estudantes do Império, em Portugal, apostados em tirar o canudo, não só para aumentarem o standard intelectual e garantirem um estatuto social privilegiado de assimilados, para e sobretudo servirem as massas africanas despojadas da condição de ser humano à face da terra.
Américo Boavida não beneficiou de bolsa de estudo e tinha o pai enfermeiro com poucas posses, beneficiou como escapatória e bóia de salvação da sua inclusão como avançado na prestigiada equipa do Porto, gabarito na linha da frente que desfrutava já em Luanda, onde o pai encetava contactos para que tal \"démarche\" fosse possível. No seu primeiro jogo no clube de Porto entalou três golos, numa altura em que a equipa do Porto estava na mó de baixo, fê-la subir de jacto no ranking do futebol português, com a brilhante e primeira exibição, que constitui manchete e destaque nos jornais da época, como o Mundo Desportivo:
Todavia, em finais dos anos 40 e princípios dos anos 50 não dividia só o tempo entre a Faculdade de Medicina e o futebol, que sustentava os estudos, engajou-se na acção cívica do movimento reformista da CEI. Mais adiante, passou a frequentar a famosa casa 36, da \"Tia\" Andreza, uma família de proto - nacionalistas africanos que contestava a ordem colonial sob o signo do legalismo, e onde veio a funcionar o Centro de Estudos Africanos, catalisador da geração da ruptura do movimento de “Reafricanização dos espíritos”, que sob a capa recreativa como era táctica na altura, criaram duas equipas para conspirar contra o sistema de dominação estrangeira nos seus países de origem - conforme dá notícia Mário Pinto de Andrade numa palestra em Conakri, proferida em 3 de Fevereiro, duas semanas depois da morte de Cabral, em Conacri.
De assinalar, que as experiências futebolísticas similares à do futuro médico e herói tombado em glória nas chanas do Leste, passaram outras figuras das gerações bio-sociológicas posteriores à sua, que atingiram a maturidade física e psíquica nos finais da década de 40 e princípios de 50, a ganhar pela vida penosa de africano descriminado em terras lusas, a driblar a bola e a marcar golos, e veio mais tarde a afirmar-se como referências de proa do nacionalismo moderno e da política angolana, como é o caso de Júlio Chipenda (o futuro primeiro Presidente da JMPLA e futuro vice -presidente do MPLA) que actuou no Benfica e na Académica, onde jogou com Araújo, um seu correligionário do \"M\".
Foi na Académica de Coimbra, equipa onde veio mais tarde a exibir-se António França (o futuro comandante Ndalu), o primeiro bolseiro angolano a aportar às terras caribenhas de Cuba, em que a reafirmação dos seus dotes futebolísticos se reconfirmaram, brilhou na selecção desse país, circunstância que valeu o título de honra de cidadão em Cuba.
De volta a Chipenda, que não fazia parte dos musseques de Luanda, nasceu no Sul de Angola, tal como Ndalu. Oriundo do Lobito, Chipenda veio ao mundo em 1933. O pai era professor primário. A sua ida a Portugal foi, basicamente, para frequentar os estudos superiores, depois de dar aulas para ajudar nos rendimentos familiares, quando concluído o 5º ano. Alguns anos depois, concluído o 7º dos liceus.
Após firmado acordo com a equipa do Estádio da Luz ou mais ou menos na mesma altura, chega à antiga metrópole e matriculou-se na Faculdade de Ciências para estudar Biologia? Neste período joga no Benfica e depois na Académica, fez-se professor ao dedicar-se a ministrar explicações aos colegas da “equipa dos estudantes”.
Finalmente, quem veio a brilhar muitos anos depois como nunca, foi Dinis, seguido de Jacinto João (Jota Jota), Jordão algum tempo depois, sem esquecer Kanvunji, Chico Negrita que não chegou a jogar no Benfica, porque a morte surpreendeu-o em Luanda, na fase transitória da independência, época em que se habilitava para brilhar nos estádios da antiga “meloy” e no resto do futebol europeu.
Aqui, fica a homenagem às antigas estrelas do futebol angolano, umas mais reluzentes que outras, na constelação das imagens esquecidas e mesmo apagadas dos catálogos do Desporto Nacional, certo de que como dizia Américo Boavida: \"Hoje, ou depois de amanhã, Angola vai mudar\". Não haja dúvidas - acrescentamos nós - urge resgatar o nosso património desportivo, incluindo o espiritual, para bem dos mais novos e das gerações vindouras, para que saibam de onde saímos e para onde vamos.

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