Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Levantar Angola da queda no desporto

20 de Setembro, 2017
O povo habituado a superar e conquistar obstáculos tem hoje que chorar a triste sorte da sua realidade desportiva, a qual costumava ser máscara e um parco motivo para sorrir diante do oceano de dificuldades em que ainda navegam as nossas vidas. E quando a pequena hecatombe de resultados das modalidades de facto raínhas regressam dali onde foram, já sem as coroas, então o povo sente-se mesmo empobrecido de todo.

Será um problema das fórmulas a que já havíamos chegado com êxito, ou uma dificuldade actual de interpretação das mesmas?

Seja como for, acho que já era tempo de se mobilizarem as sumidades nacionais na matéria para analisar o pesado défice e indo além dele, até às raízes do problema. Eu ainda acredito que existe quem conheça as soluções possíveis; o que em definitivo não vai dar para tolerar, sob pena de parecer um crime de lesa-pátria, é deixar-se correr o marfim, como se diz, e vermos isto a rolar por si e a degradar-se a cada ano.

O lado mais cruel da herança que já vislumbramos é que, quanto mais demorarmos a estancar o rol das perdas, mais atraso cronológico iremos acumular e assim, quem sabe, nem daqui a dois novos ciclos olímpicos, pois craques e campeões não se fazem em dois verões.

Se de uma outra perspectiva nos sentarmos no chão e a apreciar a cada vez mais descolorida paisagem dos resultados, veremos um somatório de gastos cada vez mais distante do que seria uma aceitável relação de custo e benefício, para os cofres do estado, que é como se dizer que andamos desportivamente a queimar o dinheiro que mais falta faria aos hospitais.

Já é hora de admitir que o país vive equivocado sobre o modelo desportivo que concebe, mas não cria. Ou se desvia. Afinal, falamos de profissionalismo no desporto, porém, comportamo-nos como amadores cada vez mais medíocres. Isto é sempre muito relativa, na medida em que desportos há que têm mantido progressos. Mas estes não devem somente ser competitivos, precisando de ser igualmente expressivos em números, pois estes exprimem com maior exactidão aquilo que se faz e obtém.Com cada vez menos recursos humanos, entre atletas e treinadores, aptos e activos – prova disso é a curva declinante de praticantes federados e o número de ex-seleccionadores no desemprego total ou parcial – urge fazer algo diferente de se parecer brincar ao pim-pam-pum e cada bola mata um; na actual fase de índices por muito baixos e cada vez mais, impõe-se-nos reagir e racionalizar. Senão, vejamos.

Não tens o viveiro desportivo ideal, logo a pirâmide certa, então, como se poderá sair desta inadequação? E utilizando qual função? É que se está a gastar aos cofres do Estado somas demasiado avultadas para cada vez mais recuarmos a níveis de puro e simples amadorismo.

Portanto a inadequação é que o que se está a gastar não corresponde ao que se está a colher; o que se tem possivelmente fomentado não estará a corresponder ao que se devia expandir; e o que não está decididamente a resultar, é obra a se rever. E os parentes do país não vão cair à lama por se admitir o fracasso, pelo contrário, sairão dela.

Já a função a que tudo isto se deve subsumir será a de buscar-se na relação entre os dois conjuntos, ou sejam o ministério regulador e pagador dum lado, e os agentes desportivos vulgo federações e clubes do outro, seja essa função linear, injectora ou exponencial, mas que dê um resultado certo.

E como se viu em termos simples, importa acertar. Importa sair do erro que, não sendo por hipótese de ordem matemática, será sempre de ordem lógica, pois o desporto angolano perdeu a sua lógica e os resultados negativos repetitivos são a prova disso. Esqueçam os feitos do andebol e do hóquei, este ano, e cinjamo-nos ao geral. Ainda me poderiam dizer que o basquete jovem também já sobressaiu, mas o que importará isso se o mesmo não se mantiver a sobressair? Para o fazer precisava de continuar a ser visto e tratado no pique. Mas, não.

Não é assim que passa, infelizmente. Os jovens serviram para nos tirar do anonimato, no começo; depois disso, os putos só comem se lhes for dado de comer. Então ficam enfezados, raquitizados e minimizados, mal passando de números para estatística ficcional, pois na hora da verdade e dos seus jogos e campeonatos, mal se os vê. Mas todos afirmam que os têm, e se calhar é como a do cão que come muito, mas não lhe dão; assim os putos muito podem querer, mas não lhes deixam.

E isso reencaminha-nos para a questão fundamental, de natureza mais formal, porém, madrinha da tal base piramidal do trabalho que hoje nos falta fazer. Eis, então: o que representa exactamente o desporto na sociedade angolana e como o mesmo vem prefigurado na lei fundamental, em relação ao cidadão e ao país, que é a sociedade.

Da sua leitura, interpretação e compreensão desprendem-se hoje tantos contra-sensos, que outras perguntas, entretanto, se levantarão: para que serve o desporto em Angola e quais os seus verdadeiros objectivos? Será o desporto uma cultura de vida, ou um modo de emprego da gente sem outro emprego, ou ainda um mero entretenimento para não pensarmos toda a hora na nossa sorte? E vamos lá, a ver.

Em 1977, após os primeiros 23 meses de independência, os generais mais entusiastas do desporto transpiravam alegria pelo futebol, contudo uma cultura universitária, diga-se, do basquetebol mantinha acesa a chama da bola ao cesto, ao mesmo tempo que um par de bairros germinava o andebol. Ao que se diz, em Luanda, o Rangel, Samba e Vila Clotilde eram as principais ‘confrarias’ e os jovens seus habitantes faziam desses desportos, um pacto, uma afirmação pessoal e do bairro, enfim, havia já uma cultura disso, que depressa a guerra engoliu para as forças armadas.

Como o desporto seria uma forma de manter a preparação física e combativa, o encantamento foi maior e os clubes militares assumiam-se por corporações, a pontos tais que hoje são os clubes-mor, tal como aquele da instituição donde provinha mais subsídio para tal, nos petróleos. E mais dificilmente descortino se for a por propaganda do regime social do novo país independente, se apenas por uma herança, os mais jovens e adolescentes beneficiaram dos muitos formandos da educação física que alicerçaram o desporto jovem, aliás, escolar.

Ora, na hora das escolas remeterem os craques para os clubes, deu-se o paradoxo no país emergente da esfera do socialismo que se divorciou para abraçar o capitalismo, começando logo por sacrificar os mais pequenos. E desde então, formar desportistas em Angola tornou-se uma coisa ou de bairro e de rua, logo uma coisa precária, ou então de faz de conta, nos clubes. E estes, cada vez mais despesistas no menos essencial, adoptaram a política de não mudar de calças até rasgarem.

Ora, quando assim seja, o pobre não se desfaz dos trapos, mas une-os para dar mais tecido. Os clubes não se deviam ter separado dos putos para poder manter clubes indisfarçavelmente só de mais velhos, sendo a prova aquilo que hoje vivem: dificuldade em promover as suas promessas de craques, pois, nem promessas, quanto mais craques!Então achava-se que a culpa não estava na essência, mas na forma, daí o rol de chicotadas psicológicas, até chegar-se ao ponto de hoje, clube que se preze, não ter treinador angolano, mas estrangeiro. Crentes de que o problema fosse o nacional, e não o sistema adoptado no país, deixou-se até de dar muita atenção à formação dos novos treinadores e superação dos pré-existentes. Se comparássemos isto a uma equipa de futebol no limite das expulsões, era como se a mesma mandasse tudo para o ataque e ficasse sem nada na defesa.

Hoje estamos todos perdidos no ataque e sem defesa. A nossa lógica desportiva desmoronou. Os fragmentos do que um dia fora um exemplo desportivo em África, dispersaram-se a tal ponto, que ficou irremediável e impossível de juntar-se os cacos de novo. E quando assim acontece, o melhor costuma ser recomeçar. Mas, saber-se-á recomeçar?

Ouvi sempre que o mais difícil não é saber, mas aprender. E nós, nesta terceira geração do país, sabemos e aprendemos o quê, de valioso, para termos soluções?

Mal vai o desporto em que não se der um passo sem precisar de beber dinheiro, primeiro. Fosse assim e nem o Burkina, ou a RCA, sobressairiam no desporto. No plano do desporto institucionalizado – algo que em Angola houve a princípio – e o Ruanda, cheio de semelhanças e aspirações políticas connosco, jamais seria um país dos mais falados na actualidade desportiva. E tal revela que a instituição ‘estado’ deve ser omnipresente nos objectivos primordiais nacionais, um dos quais é o chamado orgulho nacional.

Assim sendo, o povo angolano tem de recuperar o seu orgulho nacional e a instituição ‘país’ ou ‘estado’ tem de ajudá-lo a conseguirmos.
O primeiro passo que deveria assomar na alvorada de uma nova república e um novo ‘governo’, para o desporto, seria redefinir o ‘orgão ministério’ de forma a ser mais presente e responsável, do que passivo e ainda por cima difuso; nunca me havia passado pela cabeça que um ministério da juventude e desporto tivesse feito menos pela juventude e desporto, que uma antiga Secretaria de Estado da Educação Física e desportos, a melhor fórmula que eu vi na banda para o sector, em 42 anos de atento exercício de observação, como profissional e concidadão.

Seja como for, decerto os dados estão já lançados, mas espero, a bem do desporto nacional, que os ingredientes sejam novos, assim como os tenores. Sermos mais sérios e mais profissionais a todos os níveis e transversalmente. Sem compadrios, nem cabritismo.
É preciso levantar Angola da queda no desporto de mentira!
ARLINDO MACEDO

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