Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Liga?

30 de Novembro, 2016
O nosso futebol quer a Liga, está mais que evidente, porém, estarão os agentes da liga – os clubes – em condição de esclarecer a si mesmos as linhas com que se cose hoje o futebol no país?

A primeira impressão que os clubes dão sobre o tema liga, é que a liga os tornará mais fortes e auto-determinantes em relação à competição. Ora, tirando a controvérsia sobre o custeamento das arbitragens, que vantagens antevêem os emblemas na transferência da federação, para si, do controlo da sua competição? Antes de mais, a liga é uma autêntica desapropriação da federação em qualquer parte, pois, só diante da incompetência de algumas federações em reger a sua própria competição, é que se pede aos clubes ou dá-se-lhes a oportunidade de gerir a sua própria competição.

Ora, desde o dia em que os olheiros começaram a virar agentes, a representar os jogadores e a interferir inclusive no balneário, estava traçada a fórmula como os corpos exógenos haveriam de ditar os comportamentos contratuais; a liga não é diferente, é um agente ao fim e ao cabo das federações ali onde a incapacidade delas representa um atraso de vida para o apetite financeiro que persegue a índole do agente. E em Angola não vai ser diferente.

A ideia da liga de futebol em Angola não chega precedida da insatisfação com a competição organizada pela federação, pois seria como se esta e os clubes não dialogassem nem trocassem ideias para melhorar o seu foro, nem pudessem livrar-se dos maus dirigentes nas federações, através de eleições. A ideia da liga é, antes de mais, o reconhecimento do fracasso organizativo do dirigismo do futebol.

A análise já seria outra se, “mutatis mutandis”, isto é mudando com a mudança, fossem os clubes também remetidos para sociedades anónimas desportivas, ou sejam as chamadas SAD. Mas os clubes, isto não querem por enquanto. Do mesmo modo que não querem dar ao atleta um estatuto de direitos e deveres recíprocos que admita o direito de greve, por exemplo, ou os direitos de imagem do jogador. E isto seria sómente a ponta de um mercantilismo - mais do que mercado, do futebol rebaixado à pior espécie, dado que a liga e a SAD e o agente são forças de um mesmo capitalismo oportunista e extremamente liberal, que quer tomar posse do mercado do futebol perante a apatia e a falta de evolução profissional das federações.

Quando a se constituir em Angola, veremos em que medida a liga vai estar disposta a partilhar receitas e direitos de imagem, de transmissão e de marketing com os clubes seus constituintes; e depois, como estes haverão de reverter uma parte das vantagens para os atletas, partindo da ideia de lhes dar mais direitos em comparação à pesada lista de deveres que sempre tiveram e sem grande vantagem, para além do salário e quando pago. Isto vem não só questionar a forma de partilha dos benefícios gerados pela liga, mas também implicar que, em igualdade de circunstâncias, será a federação quem há-de perder mais recursos dos patrocinadores, com a liga.

E tem sido a partir de todo esse apetite pela posse da liga e oportunidade de mercado, mais do que pelos benefícios do futebol, que iremos observar a próxima correria, inclusivé envolvendo estrangeiros, pela formação da liga. E se, a exemplo de outras situações de elegibilidade, houver uma politização do assunto da liga, então pior, e serão os mesmos de sempre a dominar a liga, tal como antes dominavam a federação e a competição. Não creio que, nesta conversa se esteja a prometer aos clubes fora do grupo dos Seis, algo realmente valioso.

Mais do que para os clubes, os sinais de parto precoce da liga representam um alerta para a associação de jogadores, visto os mesmos continuarem amadores semi-profissonais meio sem eira nem beira, que o sistema desportivo outrora mais socializante deixou órfãos no dia em que o estado se afastou do fomento e se limitou a passar a dar os duodécimos para subsidiar o desporto, claro, para além das despesas com selecções e competições.

Há por enquanto na conversa da liga, mais de negócio, que de futebol; os números que podem ser grandes e que poderiam ser do futebol e da federação, correm doravante o risco de ir parar a empresários que farão do futebol um negócio que não querem dividir bem repartido com os demais. Por esta razão, antes da liga surgir convém que o seu tema seja amplamente discutido por todos – entenda-se todas as Partes – antes das contas começarem a ser feitas apenas entre a gente graúda da família e seus parceiros armados em agentes de oportunidades que só eles vêem, mas que liminarmente se vão recusar a partilhar igualitariamente.

Portanto, um outro negócio do futebol! Ou negociata, dependerá dos clubes e dos números. Mas, dizer-se que Moçambique já tem liga desde 2005 não serve de referencia, ou perguntarei se haverá liga no Brasil? E na Nigéria? E no Irão? Estamos a falar de quê, de países cujas federações foram engolidas pelo marketing do seu desporto, ou de querer imitar ligas por haver ligas?

Até hoje só percebi o problema de pagamento das arbitragens porque, antes, primeiro havia entendido como os clubes são sugados pelo próprio processo da sua (má) administração, pois, não existe presentemente muita referência sobre processos de gestão em que realmente o gestor esteja ali por puro profissionalismo, mas por interesse pessoal e habitualmente interesse material. Ora, uma liga não resulta contra este tipo de mentalidade, que não vai mudar por ter passado a haver liga.

A federação já é a liga dos clubes, partindo das APF (associações provinciais de futebol)! A questão não é, portanto, a de imitar por imitar, mas a de fazer o que se compele fazer. E se assim fosse feito, nem as arbitragens seriam caras, nem caros ficariam os árbitros. Portanto, há muito fumo sobre o tema e pouca clareza sobre os passos do embrião da liga de futebol em Angola. Fala-se, pessoas houve que se mexeram bem antes, vindas até de fora, mas parecia ter havido novamente algum bom sendo e silêncio sobre o tema. Mas durou pouco.

Ou seja, enquanto os visionários querem uma liga a todo o custo, o futebol deve ficar consciente de que não vai melhorar se o veio dessa evolução que trouxe o tema da liga não for o mesmo veio que fará evoluir os clubes, melhorar o seu paradigma e a sua organização para poder fazer o profissionalismo como deve ser, com uma relação clube-atleta menos arcaica - esta sim um tema prioritário, mais do que discutir sem ser com objectividade, se quem organiza melhor um campeonato é a federação ou será a liga.

ARLINDO MACEDO

Últimas Opinies

  • 19 de Agosto, 2019

    Como causar impacto atravs do marketing?

    De facto, para que se crie um impacto forte e eficaz através do marketing desportivo, é indispensável que os clubes e federações deem atenção ao formato comunicativo a ser utilizado.

    Ler mais »

  • 19 de Agosto, 2019

    Petro escorregou Vasiljevic j era

    O grande Petro já  atemoriza os seus adeptos em poder continuar a fazer travessia no deserto neste seu “hibernar” sem título desde 2009: empatou mesmo depois de o presidente.

    Ler mais »

  • 19 de Agosto, 2019

    Cartas dos Leitores

    Penso, que não há  muitas alterações  em relação aos candidatos, o 1º de Agosto procura o Penta e o Petro luta para quebrar o jejum de 10 anos, sem conquistar o campeonato.

    Ler mais »

  • 19 de Agosto, 2019

    Girabola de todos

    Soltaram-se assobios, no último fim-de-semana. Voltou aos palcos nacionais, o futebol de primeira grandeza. Ou seja, o campeonato nacional da primeira divisão, o nosso Girabola.

    Ler mais »

  • 19 de Agosto, 2019

    O segundo pecado da FAF

    A direcção de Artur Almeida e Silva acaba de cometer o segundo pecado, na gestão dos destinos da Federação Angolana de Futebol(FAF). O primeiro, assenta na desorganização que já a caracteriza.

    Ler mais »

Ver todas »