Jornal dos Desportos

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Opinio

Liga de futebol, "parto" ou"aborto"?

20 de Maio, 2019
A sabedoria popular é fértil em expressões, que nos apelam à cautela, principalmente quando queremos empreender por projectos que tem de se adequar e se ajustar ao momento e ao contexto em que estamos inseridos, com noção plena de onde saímos (passado), onde estamos (presente), e visão assertiva para onde queremos chegar (futuro), tais como: \"devagar se vai longe; \"a pressa é inimiga da perfeição\"; \"não se deve marcar passos maiores do que a perna\"; \"o apressado come cru\"; \"Roma e Pavia não se fizeram num dia\"; \"grão a grão a galinha enche o papo\"; \"a pressa só é útil para apanhar moscas\".
Se tudo isto não bastar, talvez sirva o \"malembe, malembe\".
Esta introdução, que se diga pouco peculiar, no artigo de hoje, que em muito difere da série de artigos que semanalmente escrevo para este jornal, vem a propósito de um anúncio feito, bem no final do ano passado, pelo actual presidente da FAF, Artur Almeida e Silva, que chegou a afirmar em alto e bom som, uma novidade, que (in) felizmente há muito deixou de ser uma promessa, na qual passo a transcrever textualmente no parágrafo que segue.
\"Vamos até 2020 criar uma liga profissional, mas para isso precisamos de ter quadros capazes de responder às exigências. O desafio é grande, mas estamos determinados a levá-lo a bom porto\".
Em seguida, e paradoxalmente, não me perguntem por favor sei foi por ingenuidade ou uma questão de muita lábia, Artur Almeida ousou contradizer-se afirmando que para atingir tal desiderato (passo novamente a transcrever textualmente as suas palavras) \"temos vindo a trabalhar já algum tempo na implementação deste programa, no sentido de trazer a realidade europeia e não só para o futebol nacional, daí a nossa estratégia em procurar evoluir a modalidade e profissionalizar um pouco mais as estruturas que superintendem o futebol. Falo dos clubes, das associações provinciais e da própria federação. Há que levar a cabo um crivo entre aqueles que andaram a fazer futebol amador e aqueles que irão fazer futebol profissional\", sentenciou.
Nas entrelinhas já dá para concluir, que se Artur Almeida e Silva teimar em avançar com essa odisseia, aprazada para 2020, irá \"empurrar a mesma com a barriga\", porque que mais do que uma batata quente, Artur Almeida e Silva se propôs para uma tarefa e tanto, quando o actual molde de disputa do Girabola já não anda mas se arrasta, o que me leva a crer que até 2022,a questão da liga deverá ser vista como uma estratégia ou táctica eleitoralista, e não como um processo que nem sequer tem as bases criadas e tão pouco objectivos concretos conhecidos.
Penso ter razão, mas acredito que não estarei errado! Só para lembrar que em 2020, Artur Almeida e Silva termina o seu mandato no cadeirão máximo da FAF, e certamente procurará buscar a sua reeleição!
Mas, sinceramente! Reduzir a criação de uma liga profissional de futebol, um processo de transformação complexo que há muito se exige para o futebol nacional, como se um trunfo de Às se tratasse para jogar uma decisiva cartada eleitoral é, no mínimo, um simplismo perigoso.
Ninguém tem dúvidas de que é por esse caminho que o futebol nacional deve trilhar, para definitivamente nos podermos soltar das amarras do falso profissionalismo, revestido de verdadeiro amadorismo, que ainda grassa no nosso mosaico futebolístico.
Mas isso exige um conhecimento profundo da nossa realidade, das nossas forças e capacidades e também das nossas fragilidades.
Fazer esse caminho exige conhecimento da nossa história, da nossa matriz e identidade futebolística, que ao longo destes cerca de 44 anos de Nação independente, para o bem e para o mal, \"mamou e bebochou nas tetas\" do Estado.
Fazer o caminho que num futuro próximo nos levará a tão almejada liga profissional de futebol impõe a consciência de que não se mudam da noite para o dia 44 anos de uma cultura futebolística, totalmente arranhada pela política, e que ao longo dos anos, se acostumou a viver num mundo onde o não cumprimento das obrigações e o acumular avultado de dívidas virou, para muitos, sinónimo de gestão eficaz e vencedora!
Reconhecer isso não é apenas uma questão de vontade, é também uma questão de bom senso. É uma questão de humildade.
Sim! Fazer o caminho que nos levará a concretização liga profissional de futebol caminho impõe humildade para reconhecermos que somos inexperientes em relação à matéria e que precisamos falar baixo, menos e pouco, e estudar e aprender mais e melhor.
De resto, tal como muitos aficionados do desporto-rei neste país, continuo com bastante expectativa, mas também com receios e incompreensões, que, aliás, apelam para um trabalho profundo de observação, análise, comparações, e uma metodologia baseada e desenhada com metas e prazos realísticos, gerida por pessoas comprometidas e sérias.
Fazer a transformação que queremos ver no topo da pirâmide do futebol nacional, implica termos noção da imensidão dos desafios. Implica compreendermos que direcção e velocidade são coisas diferentes, que mais importante do que a cadência dos passos que pretendemos dar é a segurança de que os marcamos na direcção correcta. Creio que não preciso dizer mais nada.
*Mentor e Gestor Executivo do Fórum Marketing Desportivo

Zongo Bernardo dos Santos

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