Jornal dos Desportos

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Opinio

Lowe como Bianchi e o risco da gravidez interrompida

05 de Julho, 2017
Não devia falar de futebol, mas… ainda não estou em funções que mo ‘impeçam’. Os alemães vão ascender ao topo do ranking FIFA a rir-se do mundo. Também os Brasileiros, considerados longamente os donos da bola, riam-se quando enfrentavam o Japão a princípio, porém, em 2010 venceram a Coreia do Norte por apenas 2 a 1 na Copa FIFA da África do Sul, ao mesmo tempo que as suas equipas femininas jovens já frequentam as semifinais e finais dos torneios planetários da federação internacional de futebol.

Ora isto não é mais do que o prémio do método e da perseverança, duas doses diárias de cada uma das coisas-pilar que se tem que implementar no trabalho – e a maioria vai dizer que trabalha com método, claro, mas sem vermos ainda os seus resultados – e que nada tem a ver com dinheiro, coisas com que em Angola se costuma pretender justificar quase sempre o insucesso, o ficar-se aquém das expectativas e o fracasso.

Ninguém dá a mão à palmatória e aceita que ainda nos falta, ou costuma falhar, o método e a perseverança, coisas que requerem força de vontade, compromisso, ou até empreendedorismo, e daí andarmos muito a viver de ilusões e reiteradas repetições de fracassos anunciados sob palavras renovadas de ideias cheias de mofo, falta de visão, apriorismos e metafísica relacionados com certas figuras que mandam no desporto de uma forma extremamente criticável, mas que nos argumentam terem sido democraticamente eleitos.

Claro, democraticamente eleitos e respeitados por maiores erros que cometam, e não seriam os primeiros a conseguir ser reeleitos mesmo assim, pois o desânimo e a descrença fizeram partir vontades com que ontem se ombreava, mas que hoje se desgastaram andando metidos nesses processos de gestão desportiva falidos.

E é através de processos de gestão acertados, mas primeiramente de uma visão bem ajustada, que o desporto alemão, mas aqui e concretamente o futebol, revolucionou as suas bases antes um pouco mais atléticas, do que técnicas; quando em 1998 na Copa FIFA da França, a Alemanha ‘consentiu’ um empate à Roménia, a seguir caíram lá pelo país o Carmo e a Trindade, que é como dizer quase vir tudo abaixo.

Então e antes de mais há um orgulho nacional de povo que fez dos piores disparates da história da humanidade, mas que se redimiu e auto-infligiu aprender essa lição. Sem perder o orgulho nacional deram a mão à palmatória e nas calmas reconquistaram-nos admiração pela sóbria beleza do futebol com que se tornaram donos da bola do mundo, fazendo precisamente da bola a montra da revolução social.

Exactamente 30 anos depois daquela última grande guerra que perderam, sagravam-se já campeões do Mundo. Portanto, o ‘empate romeno’ voltaria a ser motive para desenvadear outra modernização do futebol alemão, a qual foi iniciada em 2000 e já faria dele novamente campeão, em 2006. E a partir daí não pararam de somar, tendo sabido conservar a lição aprendida.

O inverso somos nós. Escusado entrar em detalhes. Apenas carrego a intriga de que evento e resultado será preciso esperarmos para ver o país inteiro adoptar um política do futebol, já que meio país até se mete no avião par ir à ‘Luz‘ ou ‘Dinamarca’ ver jogar futebol de primeiro mundo, sem se importar tanto com a água do futebol da sua própria terra e povo, sinal de que o futebol endossa paixão e move, até, os nossos milhões. Mas não tanto para a nossa horta, como seria preferível.

Ora, os melhores milhões sempre serão gastos connosco mesmo, ou seja em nosso proveito. E seria muito bom se tal generosidade constituísse uma parte da nossa tacada e corte em carrinho a estes lances fora-de-jogo dos nossos pilares sociais e amantes do futebol consoante o dia, ao jogo e a tribuna. Um futebol tratado de forma continuada e sem etapas mais episódicas que outras, nem deliberações colectivas feitas necessariamente em sentadas familiares, nem em conferências dispendiosas quando repetitivas, primeiro em 2003, depois em 2015, repletas de réplicas e falas, mas seguidas de inacção. Ou seja, sem o edifício do futebol passar do papel.

Assim desprovidos de vontade e de querer firme e inabalável, os Angolanos demoram a absorver e principalmente a cultivar as boas experiências desportivas que, entretanto e aparentemente por feliz acaso, já tiveram. E acasos só revelam inconsistência; quer a Alemanha, como o Japão, ou mesmo a nossa aliada Coreia do Norte, sobretudo esta cujo líder não admitia conseguir lançar mísseis, mas não ganhar em futebol, deram-nos e decerto vão continuar a dar lições que até dispensam tradução.

E são estas considerações que me levaram a este enaltecimento.A Alemanha acaba de sagrar-se campeã da Copa FIFA das Confederações após ter ganho antes o ‘Europeu de Sub-21’; para quem foi à Espanha copiar a evolução do futebol, sabendo que os latinos se esmeram com as suas ‘canteras’ de clubes, resulta fenomenal os Alemães terem derrotado os Espanhóis nas final de Sub-21.

Este triunfo sela bem uma ideia concreta superioridade actual do futebol alemão na Europa e no Mundo. Pelo menos concorda comigo o meu amigo e colega nigeriano, Kunle Solaja, de quem vou com a devida vénia, extrair umas passagens que nos vestem sem ser preciso mudar a conta, o peso e a medida.

Um dos principais destaques da Copa das Confederações para nós foi o comparativo entre a Alemanha e os Camarões. O que chamou a atenção não é o facto de que os próximos oponentes da Nigéria, Camarões, só conseguiram obter um ponto em nove possíveis.“É a estabilidade que o futebol alemão desfruta’’, diz esse amigo, editor do blog ‘Sports Village Square’, que recorda que, em 117 anos, o órgão de governo do futebol alemão teve apenas 13 presidentes.

Quando a Alemanha enfrentou os Camarões há dois domingos atrás, esse o 150º jogo sob o comando de Joachim Löwe. Ele esteva no banco desde 12 de Julho de 2006, quando o seu ‘team líder’, Jürgen Klinsmann, trocou o ‘banco’ da Alemanha pelo dos Estados Unidos da América.
E nesse domingo, Löwe também obteve a sua 100ª vitória como ‘gerente’ do lado alemão. Em comparação, o belga Hugo Broos, que lidera agora a selecção dos Camarões, é já o 12º seleccionador dos ‘Leões Indomáveis’ desde 2006.

O caso da Nigéria não é melhor, revela a investigação do ‘Village Sports Village’. Gernot Rohr é o nono treinador para lidar com as ‘Super Águias’ desde 2006. Mesmo assim, alguns desses treinadores tinham dois ou três períodos de curto prazo à frente da selecção.Isso equivale a um sonho demasiado alto se pensar que um treinador que lidere a Nigéria ou uma equipe africana terá 150 jogos, como Joachim Löwe teve com a Alemanha. O treinador com o maior número de jogos com a selecção nigeriana foi Amodu Shaibu, que teve 53 jogos em quatro ocasiões em que for a nomeado seleccionador.

Ele tem apenas um jogo a mais do que Clemens Westerhof, que dirigiu as ‘Super ‘Águias’ em 52 partidas entre 1989 a 1994. As mesmas estatísticas abundam em várias equipes nacionais africanas. Desde 2006, o Gana teve nove seleccionadores, enquanto a África do Sul teria tido 10 ‘managers’. Mas não vou contar quantos Angola teve, pois estas são das tais estatísticas desonrosas.

“É quase certo que quando a cortina cair sobre as eliminatórias da Copa do Mundo FIFA da Rússia de 2018 em 6 de Novembro, pelo menos metade dos 20 treinadores que lidam com as selecções que estão actualmente na corrida perderão os seus empregos.Certamente, se Joachim Löwe, da Alemanha, fizesse uma ‘perninha’ por África, já teria sido demitido várias vezes.

Assim, apenas mercenários ‘treinadores europeus’ se aventuram em África. Ninguém será suficientemente paciente para deixar você respirar a sua filosofia de futebol em uma equipa. Quando você perder uma partida, o seu trabalho já vai estar em causa.Aqui em casa, o brasileiro Beto Bianchi é o próximo de uma lista que corre sempre esse risco. Mas ninguém analisa a fundo, de preferência científica, sociológica e politicamente, porque o nosso futebol é o que é; ou porque o nosso andebol e basquetebol produzem resultados à priori superiores.

Então é preciso tirar o futebol da sua falta de pressupostos e são estes, que mais falta nos fazem agora. Se Beto Bianchi parar, apenas estará sendo sacrificado para outro virse sacrificar depois no seu lugar. Beto ou Bianchi, sempre serão carne para canhão num cargo obliterado por demasiada intromissão e politiquices no futebol.

E sem pressupostos, nem estabilidade e perseverança, chegaremos a nenhum lugar mais uma vez.O técnico brasileiro dos ‘Palancas Negras’ recordo bem ter dito que ia rodar a equipa na COSAFA, pois isso teve o resultado que teve, mas não passou de rodagem; só da próxima vez, após esta rodagem, haverá mais certezas do treinador, mais rotinas assimiladas, mais conhecimento recíproco e intrínseco nos processos da assimilação, repetição e aperfeiçoamento.

Entretanto, é preciso continuar a buscar por jovens ainda, e mais promissores em estatura e peso para posições estratégicas, como os centrais, até mesmo o guarda-redes, ou um dito número 9, que são ‘biótipos’ que pouco nos oferecem nascituros como o futebol te e outrora em Domingos Inguila, Lutucuta ou Pedro Garcia, por esta ordem apenas alfabética.

Portanto, existe um complexo de políticas, entre estudantis e desportivas, que é preciso saber articular, antes de nos permitirmos começar a ter as coisas mais bem recheadas de base, esperando naturalmente o melhor do viveiro do desporto, se, entretanto, a rega metódica não falhar.
É que esta metodologia à maneira dos conselhos da avó sempre foi boa conselheira e se assim for feito um dia, mas transversalmente, esse mesmo complexo de políticas vai engravidar como deve ser e todos estarão orgulhosos de serem o pai da criança.
Arlindo Macedo

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