Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Luz no fundo do tnel

03 de Abril, 2015
Divisa-se no fundo do túnel uma luz que infunde alguma crença de que a coisa é séria, movimentando os homens do futebol que se esmeram na criação de condições objectivas e subjectivas para a sua efectivação.

O dia de ontem foi marcado por um encontro que teve como pano de fundo a apresentação do projecto da Conferência Nacional agendada, à partida, para a primeira quinzena do próximo mês de Junho. Na verdade, trata-se de um passo firme e virtuoso, que espelha preocupação e, em última instância, interesse dos fazedores do desporto nacional em verem o futebol trilhar o rumo certo nos próximos tempos.

De resto,a conferência assume carácter importante, já que é com a soma de ideia e bem estruturadas que se pode chegar a uma plataforma de entendimento capaz de delimitar as metas que a modalidade precisa de atingir. Para tanto, é importante que a concepção da agenda de trabalhos não se restrinja a pessoas que vivem dentro da modalidade.

Há que se demarcar do modelo de assembleias magnas da FAF, onde, como é sabido, só agentes do futebol participam. Espera-se que na anunciada Conferência Nacional o cordão seja mais alargado, de modo a que outras sensibilidades possam prestar o seu contributo. Portanto, a designação “Conferência Nacional sobre futebol” não deve pressupor que nela só homens do futebol devem ser tidos e achados.

É preciso não perder de vista que a modalidade resvala para um precipício em que a salvação deixou de depender apenas e unicamente dos seus agentes. Homens do basquetebol, andebol, ténis, xadrez, ginástica e até o público consumidor podem ter ideias sólidas e prestarem um válido contributo à elaboração da agenda de trabalho.

Ao longo dos 40 anos de independência, que assinalamos este ano, não lembra a Nemória ter havido uma Conferência nacional sobre uma outra modalidade desportiva. Se o futebol obrigou a isso, não é pela sua condição de "desporto-rei", é porque a sua saúde requer um SOS. Atrevo-me a dizer que se está à beira do holocausto. Os resultados mal conseguidos já não reflectem apenas imaturidade competitiva, remetem-nos para uma outra realidade. Destapam uma crise disfarçada.

Os últimos resultados competitivos, referindo-se particularmente à Selecção Nacional, não têm sido abonatórios. A última prestação bem conseguida data de 2008 no Gana, quando pela primeira vez num campeonato africano os Palancas Negras conseguirem passar para os quartos-de-final. A colheita voltou a repetir-se dois anos depois em Luanda. Mas ainda assim, via-se que em termos de entrega e ousadia já se estava alguns furos abaixo.

É preciso que os delegados ao encontro amadureçam ideias e na hora do debate possam apresentar propostas concretas e realistas.

Pois, se alguém pensou na realização deste conclave é porque achou que os seus subsídios podem não bastar para tanto, e que convinha também ouvir outras sensibilidades, para obter um pensamento colectivo, que sirva como directriz à revitalização da modalidade.

Que urge salvar o futebol do actual marasmo em que se acha hoje, lá isto urge. Aqui fala-se da Selecção Nacional como se pode falar dos clubes, onde também deixou de haver trabalho de fomento assente em sólidas estratégias políticas, voltadas para o futuro. Porque a Selecção Nacional, vistas as coisas numa perspectiva mais pedagógica, não é senão reflexo do que são os clubes.

Por tudo isso, insta-me a consciência a apelar para o encorajamento do encontro, na esperança de que o mesmo atinja os resultados pretendidos, e que nele se encontre o antídoto para a crise, de modo que a médio ou curto prazo o nosso futebol volte a explodir e seja capaz de fazer os angolanos sorrir em vez de lhes proporcionar constantes frustrações.
Matias Adriano

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