Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Mais olhos do que barriga

08 de Dezembro, 2016
O dia a dia da vida ensinou-me a não ter mais olhos do que barriga! A não pretender aquilo que o meu bolso não é capaz de suportar. Se me apetecer uma boa garoupa ou uma boa picanha grelhada e as minhas finanças não chegam, a opção passa por comprar um carapau, ou em alternativa, uma boa lambula, ou ainda, grelhar um bocado de pojadouro.

Por mais ambições que tenha, tudo depende da componente financeira. E, agora que a crise chegou a todos os lares, pior ainda. Tenho de saber racionalizar tudo, para não ter desilusões. Infelizmente, no nosso desporto, isso, não acontece. Muitos dos nossos dirigentes na tentativa de aparecerem, cometem erros que acabam por prejudicar os clubes que dirigem.

Um exemplo concreto é o que pode vir a acontecer à equipa Santa Rita de Cássia FC do Uíge, recém -promovida à alta-roda do futebol nacional. Sem pergaminhos na estrutura do futebol nacional, o seu presidente pretende um técnico estrangeiro, o brasileiro Roberto do Carmo, “Robertinho”, que na temporada passada dirigiu o ASA, mas acabou por ser despedido.

Pergunto: tem a equipa do Uíge capacidade financeira para suportar tão alto investimento? Tem a equipa estrutura organizacional e meios, para colocar à disposição do técnico brasileiro? Não estou por dentro da realidade infra-estrutural e financeira do clube, mas arrogo-me a dizer que a equipa do Uíge não tem argumentos para contratar um técnico estrangeiro. O dinheiro a gastar pode servir para melhorar a sua infra-estrutura. É o mesmo que dizer que o seu presidente tem mais olhos do que barriga. Esta, é a pura verdade. Não tenhamos ilusões.

Os nossos dirigentes devem conhecer a realidade do país. Há vários exemplos que o senhor Nzolani Pedro devia seguir. Vou dar-lhe um, dos muitos que já aconteceram ao longo do Girabola. Na temporada passada, o Porcelana FC do Cuanza Norte regressou ao Girabola pela mão do técnico angolano Sarmento Seke. Os seus dirigentes, talvez com a ânsia de aparecerem, foram buscar o brasileiro Luís Mariano a quem entregaram o comando da equipa, em detrimento daquele que com sacrifício recolocou a equipa na elite do futebol nacional.

Qual foi o resultado? Penso que o presidente do Santa Rita de Cássia sabe perfeitamente o que aconteceu. Se não sabe, vou recordar-lhe. O Porcelana regressou à Segundona. Isto é, voltou à procedência, à segunda divisão. Luís Mariano foi despedido antes do seu contrato chegar ao fim. E, pelos vistos, com os bolsos abastados (!), fruto da “chicotada” por que o contrato expirava no final da época, e como mandam os acordos firmados, dá direito à indemnização.

Não sou adivinho, mas o Santa Rita pode conhecer o mesmo caminho do Porcelana. Ao mandar embora o técnico que fez o “milagre” de colocar, pela primeira vez, a equipa na alta -roda do futebol nacional, a direcção presidida por Nzolani Pedro não reconheceu a competência do técnico nacional, independentemente das causas, que motivaram a não renovação do contrato laboral. Só vamos ter alguma credibilidade aos olhos de todos quantos nos rodeiam, quando nós próprios tornarmos claro que também podemos colocar em prática o que exigimos.

O dirigente desportivo está investido de função e desempenha um mandato. A função é de carácter múltiplo, não determina em termos automáticos, o aparecimento de qualquer direito. Define, antes de tudo, um conjunto de obrigações. Pergunto: Nzolani Pedro, ao não dar a oportunidade ao técnico Saraiva de comandar a equipa no seu primeiro ano no Girabola e contratar o brasileiro “Robertinho” teve o apoio dos demais dirigentes do clube?

É evidente que existe um mandato, por isso, há juridicamente atribuições aceites pelo dirigente. Estas atribuições não deixam de assumir um carácter contratual que integrem uma responsabilização, aliás, por ele assumido ao apresentar à assembleia que o elegeu de forma explícita ou implícita, “o programa” de acção que se propõe colocar em prática. Isto para dizer, que os demais dirigentes do clube do Uíge devem estar de acordo com os propósitos delineados por Nzolani Pedro, para que no final do Girabola não haja decepções. Até para a semana.
Policarpo da Rosa

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