Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Marketing em Angola, gua dura em pedra mole?

04 de Fevereiro, 2019
Como o prezado leitor já deve ter percebido, inverti em sentidos opostos as palavras originais do conhecido adágio popular, que água mole em pedra dura bate, até que fura. É que no marketing desportivo até agora feito em Angola, os sentidos estão mesmo opostos. Lá mais para frente vou clarificar melhor esse aspecto.
Antes de tudo é preciso levar em conta que o conceito de marketing desportivo pode parecer muito claro para todos, mas ao mesmo tempo muito subjectivo para quantos percebem o seu vasto e cada vez mais especializado e abrangente glossário técnico e científico.
Mas o que não resta mesmo são dúvidas, que cada vez mais se vão dissipando sobre a utilidade e o crescimento do marketing desportivo para os próximos 5, 10, 50, 100 anos e por ai fora.
Mas como compreender um assunto tão abrangente e que está em permanente mutação quase que diariamente?
Será que uma acção de comunicação, por exemplo do departamento de marketing e comunicação da FAF, informando aos adeptos e amantes dos Palancas Negras sobre uma promoção para aquisição de bilhetes antes de um jogo oficial, deve ser tido e chamado de marketing desportivo?
Como devem ser elaboradas as melhores estratégias de marketing com o objectivo de atrair patrocinadores e parceiros, num caso e noutro criar relacionamentos afectivos e emotivos com sócios, adeptos e simpatizantes de um clube ou de uma selecção nacional?
Será que a identidade visual de um clube ou de uma selecção deve ser estática ou deve estar em permanente actualização, sendo regularmente fortalecida, adaptando-se e ajustando-se ao contexto do mercado em que está inserido ao ponto de gerar empatia e atracção, passando a ser considerada para o efeito uma referência, uma imagem de marca pelos players e stakeholders ligados ao marketing?
O desporto praticado hoje em escala mundial, tem sido absorvido por elementos e ferramentas fundamentais, como o marketing, o planeamento estratégico e a gestão, que por si só, lhe dão o necessário desenvolvimento e a tão almejada auto-sustentabilidade financeira.
Por esta razão é que um número cada vez mais crescente de investidores e empresários em todo mundo apostam no desporto não como uma causa social, mas como uma plataforma de negócios.
O que nós em Angola deveríamos começar a fazer ontem e não esperar para amanhã é associar o desporto a processos e princípios de marketing, proporcionado por via da mesma afirmação das marcas desportivas nacionais e criação de um elo emocional e de fidelização tão fortes com os consumidores em massa, facto que de outra forma seria difícil conseguir. Por meio do marketing ligado ao desporto, os players directos e indirectos do mercado desportivo podem conhecer e lidar com consumidores de qualquer segmento de mercado, seja das telecomunicações, banca, seguros, grande distribuição, retalho, bebidas e tantos outros, em tempo real e de maneira simultânea proporcionando aos respectivos consumidores experiências únicas e inesquecíveis de emoção, satisfação e de consumo.
Numa fase de mudanças em Angola, em que o Executivo liderado por João Lourenço, apoiado e sustentado pelo glorioso MPLA, procuram “fazer a curva apertada”, sem contudo “perder o controlo do volante” devido aos constrangimentos e desequilíbrios financeiras que condicionam socialmente vários sectores da vida do país, continua a ser normal ver empresas com envelopes de dinheiro fechando patrocínio com clubes e federações, sem que os seus departamentos de marketing apresentem uma contrapartida viável em termos de planeamento estratégico e retorno para o investimento feito.
Embora comece a existir uma maior conscientização dos patrocinadores na utilização das ferramentas de marketing desportivo, a realidade é que este importante instrumento, continua a ser utilizado de forma amadora pelos directores e responsáveis de marketing das agremiações desportivas, que preferem continuar a atirar o dinheiro recebido dos patrocinadores por cima e por baixo dos problemas.
Infelizmente em Angola um dos aspectos negligenciado de uma maneira geral, seja nos clubes ou federações desportivas com departamentos de marketing em pleno funcionamento, cujos funcionários ganham salários proveniente dos contribuintes é a construção ou valorização de uma cultura organizacional que identifique o clube com os seus jogadores, colaboradores, sócios e adeptos, criando uma identidade clara e definida, sem descurar a implantação de processos administrativos e governança compatíveis aos utilizados por empresas de sucesso do sector empresarial privado.
Quando um gestor de marketing desportivo contribui 30 dias por mês, 7 dias por semana e 24 horas por dia, pensando e gizando maneiras eficazes e eficientes de estrategicamente “vender” a imagem ou os principais activos do clube ou federação onde está profissionalmente vinculado, tal desiderato pode contribuir para a melhoria na construção da identidade do clube, melhorando consequentemente o posicionamento de sua marca no mercado, dando uma larga margem para obter equilíbrios nos três principais pilares da gestão desportiva, nomeadamente: o económico, o financeiro e o desportivo.
ZONGO FERNANDO DOS SANTOS *
*Mentor e Gestor Executivo
do Fórum Marketing Desportivo

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