Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Maurcias no para todos

19 de Julho, 2017
A vitória dos Palancas Negras com olhos postos no CHAN é um alívio nacional e nas cordas que atam ainda o nosso futebol a essa preocupação premente herdada, quem tem passado dos limites programáticos. Com efeito, quanto mais as aspirações do Futebol angolano – e do país inteiro atrás dele – em concentrar todos meios para conseguir estar nessa fase final, mais as atenções nacionais hão-de sobrepôr o futebol ao resto do desporto. E fruto disso há-de se dissipar os indícios que havia de se estar a dar as oportunidades precisas ao futebol jovem.

Mas se esse for o problema, tal não será apenas do futebol jovem, mas de todo o desporto jovem em geral, pois, o saco que alimenta o desporto é apenas um, e creio que o mesmo. Assim e sempre a adiarmos o começar a criar-se raízes e formar desportivamente a sério os mais jovens, lá teremos que andar todos os anos buscando desesperadamente jovens talentos que nunca nos pomos sistematicamente em posição de largada para tratarmos disso transversalmente no desporto nacional.

E, por favor, não me venham mais com a lenga-lenga de que há um projecto para isso desde a conferência sem efeitos de 2013. E tão pouco sequer avançou algum protocolo saído dessa, e desde isso, elaborado entre os ministérios do desporto e da educação. E sem protocolo não haverá ainda calendário de qualquer passo em frente na direcção das conclusões daquele conclave tão engalanado para refazer algo que nós mesmos havíamos destruído após vinte e poucos anos de independência e experiência.

O futebol ainda causa umas assimetrias à gestão desportiva em virtude de catalizar todas as atenções e na presente situação do país, tal ameaça o pão de outras modalidades também de ponta do desporto nacional, como o basquetebol, ou ainda assim o andebol, depois que este teve uma engenharia de dar regalos de dois jogos seguidos com as campeãs do mundo e só para treinarem, o que se passou lá fora e sem arrepios de caminho das atletas a pretexto da magreza actual da situação financeira.

Se por um lado aquele ‘feito’ de gestão da federação de andebol, ou do seu presidente, resultou em também um chapadão bem dado mesmo sem luva aos careiros do costume no desporto nacional, por outro lado isso acendeu uma ‘luz’ no fundo do nosso túnel de falências, mostrando que candeia que vai na frente alumia duas vezes – copiar isso não seria batota – e que, sim, é possível desonerar missões sem a necessidade de também repetirmos aqui em casa ‘yes, we can’. Claro, que podemos e são pequenos indícios que nos mostram a diferença da postura, da vontade, do compromisso, na gestão da coisa desportiva e especialmente em etapa de vacas magras.

Mas também não é para se ir de 8 até 80; se atletas perdoam a parcialidade dos subsídios, já trabalhadores não se podem dar ao luxo de perdoar parte do salário ao empregador e é o caso também imaginativo da federação de futebol, cujo presidente não pensou duas vezes e meteu as mãos no próprio bolso para desencalhar situações. Este é outro exemplo de postura apostada em contornar problemas e fazer das tripas, coração, certo de que em melhor altura se podem fazer encontros de contas e reembolsar gestos que salvam vidas. Entenda-se vida desportiva das equipas, neste caso selecções nacionais. É que algumas selecções morrem mesmo, depois renascem, mas entretanto passou-se …tanto tempo.

Ora, assim diferenciados uns e outros dirigentes pelo ‘empreendedorismo’ das suas ideias, lábias e até bolsos, vou até ao outro extremo da situação, que é ficar em terra. Sem competição.

E sem remédio para um ano mais que se desperdiça, o que é péssimo em fase de crescimento como é o caso fisiologicamente desportivo dos jovens da selecção de Sub-16 de basquetebol.

Não ir ao Afrobasket da categoria é um sinal de fraqueza e de pobreza ao mesmo tempo. É um facto que desportivamente se pode considerar um ‘crime’ de lesa-muita-coisa. Só que, neste caso, o presidente da federação não pôde mostrar aos seus colegas mais afamados, que ele também podia, e de resto, esta tinha que ser uma despesa de estado e em carteira, aliás, em caixa, mas que caiu em saco roto. As respostas nem devem vir apenas da federação, pois o ministério penso que ainda deve monitorar as representações desportivas do país. E as ausências também.

Realmente, Maurícias não foi para todos desta vez; se os ‘Palancas Negras’ lá estiveram, os ‘putos’ da bola-ao-cesto, não viram sequer as rodas no ar partindo de Luanda. Contudo, filhos do mesmo país, parte do mesmo movimento desportivo e dos mesmos direitos de participação e de subsídio do estado, foram tratados diferentemente e sem explicação, nem justificação plausível. Mas esta questão que levanto é porque será que presidentes de federações podem custear representações nacionais, despesas correntes e salários do próprio bolso, enquanto fundos que se esperavam de diversas fontes de receita do ministério nem são questionados como servindo para ‘reforço financeiro’ ao desporto.Eu admito que o Ministério da Juventude e Desporto, como unidade orçamentada que é, contenha originalmente na sua proposta orçamental as participações de Angola em competições para onde ficar apurada, porém estes sinais mais recentes mostram que tal não está a ser tão certo nem raso de se entender.Quanto renderão ao Estado os arrendamentos da Cidadela, da Casa do Desportista, da Piscina do Alvalade, assim como as contribuições do Fundo de Desenvolvimento Desportivo? Certamente aí não há receitas fantasmas, são mesmo receitas avulsas…

Deste modo as coisas colocam-se complicadamente porque o desporto nacional de rendimento tem estado a enveredar por um caminho quase de descaso e errático comparado com o que era imperativo trilhar, vistas as arrelias que se levantam e as expectativas que se quebram sem uma justificação sensata.

Não haverá vontade e empenho dos ‘operários desportivos’ que resista a tanta distorção do acerto no panorama desportivo graças a uma falta de espírito de diálogo e aberto, que em tempo oportuno prevalecesse ao reunir os protagonistas das maiores despesas do desporto nacional e concatenar quem seria quem, no meio de todas as participações aspirantes, para que algumas selecções sabendo-se descartadas nem perdessem tempo a concentrar-se e treinar para nem sair depois de terra, para o destino.

É mais um ano que se perde, praticamente; as rotinas competitivas são importantes para criar evoluções a vários níveis e dar resistência competitiva e ainda experiência internacional, já que é de pequenino que se torcem os pepinos.

De igual modo, no futebol, é imperativo que as selecções jovens recomecem a ter competição, a começar pela interna, mas que assegure aos mais jovens uma cadeia de oportunidades sem as quais os nossos Sub-17 ainda não terão em Sub-19 a evolução necessária. Recorde-se que Angola regressou este ano ao tradicional Torneio de Toulon, na França, que é uma passarela anual para selecções juniores, portanto de Sub-20, o que já é parte dessa dinâmica que infelizmente não se estende até aos juvenis de maneira consistente e anual, comprometendo os ciclos de desenvolvimento desportivo adquiridos em competição.

Assim visto e pensado, é crível que isto vai ser mesmo desportivamente difícil. Só que as dificuldades não são absolutas e o ‘feito’ das seniores de andebol provou isso. Absolutas poderão ser as incapacidades de alguns.

Vai ser precisa agora alguma conferência de doadores? Não creio, já que o ministério tem todas as ferramentas para desempanar em casa esta situação, a começar pelo desagravamento de custos, até para se treinar em recintos públicos agora sob gestão público-privada, mas cujas políticas não devem banquetear-se com os proveitos de gerir tais facilidades desportivas com um cunho tal comercial e de lucro, que comprometa a intenção original dada àqueles recintos, nem os seus novos gestores se acapararem de um investimento estatal com fundos públicos, para agora servir prioritariamente os interesses comerciais privados.

Sem uma sensibilidade necessária, nem já sequer um ‘pacto’ desportivo financeiro que proteja os atletas e equipas com ‘carteira internacional’ enquanto estes precisarem de treinar sem contudo termos devido usufruto de instalções desportivamente magníficas, mas inacessíveis para muitos. E quem se quer manter em forma precisa de descontos e incentivos para se manter em forma, não de portões fechados por falta de capacidade de pagar centenas e milhares de dólares em equivalência, para a utilização desses recintos.
A questão que se porá a seguir e ao basquetebol já não será o que fazer do resto da temporada da selecção de Sub-17 que ficou em terra, mas o que se estará a projectar para impender que também a selecção sénior masculina tenha dificuldades para sair de casa.

Feito já o sorteio do próximo Afrobasket seniores sendo consabido que a primeira nota saliente, antes ainda de se considerar os adversários e as possibilidades de Angola, será o esforço suplementar em bilhetes de passagem, lá deve a bola-ao-cesto estar de novo com o credo na boca.
É que a chave, este ano, leva-nos a disputar a primeira fase em Dakar, rumando em caso de apuramento para Tunis, a seguir. A isto se vai acrescer ainda o aumento da movimentação suscitada e consequente o aumento dessa factura em relação ao passado.

Ou talvez se opte por não fazer o estágio mais desejável, porém, nada como tempo para vir dizer o que vai ser mesmo. Acredito que, ainda assim, o ‘país desportivo’ não hesite em sacrificar o ‘Cinco’, mais que o ‘Onze’ nacional; só que a diferença será que enquanto o Afrobasquete nos poderia levar a um mundial, a seguir, já o CHAN vai levar-nos irremediavelmente de volta a casa, com ou sem a taça. Será que vai prevalecer o espírito da ‘dança de família’?

Tido e sabido que a selecção de basquetebol costuma reunir os maiores especialistas em subsídio diário de que há memória no país graças ao seu rol de episódios, ameaças e maletas-expresso levadas em mão e de urgência, então a gestão do seu pacote anuncia-se ainda mais periclitante de gerir em um tempo de crise.

Sublinhei isso porque a manter-se tal detractivamente para o desenvolvimento desportivo, o país devia até por força da crise, renegociar em tempo devido os incentivos para que nos desportos, uns não comam mais que outros, nem os seniores comam tudo sem deixar para os mais jovens.O ministério pode até dizer que não se intromete na gestão dos duodécimos pelas federações, mas deverá aquele ‘centro político’ arcar então com o peso de consciência por impassividade.

A premência disto é tanto maior quanto o atraso que se acumula a cada um destes revezes e ausências que sofrerem as selecções. E o derrame é tão largo quanto forem os desperdícios de iniciativas e oportunidades para endireitar as coisas e se aplicar contumazmente ao desporto, prescrições em relação ao desporto dos mais jovens, protegendo e garantindo os direitos de quem é o futuro garante do desporto sénior. Não se pode pensar que se vão naturalizar mais estrangeiros se faltarem nacionais de gabarito, pois estes criam-se e nós sabemos disso tal como sabíamos fazer jogadores desses.

Já ninguém duvida que Angola seria melhor desportivamente em tudo ou quase, se melhor fosse o seu desporto de formação. Fruto de talvez algumas cabeças mais tarimbadas para o risco e perseverança, do que outras, o andebol já está a dar frutos do viveiro, parte deles já a militar na selecção sénior feminina, e a consistência das selecções, com os rejuvenescimentos operados nas fileiras do ‘Sete’ feminino tem mostrado que se está a formar bem, a evoluir prometedoramente e a conferir que, cada vez mais longe e acima das outras, o andebol é a modalidade angolana ‘modelo’ dos últimos anos, com inclusivamente uma evolução no sector masculino acima dos melhores prognósticos feitos inicialmente.

Mas está, por demais, estampado que aqui em casa não gostamos de receber como bom exemplo, os exemplos bem sucedidos de outros que cá fazem desporto, também. No fundo, a classe desportiva é sempre mais unida contra os árbitros, do que é unida para partilhar ideias e experiências com sucesso. É mais ou menos como se no nosso deporto houvesse uma máxima segundo a qual ‘que não for da minha cabeça, não quero’. E tal é o problema de muitos, que não sabem fazer, nem copiar o que é bom.

E só isso pode explicar que os projectos e associações que não saem do mesmo patamar. E ainda, quantas vezes esses dirigentes deixam o lugar mais enterrado do que encontraram.

Seminários metodológicos fazem bem ao desporto, até porque os técnicos poucas oportunidade têm todos de sair e experimentar novos conhecimentos desportivos, mas já cá não está mais a Solidariedade Olímpica para se ocupar todos os anos da superação desportiva dos técnicos das modalidades. Se alguns treinadores ainda fazem das suas férias, estágios no exterior, outros há - e que são a maioria - que nunca viram um livro científico do treino para futebol, por exemplo, nem o seu presidente lho oferece quando regressa de férias, congressos e vaidades.

É preciso as classes desportivas conviverem mais e trocar ideias que tragam ao seu trabalho e ao jogo mais conhecimento, qualidade e desempenho. Ou será que também seriam precisas verbas para os treinadores se sentarem e falarem entre si, coloquiarem e produzir ‘luz’ como uma classe unida?

Pois, é como disse e repito: Maurícias não é para todos. Nem cargos directivos o são, para gente sem visão. No desporto e em toda a parte.
Arlindo Macedo

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