Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Meu pensamento clnicosobre a gesto desportiva em Angola.

15 de Janeiro, 2018
A gestão, enquanto capacidade para articular de forma sinérgica um conjunto de recursos com determinados objectivos a fim de organizar um futuro diferente daquele que pode acontecer caso não houvesse gestão, sempre esteve intimamente ligada ao desporto desde os Jogos Olímpicos realizados na Grécia antiga. Por isso, embora o senso comum julgue que para gerir o desporto é tão só necessário “dar uns toques na bola” e algum bom senso, o facto é que a gestão do desporto é uma actividade profissional para a qual cada vez mais se exigem competências e especialização.
Trata-se de apurar a dialéctica entre teoria e prática, na perspectiva de que se não existe nada mais prático do que uma boa teoria, também não existe nada mais teórico do que o apuramento do sentido epistemológico de uma boa prática. Esta dinâmica entre teoria e prática ganha tanta mais importância quanto se sabe que o ambiente em que o desporto acontece é caracterizado pela volatilidade, incerteza, complexidade, ambiguidade e rapidez de mudança. Este tipo de ambiente obriga aos gestores a forte capacidade intuitiva, que na integração entre a razão e a emoção permita tomar decisões de qualidade, em tempo útil. Nestes termos, a gestão não é pura, na medida em que as suas funções e ferramentas só ganham verdadeiramente sentido e operacionalidade caso uma geometria variável estiver ajustada a um determinado contexto.
E, no actual contexto, a gestão desportiva em Angola enfrenta e vai ter de enfrentar cada vez mais desafios, nos próximos anos, o que exige da parte dos profissionais do desporto, ligados à administração e ao dirigismo, formação específica e experiência na área da intervenção.
O associativismo desportivo, modelo estabelecido para o desporto em Angola desde a sua independência, passa neste momento por graves problemas financeiros, muitos deles estão a pôr em causa a própria existência das Federações e Associações desportivas, mas principalmente dos clubes.
Estes problemas devem-se, em parte, a uma exagerada e “abusada” dependência dos apoios públicos, provenientes maioritariamente do Estado.
É que durante todo esse tempo em que associativismo prevaleceu no desporto nacional, os clubes e as Federações nunca sentiram a necessidade de procurar investimentos e apoios privados, uma vez que os apoios públicos colmatavam praticamente todas as necessidades. Esta situação resultou, em geral, da falta de um trabalho sério e fundamentado para tornar o desporto apetecível ao investimento privado. Nesta fase, em que a “micha acabou, o kumbú fugiu e tudo mudou”, o desporto nacional tem necessidade urgente de mudar o actual modelo de gestão baseado no associativismo, para um modelo mais profissional que permita estabelecer parcerias e encontrar apoios que não sejam o do Estado angolano.
Dado o padrão de especialização do trabalho do gestor, que deve ter a percepção da própria gestão em função da parte da organização onde se encontra a laborar. Assim, uma coisa é numa perspectiva micro (analítica e funcional) gerir a situação técnico -desportiva, outra completamente diferente, numa perspectiva macro (estratégica e global) gerir o nível desportivo. Nestes termos, entre o vértice estratégico e o centro operacional devem existir gestores intermédios, descodificadores de discursos e integradores de perspectivas e conhecimentos. Por isso, em função do posicionamento na organização, o gestor está confrontado com tarefas de concepção, de informação, de inter-relação e de decisão que pode processar o recurso a um conjunto diversificado de ferramentas, constantemente a surgir no mercado de ideias.
Finalmente, tudo indica que no futuro, o gestor de desporto tem de estar preparado para gerir a actividade numa economia de escassez, que o obriga a ser capaz de envolver emocionalmente as pessoas nos projectos de que é responsável. Se assim não for, o gestor do desporto limita-se ao estilo do “magister dixit”, do quero, posso e mando, a conduzir olimpicamente a organização de que é responsável a caminho de lado nenhum.
A verdade que se defende de uma forma recorrente, abrangente e generalizada, que o único caminho para que a gestão desportiva dê os frutos do desporto nacional é que passe pela mudança de mentalidade não apenas dos gestores e dirigentes, mas também dos sócios dos clubes que deviam ser capazes de destituir os gestores e dirigentes que não apresentem resultados.
Assim, se não houver mudança de mentalidade dos gestores e dirigentes desportivos, penso que é melhor trocar e importar também os gestores e dirigentes desportivos, à semelhança do que se faz com os treinadores e jogadores! Mas isso, também pode ferir o meu patriotismo, infelizmente!
*MENTOR E GESTOR EXECUTIVO
DO FÓRUM MARKETING DESPORTIVO

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