Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

MINJUD assume papel de catalizador do Girabola

19 de Fevereiro, 2018
Face a anunciada crise crónica dos petro-dólares e o seu impacto na vida social do país, o futebol não escapa à triste e dramática realidade; crise cíclica que já vai no seu quarto ano, desde o choque petrolífero de Novembro de 2014 .
Assim sendo, o MINJUD agarra o touro da crise pelos cornos. Não fica indiferente e investe no Girabola 2018, sobretudo nas equipas mais fracas do Girabola .
Na verdade, a recente decisão do Ministério da Juventude e Desportos de apoiar as equipas vulneráveis que evoluem no nosso Girabola faz todo o sentido, quanto mais não seja para que venha a ser mais disputado e, consequentemente, mais equilibrado, o que lhe conferirá sem dúvidas melhor competitividade.
Já molhamos a sopa na nossa penúltima crónica, dedicada ao incipiente Girabola 2018, quando aludimos ao facto do necessário apoio às equipas mais frágeis por banda de patrocinadores, empresários e as instituições locais e evitar o risco da desistência de algumas delas, o que só teria a perder o desporto-rei intramuros.
Entre as equipas mais carenciadas a evoluir no Girabola temos o Sporting de Cabinda, Progresso do Sambizanga, 1º Maio, Diamont do Bengo, entre outras…
A ministra Ana Paula Sacramento afirmou que as equipas que contratam jogadores estrangeiros, não beneficiarão deste apoio por parte do Governo, através do departamento vocacionado, ou seja , a pasta que dirige- o MINJUND. Tendencialmente, entre as equipas economicamente mais desafogadas ou mesmo folgadas, são aquelas que mais apostam fundo na concorrência, sobretudo na disputa do título, nomeadamente 1º. de Agosto, Interclube, Recreativo do Libolo e Kabuscorp, Petro, para não falar do Sagrada esperança que nos pareceu indevidamente citada por Ana Paulo Sacramento, por ser propriedade da Endiama, numa altura em que a indústria diamantífera ter saído já da crise de 2008/2009, sendo certo que as duas primeiras contam , entre outros recursos, com a quotização dos milhares e milhares de militares e polícias, respectivamente, sendo que a terceira e quarta contam com conta com o concurso de influentes empresários seus proprietários, enquanto que as duas penúltimas são equipas que dispõem dos petrodólares da Sonangol, a entidade proprietária dos clubes petrolífero de Luanda (e dos estudantes do Lobito, que volta meia luta por manter-se no Girabola). Já última além do apoio da ENDIAMA, deveria mesmo buscar acréscimos da sua renda, a patrocínios às distintas empresas diamantíferas privadas que operam na Lunda-Norte e arredores, poupando tais recursos que o Governo em breve disponibilizará àquelas equipas que se confrontam com dificuldades para levar o campeonato até à derradeira jornada, que volta e meia correm o risco de descer de divisão ou ascendem pela primera vez, como é o caso da eqwuipa oriunda do KK.
Efectivamente, o apoio deverá ser priorizado àquelas equipas mais carenciadas, tanto financeiramente, como em termos humanos e materiais, cujo grosso se encontro ou na cauda da tabela ou no meio dos feridos, contusos e contundidos, em meio à gestão da crise avassaladora.
Na verdade, embora os recursos sejam escassos nos dias que correm, o MINJUD poderia estender o seu apoio às demais equipas que comprovadamente não têm recursos financeiros, quer para disputarem o Girabola, como a outras equipas, como ocorre com o Sporting do Lubango, p.ex., que tem várias modalidades além do futebol e tem de fazer das tripas o coração para mantê-las; equipas que, que embora não sejam girabolistas, existem nas diversas províncias do país, com alguma capacidade em matéria de infra-estutura, atletas e alguma performance desportiva, traduzidas em várias modalidades na operacionalidade dos clubes e que se vêm a braços para manter a sua actividade futebolística e não só.
E o que é válido para o Sporting do Lubango será válido para as demais províncias, mesmo aquelas em que apenas têm um representante no Girabola e mais grave ainda: aquelas que há muitos anos não têm nenhuma faz no girabola, como são os casos do Cunene e do Namibe, para não falar do Kwanza Sul e de Malange, apesar da sua importância geo-económica.
O retorno do Bravos do Maquis é um ganho nesse sentido da ultrapassagem das gravosas vencer as assimetrias regionais, bem como a entrada em cena da equipa do KK nesta temporada, concorrendo para a coesão e a unidade nacionais.
Nestes termos, o investimento tem que ser feito, quer nas infra-estruturas, muitas das quais degradadas, por falta de dinheiro e de obras de manutenção, quer directamente nos clubes, como ocorrerá agora, tal como nas suas áreas de formação, infantil, juvenis e juniores, para rejuvenescimentos das equipas, que deverão contar apenas com o concurso de estrangeiros , quanto for esgotado recurso à prata da casa.
Rigorosamente falando, não haja dúvidas que há ainda muitos talentos por serem descobertos tanto nos bairros, incluindo suburbanos sobretudo, e nas escolas, empresas e até nas unidades militares e pára - militares, espalhadas um pouco por todo este país, que poderia levar a contratação da estrangeiros apenas quanto o local fosse inexistente, sendo certo que tal facto, xenofobia á parte acaba por agravar ainda mais o fosse entre as equipas do topo e as demais concorrentes.
As experiências já existentes nesse quadro prospectivo abundam e os exemplos não escasseiam, como acontece com a Academia do Futebol, ou como acontece com os clubes como o de 1ºAgosto e o Petro de Luanda, para só citar estes, podendo garantir não só a transição geracional “pacífica” nos clubes, sem grandes sobressaltos, bem como a afirmação de novas equipas ao nível do Girabola, nomeadamente de novos valores e talentos, assim como a correcção de vícios de origem, na retenção da bola infinitamente, ao invés de ser passada ao companheiro melhor colocado.
Insistamos: o chuto sem ângulo, ao contrário do passe de mágica para o parceiro completamente desmarcado, garantindo a marcação do golo do companheiro isolado, para levar a água para o seu moinho da vitória, por vezes suada ou desperdiçada, em virtude desses factores negativos que são de base: mastigar a bola quanto baste e a perda do lance, para desgosto dos colegas de equipa mais empenhados na disputa da partida e psicologicamente abatidos pelo insucesso do lance.
Finalmente, faz-se importante destacar que, o exemplo do MINJUD deveria ser seguido pelos demais ministérios ligados à juventude, como a Cultura no apoio indispensável aos artistas e a interpelação dos usuários para pagamento da sua propriedade intelectual, bem como ao Ministério da Educação no apoio ao desporto escolar e o Ministério do Ensino Superior para o apoio do desporto nas universidades espalhadas em várias regiões, não só públicas como privadas, para uma maior dinâmica do desporto nas escolas básicas e secundárias, bem como no relançamento e revigoramento do desporto universitário, que teve várias representações em diferentes campeonatos do género, sobretudo nos países do Leste nos anos 80.
A experiência huilana nos dias que correm, ainda que incipiente, deveria ser replicada por todo país, nas zonas onde existam universidades, fazendo apelo à tradição já existente em Luanda e, quiçá, no Huambo, onde nos tempos a que nos reportamos eram as únicas cidades com universidade, além do IISCED, única e exclusivamente, baseado no Lubango.
Hoje por hoje, em que maior parte das cidades já têm universidades e institutos superiores, não só no litoral, como nas províncias encravadas do interior, sem esquecer o Leste, que conta com institutos superiores pedagógicos, estruturas e estudantes que devem ser aproveitados para o relançamento do desporto universitário, inclusive nas antigas “terras do fim do mundo”( hoje terras do progresso), e do desporto, em geral, a nível local, dado que possuem ginásios e campos, alguns dos quais sub-aproveitados para a prática desportiva. Enfim, o sinal que nos vem de estádios feitos durante o CAN de 1010 que se encontram inoperantes e abandonados, com todos os gastos de fundos públicos atinentes, dá-nos que pensar e traz água no bico, no sentido da existência de uma efectiva e verdadeira estratégia nacional de desporto e consequente massificação desportiva em todas as províncias, agremiações e associações desportivas do país; cenário patético que deixa escapar alguma improvisação e mediocridade na gestão desportiva do país e futebolística, em particular. Tal é o amadorismo e a curiosidade em que andamos mergulhados, no que à gestão deste importante dossier cultural diz respeito - os desportos em Angola.
NORBERTO COSTA

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