Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Na ressaca do Afrobasket

22 de Setembro, 2017
Alguém, dentro do seu sentido interpretativo, poderá entender o tema como extemporâneo. Mas quanto a mim não é. Anda ainda fresquinho, centralizando as conversas entre a tribo do basquetebol, não fosse afinal uma espécie de golpe sacramental às suas expectativas e ambições reservadas ao torneio que Senegal e Tunísia entenderam dar corpo, naquela que pode ficar catalogada como a primeira organização partilhada.
A edição 29 no Campeonato Africano de Basquetebol passou para a história, vai para quase uma semana. E contrariamente àquilo a que nos acostumamos ao longo de muitos anos, a ressaca não é festiva. Não se assiste àquela fanfarra de passeatas pelo país adentro, tampouco às apoteóticas recepções palacianas. O momento é daquele silêncio sepulcral que acaba por dar maior grandeza ao próprio fracasso.
Desde que Angola começou a agigantar-se no basquetebol africano, com a disputa das finais de 1983 e de 1985, respectivamente em Alexandria e Abidjan, apenas em 1987, em Tunis, falhou a final, quedando-se nas meias-finais. Ainda assim, foi terceiro classificado. Nunca tinha tombado nos quartos-de-final. Mas como há sempre uma primeira vez acabou por acontecer, sendo neste contexto a pior classificação dos últimos 35 anos. É caso para reflectir
De resto, mais do que um simples fracasso, manda o bom senso rever os contornos deste mesmo fracasso. Afinal tal como aconteceu em 1997 no Senegal, em 2011 em Antananarivo e em 2015 em Tunis, também desta vez podíamos falhar o título, mas de forma mais honrosa e não humilhante como aconteceu. Afinal uma inversão de poderoso a vulgar requer dos experts um estudo aprofundado, sério e responsável.
Na verdade, o destino do \"cinco\" nacional acabou por não surpreender a ninguém. O começo desastroso diante do Uganda, indiciava, para qualquer observador atento, uma verdadeira hecatombe. A falta de atitude, a desconcentração generalizada na quadra, aliada à baixa percentagem de conversão indiciavam a limitação de probabilidades do resgate do título. Aquele não era o modelo do jogo de Angola.
Vieram-me dizer que a equipa estava velha, porque jogadores como Armando Costa, Leonel Paulo, Olímpio Cipriano e outros estavam em fim de carreira. Este argumento não colhe. Qualquer um dos jogadores evocados ainda tem muito a dar à modalidade para além de serem as referências do nosso BIC Basket. Parece-me que o problema teve pouco a ver com as unidades. É isto que deve ser dito e escrito com todas as letras.
Aliás, se um categorizado treinador como Mário Palma vem a público dizer que Angola ainda é uma potência é porque dentro da sua visão analítica identificou o mal. Estaria ele a dizer que o forte de que fazia alusão estava na organização administrativa? Estaria ele a dizer que este forte estava na equipa técnica? De certeza que não. O forte estava mesmo nas unidades convocadas. A partir daqui torna-se fácil apurar de que lado o castelo terá começado a ruir.
Em resumo, é todo um caso polémico, cuja discussão exige a observância de sérias cautelas. Quando se aponta o dedo crítico à federação também é preciso apurar se ela teve do Estado apoio suficiente que permitisse acomodar os atletas com propostas aliciantes caso conseguissem atingir esta ou aqueloutra meta. Quando se coloca em dúvida a capacidade do técnico é preciso apurar se havia condições financeiras para a contratação de um outro mais consagrado.
Enfim, está montado um cenário que não deve ser avaliado à quente, mas com frieza e calculismo, que permitam apurar o que esteve mal e o que deve ser feito em jeito correctivo, a ver se não fica aqui assinada e autenticada a declaração de um processo regressivo do nosso basquetebol a nível continental onde foi papão ao longo de quase três décadas.
Matias Adriano

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