Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinião

Nação e o basquetebol

13 de Setembro, 2017
O 14 de Setembro, que apanha Angola a meio da Semana de Neto, é uma data que vai ficar escrita como o Dia D nos nossos anais, e por quê?
A Semana de Neto, o fundador do sentimento que hoje todos devemos infundir, o de uma Nação, serve aqui para se fazer luz ao que éramos, como desportistas patriotas, e no que depressa nos tornámos, uns meros viventes à custa do desporto.

Separa-nos dessa nostálgica época, a distância de uma memória colectiva praticamente ignorada na actualidade e que traduz um esquecimento rápido de como se fazer de paus, uma cabana. E sem essa pequena receita caseira dos comportamentos, pensamentos e atitudes, temos hoje aquela cabana a desmoronar-se, na mesma ocasião em que ao basquetebol tem sido provado que lhe está a faltar nova cabana, ou reparar urgentemente a que tem. A ver-se, depois que sucedeu Bamako, o que nos há-de reservar Dakar...
Essas duas praças da África do Oeste que tanto nos havia custado a conquistar já começaram a ver a nossa supremacia a desabar na primeira delas, o Mali, donde e após chegados ex-campeãs, voltámos em primeiro dos últimos. A ver, a seguir.

Na base do nosso desaire só podemos estar nós mesmos. E não foi subitamente, mas desmontado a prazo. O que os jovens dirigentes haviam encontrado e que tiveram dificuldade a decifrar, já não está só coçado pelo tempo, mas desgastado pelo trato. Senão, veja-se.

Antigamente os nossos sentimentos e motivações de luta eram na gratuitidade e o estado empenhava-se nos projectos que acabavam sempre por traduzir-se em ganhos de ânimo e uma cidadania nacional que nos irmanava a ponto tal, que hoje se conta que até as armas se calavam para escutar no rádio Angola a jogar. A selecção era então um emblema do povo. E uma arma do país.
Nos bastidores dessa força crescente, que o desporto era, a ponto de servir para Angola esgrimir ao mundo a sua existência real, ali nos grande areópagos desportivos e com a nossa controversa bandeira nacional hasteada, foi onde nos serviu também para mostrar ao mundo o querer e capacidade da nossa juventude, guiada por uma geração de confirmados desportistas nacionais de uma igualha difícil, de resto comprovada pela solidez e produtividade das bases desportivas nacionais, donde Angola rapidamente emergiu como o país em guerra que paradoxalmente se apresentava para ganhar campeonatos.
E realmente foi o basquete aquele jogo que mais rapidamente floresceu entre nós e que pioneiramente nos levou à glória desportiva, em 1980 e logo às primeiras. Em Angola, depois Moçambique. Éramos os bicampeões juniores de África, razão pela qual a partir de 9 anos depois ficámos os eternos campeões. Vejam o tempo que isso custou e onde e como tudo começou. E foram títulos africanos e olimpíadas ganhos à pazada, servindo inclusive para estímulo ao esforço de desenvolvimento de outras modalidades, com realce para o andebol, futebol, voleibol, ou mais individualmente o atletismo, boxe e vela, que eram os desportos então mais substancialmente praticados e que tinha muito a ver com a classe dirigente dos clubes na época.
Dessa lá, Anos 80, para a actualidade, tal é o que me invoca a Semana de Neto, todos os anos entre 10 e 17 de Setembro, para aqueles que realmente saibam dar valor e utilidade à história, mesmo se ela se refaz todos os dias, pois a perdas dos nexos, históricos neste caso, é o que nos desagrega se perdemos o fio que nos é comummente condutor. E será que os ensinamentos desportivos forjados pioneiramente na época de Neto ficaram também enterrados?

Hoje encontra-se escassa similitude nas pessoas e nos métodos, quando entramos pelo desporto adentro. E de pouco nos têm servido os conhecimentos dos doutores formados na matéria e cujos apresentações vêm precedidas invariavelmente do título académico, mas sem obra. Nem vislumbre dela. E é hora dos sábios aparecerem. Por minha arte, enquanto observador falante, estou apenas a destapar um lastro de história para contrastar com as estórias que se andam a contar.

Por assim dizer, o desporto Angolano ficou sem direcção técnica! Os técnicos de cátedra foram sendo postos na prateleira e gradualmente substituídos por indivíduos com ouras aspirações no desporto, quiçá mais políticas, do que desportivas, e que se têm pautado no dia-a-dia por descuidos múltiplos no seu infantário e que goza de um constrangedor silêncio com que todos vêem vendo aquela nossa primeira cabana desabar. Porque já nem um valor simbólico e histórico tem; veja-se por exemplo, como o Brasil chora quando perde o futebol, mas isso nem sequer nas novelas aprendemos?

Por entre as aleivosias da nossa chamada sociedade de economia de Mercado, o desporto tornou-se na parcela mais apetecível pelos ganhos fáceis e particulares dos gestores desportivos, do que propriamente pelo ganho colectivo de resultados, e estes só acontecem se primeiro forem trabalhados e todos poderem ver que estamos sempre a subir, mesmo. Agora, não sei se por efeito daquela mesma guerra que já nos havia tornado pródigos, terão acabado embrutecidos os filhos que fomos tendo, marcados por uma avidez tal de ganhos pessoais, que vieram também acampar no desporto. Porque é isso o que os comportamentos nas instituições desportivas têm estado a revelar ao cidadão.
Assim desarticulados com o tempo e sem uma reacção visível em prol da salvaguarda dos ganhos da reconstrução nacional no sector do desporto, mensurável pelos pressupostos perdidos, entre os quais avultaria ter-se o mesmo empenho com que aqueles primeiros juniores haviam começado ainda em juvenis, a saga do basquete primeiramente masculino, de Angola, e mais recentemente com impulsos sentidos no feminino, eis-nos num tempo do qual ninguém aceita ser o pai. E é triste, pois isso nos coloca numa situação de ridículo e só quem tem pouca educação, não sente vergonha.

Quando logo toda uma nação estiver com os corações me Dakar, vamos sofrer por um erro de poucos, que todos deixam alastrar. E é disto que importa falar e pensar e resolver quando, das duas, uma, ou o país se quiser solidarizar com a causa do basquete, que é a do desporto em geral, e da educação, ou então, isso for nada para as maiores preocupações pessoais que infelizmente tem quem deixa as coisas chegar e andar indefinidamente neste ponto. Logo se verá no próximo consulado da tutela dos desportos, sua postura, condução e andamento.

Mas, ainda assim, isso não sossega quanto a mais logo, em Dakar. A África do Oeste tem sido pródiga a mostrar-nos como fazer dos paus, cabanas. Já nos haviam mostrado isso há poucas semanas, no Mali, quando as nossas ex-campeãs africanas regressaram em primeiro dos últimos classificados. E podem estar prestes a repeti-lo, ou não, embora os sinais, não dos temos, mas das estatísticas, voltem a estar a nosso desfavor.
E a razão não é outra, senão a falta de frescura. O nosso desporto deixou de emanar frescura, transformou-se num quase capim a crescer para mato e com cada vez menos flor por falta de plantio de mais arbustos.
Se em Bamako nos faltou mais frescura, faltou juventude, ou se nos faltou mais frescura, então faltou juventude. Impossível sair desse círculo, mas preciso sair desse cerco. A nossa geleira está cada vez mais cheia de comida para requentar e vazia de frescos. e isso sucede apenas porque o nosso desporto se confortou em andar a requentar alimentos. E dirigentes.

Os números de praticantes e de técnicos têm estado a decair quase vertiginosamente porque se há políticas desportivas para isso, falharam redondamente. E se há motivos para isso, erraram redondamente. Não me canso do exemplo de Cuba, que aqui utilizamos consoante a conveniência e por coerência devia ser um exemplo único e para todos de saúde, educação e desporto. Pelo menos não faz mal sonhar, o pior é só ter e viver de pesadelos.
Decerto já ouviu ou leu sobre a parábola de um porco que acabou sacrificado no dia em que outro animal da quinta, mas de tracção e portanto mais rentável, o cavalo, adoeceu. O dono já o dava por perdido quando finalmente o bicho se reergueu, e de alegria mandou o dono que se matasse o porco. Este entrou em pânico porque iam tirar-lhe a vida para comemorar a vida de outro. Então, o basquete não pode ser o porco, nem os seus dirigentes, o cavalo. O problema da quinta é geral.

Realmente, para um pioneiro do sucesso do desporto angolano, estar hoje a ver este triste espectáculo em uma defunta paisagem à espera de um sopro para trocar de vegetação e de árvores, pois, ali o ambiente está por mal e nunca roçou tão baixo. Da mulemba ao eucalipto. Se estes foram arrancados da cidadela sem saberem que afinal estavam ali para enxugar as águas e poder-se jogar futebol sem relvado inundado, ponha-se agora a imaginar o tempo que a mulemba leva a plantar e diga quantas está a ver o nosso desporto plantar. Eis porque a nossa paisagem desportiva é cada vez mais de seca, desertificação, do que verde.

Portanto, alguma tendência humana nossa parece inexoravelmente predadora e de uma predisposição para fazer mal, estragar, trocar o bom pelo mau. O problema está, no entanto, em se abusar disso. O fazer mal, fazer errado, omitir, esconder a incapacidade e não arredar da mama é uma tendência comportamental que também importa erradicar, pois nenhuma economia se ergue com chulos.

O problema do basquete que estamos a viver é precisamente o de toda a paisagem que estamos a viver no desporto. É de sublinhar que depois da época dos desportistas patriotas, muitos deles ainda entre nós e outros lá dentro com os novos dirigentes, porém insuficientes para desmatar, a única satisfação corrente vem do andebol feminino, pois, quer em futebol, na copa do mundo FIFA de 2006, quer agora no mundial de hóquei em um excelente quinto lugar acabado de conquistar e com o artilheiro da prova, Angola precisou sempre da sua aliança ao passado. E isso não custa a descodificar.

Tudo na vida tem causas históricas, mesmo se elas foram trágicas. O estado do nosso desporto tem uma origem, e das duas, uma: ou temos agora piores alunos, ou piores professores. Porque um povo não muda de uma época para outra sem uma causa histórica.
Volto à África do Oeste. Não bastasse os povos dali serem mais atléticos, terem pelo menos uma dieta alimentar que nos demonstra há gerações terem menor gordura, ainda por cima treinam mais, mesmo se comem menos. Isso por si só não chegaria para os tornar superiores, se não fosse eles terem um sistema educativo que contrasta vivamente com o nosso quando eles têm mais atletas a estudar que nós, pois têm desporto escolar, mas nós arrancamos isso, e mais, até, como aos eucaliptos da Cidadela. Eles produzem por dia e ano exponencialmente mais atletas do que nós.

Então eles têm centenas de milhar de praticantes contra apenas centenas nossas; ou vão dizer que também temos milhares? E estão onde, quem os vê semanalmente a jogar senão em umas ilhotas chamadas por fim de campeonato nacional? Ainda domingo vira, que depois do Manchester City x Liverpool no sábado, para a \'Premier League\', jogaram depois os Sub-23 dos dois emblemas. E aqui, quanto vemos jogar os jovens dos nossos emblemas?
Então, é milenar, que só se tira qualidade, da quantidade. E a partir da tenra idade. Mas, parece que além do desporto escolar, nos esquecemos do básico em demografia. E em políticas sociais de integração por via do desporto. Do desporto nacional. Não somos um arquipélago, sem desprimor para quem for. Em Angola o desporto começava a ser um êxito, tendo sofrido uma inversão que não se pode pretender justificar com mudanças económicas - afinal nunca antes havia rolado tanto dinheiro para o desporto - mas por razões mais essenciais, como o Homem. E os nossos, parece que mudaram demais...

Sendo uma obra humana, o desporto precisa de vitalidade, ou então, de mudança; de reforma ou de enterro. Não sei mais o que aqui vai de bem nas políticas desportivas, para melhorar; lucraremos mais se as julgarmos erradas, pelos resultados, e então procurar melhorar. Este é alento que vem, pelo menos, consignado na nova máxima nacional \'melhorar o que está bem e corrigir o que estiver mal\'.

Voltem os contratos-promessa do inusitado ‘guia’ desportivo de um tempo em que o ministro obrigava que os resultados se compaginassem com as despesas, ou seja, que os gastos fossem consentidos ante uma boa promessa. Mas foi quando os estágios começaram a ser com equipas dos empregados dos hotéis e assim só pode haver quem realmente obtenha do desporto, vantagens insondáveis. E isto depois vem explicar outros desvios sempre da mesma natureza, de obter-se vantagem. É um ciclo vicioso sem o qual morreria a nova casta má dos dirigentes desportivos, pois doutro modo o desporto perderia o interesse para eles.

Eis quando os interesses chocam. E logo, em Dakar, vão chocar mais, basta as coisas correrem mal. Mas será que um choque que fosse, que pudesse ocorrer em Dakar, serviria para fechar o caixão desse mal andar porque anda o desporto? Tal e´, em sim outra questão, e das mais sérias. Será que um eventual desaire nos acordaria, ou uma eventual êxito nos iria manter anestesiados como entorpecidos e incapazes de operar uma mudança nos destinos do desporto Angolano? É que ao dizer-se angolano, quer dizer o que Angola faz.

De outra forma, o nosso desporto continua a ser uma coisa infundada e área de despesa a fundo perdido, como se fosse meramente uma actividade para oferecer entretenimento, sem aproveitar a melhor organização que já havia aqui de marketing de imagem do país através do mundo, muito antes de cá chegarem os marketeiros brasileiros…
Por isso e ao contrário do que se diz \'o que se passar em (Las)Vegas fica em (Las)Vegas\', cá para nós, o que se passar em Dakar não pode ficar em Dakar. Tem que voltar com a equipa, seja no sucesso, como no insucesso. Para podermos discutir o fim destes apertos e sobressaltos, procurando regularizar o funcionamento do desporto em geral e servindo, se necessário, para uma reflexão de certa forma nacional antes disso. Porque é imperativo mudar-se.

Se o afã de compaginar a sociedade com os ditames da ONU se resumisse a promulgar a igualdade do género, e a tudo fazer-se para sermos ilustres neste quesito, então haveria essa trave-mestra onde alicerçar-se o edifício, que neste caso é o do casebre em que parece viver o desporto infantil e jovem. E sem este viveiro é impensável mudar de sorte. Recordo um dirigente e antigo atleta, que enquanto dirigia me dia não se meter no mini-desporto daquilo que ele havia praticado, pois essa era tarefa que competia à sociedade civil.

Realmente, o papel da sociedade civil é vital, pois ela é quem representa a cidadania, no entanto, se não se fizer o fomento do que seja, dificilmente se divulga e expande a actividade ou o projecto em causa. Então o fomento do mini-basquete, no caso, é algo que não deve ser tarefa dos projectos em que se meterem o \'Ginguba\' e o \'Zé Carlos\' por conta das suas amizades e aproximações; será então um projecto do país, da sociedade angolana, do patronato, de todos abraçados como na campanha eleitoral, em prol do basquete, ou se preferirem, do desporto, ou escolham os desportos, pois realmente uma parte dele parece já defunta, mas ainda nas folhas de salário.

Recordo o dia em que Rui Carvalho viu o futebol tão apagado do tecido social que mandou a Rádio Nacional organizar um torneio e dar \'fomento\' ao futebol, além de promoção e propaganda na rádio que dirigia, surgindo o torneio \'Caçulinhas da Bola\'. A verdade é que o futebol renasceu, em Angola, mas o torneio só viveu dois anos. E mais ninguém lhe pegou, embora hoje o \'MNE\' alimenta uma esperança alienígena, pois por mais montra que sirva e atletas que projecte como interessantes, hão-de faltar equipas e nelas, treinadores ainda. E só por isto seria precisa operar uma nova sociologia do futebol e do desporto em geral.

Depois é oportuno não arrastar pesos portos e ainda menos nados-mortos. Quais as modalidades em que o país tem potencial? E quais as suas regiões? Por que não partirmos desses pressupostos para arquitectar um projecto nacional - já não lhe vou chamar Plano com maiúscula - para os mais pequenos e que implique, além da comunidade, os clubes nela situados? E se meios faltarem, saber-se quais e quem e onde? E assim ir-se tendo pelo menos estimativas do tamanho do buraco que há e do problema que vivemos. Os clubes não só não publicam, nem auditam sequer as contas, como ainda não divulgam a sua \'população\', o que seria elucidativo para o caso.

Quando naturalmente fizermos as coisas de tenra idade e se torcer o pepino de pequenino, seremos todos melhores, como seres e como povo, e naturalmente como atletas. Não acredito que apenas soubemos ser pioneiros para arrancarmos a independência, mas pouco imaginativos para explorar direito o futuro que nos prometemos e donde ser campeões fazia parte. É que, falando particularmente do desporto, este não é o futuro que queremos, já faz tempo demais!...

ARLINDO MACEDO

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