Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

No lhe pediram a glria

11 de Maio, 2017
Nos últimos anos, o futebol nacional assistiu a uma revolução que varreu do mapa alguns nomes conhecidos. De Nando Jordão a Joaquim Diniz, passando por Arlindo Leitão, Oliveira Gonçalves, Rui Teixeira e Pinto Leite, para além do afastamento voluntário de Mário Calado ou caso híbrido de Miller Gomes.

De uma geração intermédia ficaram João Machado e Chiby. Ou seja, o empirismo foi substituído pela via académica e quem assiste aos jogos de qualquer liga africana com olhos de ver percebe que, ao nível dos treinadores, não ficamos a dever nada a ninguém. Existe um conjunto de homens que percebe do que faz e o faz com paixão, acrescentando-lhe outras valências, por exemplo, ao nível da comunicação e até do marketing.

Para mim, essa é uma das boas garantias para os próximos tempos. Tínhamos bons jogadores, hoje temos boa formação. Faltava, na minha opinião, uma elite de treinadores. Felizmente já há.

Mas este pequeno e ilustrativo intróito tem muito haver com aquilo que fizeram com o técnico João Machado. Não é justo que seja o fim de linha para o decano dos treinadores nacionais, independentemente dos erros que lhe queiramos atribuir na concepção da equipa; nas decisões em determinados momentos; na quota-parte de responsabilidades em derrotas dolorosas.

Se pensarmos também nos exageros de sentido contrário, quando a sua contratação foi legitimada por elogios desmesurados, ( resgatar a mística do clube) porque era um regresso bem-vindo, depois de 21 anos, em que chegou a conquistar uma Taça de Angola (1995) e uma Supertaça (1996), é cruel dizer-se que o “Decano” tenha de partir. É bom lembrar a direcção do clube do aeroporto, que João Machado foi para o ASA, aos 65 anos, assente num currículo invejável, com trajecto suficientemente longo e esclarecedor.

Na minha modesta opinião, a chave do problema está também na origem da sua contratação. Para enquadrarmos o que devem fazer agora os dirigentes é fundamental encontrar respostas para a grande questão: que objectivos traçaram na hora de o convidarem a assumir funções?

Se lhe exigiram o título, dupla inconsciência: a de quem o pediu e a de quem aceitou o risco. Como não foi esse o caso, os pressupostos da escolha deveriam manter-se, mesmo quando a equipa engatinhava, com alguma ausência de esperança, segundo os dirigentes do ASA, para atacar a desejada reviravolta na segunda volta do campeonato ou mesmo antes. João Machado assumiu o comando da equipa aviadora como gestor de um aristocrata em grandes dificuldades, saudoso da grandeza desportiva de tempos que já lá vão.

Um desafio diferente daqueles que lhe deram a glória quando, à frente do mesmo ASA, potenciou craques do nosso universo futebolístico, racionalizou euforias e conquistou uma Taça de Angola e uma Supertaça. Isto há 21 anos!A questão que coloco aos dirigentes do clube do aeroporto é a seguinte: desde que, de forma abusiva, o técnico foi despedido, alguma coisa mudou? A verdade diz-nos que os maus resultados continuam. Dois jogos; duas derrotas, uma delas no seu próprio reduto.

Dado o actual momento do clube e a avaliar pela forma como João Machado foi despedido, não creio que um técnico de gabarito do nosso futebol aceite treinar os aviadores. Por uma questão de dignidade e de solidariedade.Porque os maus resultados não alteram o essencial da escolha, pessoalmente acho que o técnico deveria ficar.

Perante as notícias de problemas, financeiros e não só, vividos no balneário, cirurgicamente divulgadas numa fase de maior ou menor agitação, é de crer que nem todos os responsáveis sejam da mesma opinião.
E como eles é que mandam…

Com treze jornadas disputadas, o Girabola vai já na sua sexta “chicotada” . Agostinho Tramagal (JGM do Huambo), António Alegre (Académica do Lobito), Sérgio Traguil (Santa Rita de Cássia), Hélder Teixeira (1º de Maio), João Pintar (Bravos do Maquis) e João Machado (ASA), foram os técnicos que ficaram no “desemprego”. Creio que até ao cair do pano do campeonato outros poderão ser “chicoteados”.
Policarpo da Rosa

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