Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Neymar e Ns

09 de Agosto, 2017
O desporto pós-colonial de Angola está já dividido entre águas do passado e águas do presente, mas a um ponto em que o desporto universitário não mostra capacidade, nem organização e fomento, para jogar o papel de vento de cauda. E foi disso que me lembrei quando quis exemplificar o que se tem passado entre nós.

A futebolização do desporto é um equívoco, e o exemplo africano de alguns países somente terem gabarito no futebol começou precisamente, assim, pelo desvio das atenções e recursos para o desporto mais popular, o futebol, tendo restado a muito poucos desses países um recurso, os seus jovens universitários que foram cultivando precisamente o principal da panóplia de modalidades que, em estudantes de liceu e secundária, aprenderam a jogar.

E depois que muitos emigraram para universidades do Ocidente, em particular nos Estados Unidos das América, França e Inglaterra, a partir de onde começaram a engrossar as selecções do seu país. No começo, a nossa ementa desportiva não era má; antes pelo contrário.

Angola teve nomes que já glorificaram o seu desporto no passado, inclusive antes de o território ter a sua independência, um período em que estrelas nossas brilhavam ao rubro no império colonial português. Tais foram os casos de Bonga e Ruy Mingas, ambos atletas ex-recordistas de Portugal, ou os futebolistas Dinis e Inguila, estrelas na sua época pelo Sporting Clube de Portugal e Sport Lisboa e Benfica, respectivamente, e ainda Rui Jordão, internacional por Portugal com apenas 16 anos e também antigo craque do Sporting.

Mais, até, os Angolanos não eram só bons de bola no pé; famílias inclusive há com vários filhos a sagrar-se campeões de Portugal antes da nossa independência, como sejam os ginastas Miguel Ângelo e Rubens Mangueira Africano de Carvalho, e os também irmãos Cristina, Fernando e Jorge Leite-Velho. Havia ainda os Manita, de Benguela, e os Guimarães, de Luanda, que se haviam destacado no andebol e basquetebol respectivamente.

Então, onde foram parar as galinhas dos nossos ovos no desporto? Andarão todos metidos no mesmo saco? Por outras palavras, onde andam os nossos talentos? E as ideias de como os explorar servem a todos no clube, ou primeiro ao futebol?

Angola investiu em infra-estrutura para os desportos na ordem acima dos 2 mil milhões, entre 2007 e 2017, logo, era esperado que tão modernas instalações desportivas, desde estádios de futebol modernos, a pavilhões multiusos, mesmo ostracizando quase o atletismo, desde sempre sem pistas para correr ali onde ele seria mais proeminente – fora de Luanda e em especial na zona planáltica de Angola – e agora conta-se pelos dedos quem tem acesso a esses recintos para fazer desporto, sem primeiro deixar lá somas exorbitantes pelo aluguer.

Isto veio ainda confirmar uma tendência para que investimentos públicos passem depois a servir interesse privado movido pelo lucro, não pelo fomento, e muito menos ainda pelo desfrute dessas instalações pelos excelsos desportistas nacionais.

Hoje é vez mais evidente que o desporto se tornou em outro negócio mais, como tudo o que mecha e reluza neste país onde parece que agora pouco se gosta de trabalhar, e os desportos são exemplo farto disso, pois cada vez a nossa juventude é educada na indolência e lucro fácil, o que reflecte bem o modelo social da preparação dos jovens, ou ainda o despreparo dos pais que não estimulam suficientemente os seus filhos a ser activos e bons, pelo menos, em algum desporto, já que muitos furtam-se à escola e engrossam as estatísticas da delinquência juvenil nacional.

No entanto, é meritório assinalar os esforços que se sentem progressivamente em modalidades como o andebol, nunca tão bem na vida como agora, ou a ginástica, ainda sobrevivendo muito das contribuições dos pais dos ginastas, porém, com uma dinâmica motorizada pelo presidente da federação, que se mexe e tem curiosamente já mais implantação fora, do que em casa, e são esses dois os desportos que mais aplaudo presentemente e que mereciam mais atenção.

Também o hóquei em patins consolidou nos últimos cinco anos uma posição cimeira e hoje entre a elite mundial, no entanto ainda sem uma realidade interna que assegure anos de brilho intenso duradouro, a partir do dia em que os actuais angolanos luso-descendentes repescados pendurem os patins; nessa data, espero que a federação tenha um Plano B relativamente aos filhos de angolanos a crescer na patinagem mundial, se os cá de casa depois não revelarem em seniores haver recebido primeiro uma boa formação e desenvolvimento do talento.

Lá fora, curiosamente, os filhos de angolanos outrora celebrizados com a camisola de Angola, parecem de costas voltadas para as selecções jovens e apostados em jogar por França, Portugal, etc.; e tem sido algo inconsequente, errático e meramente ocasional, andarem os nossos técnicos nacionais e federações em planos para resgatar a cidadania desportiva dos inúmeros putos angolanos que começam a prometer dar cartas no desporto, particularmente em basquetebol e futebol.

Outros países, como Cabo Verde, Gana, Nigéria e Senegal, ou mesmo Argélia e Tunísia, têm uma rede muito forte com adeptos na diáspora e que fornecem o banco de dados do país sobre os activos potencialmente seus, a trabalhar com emblemas estrangeiros.
Assim, mais desarticulado parece hoje o nosso desporto, cuja legislação não acompanha a realidade com realismo nem pragmatismo, ao mesmo tempo que fazemos contas e temos mais entusiastas do que profissionais, técnicos e entendidos, a servir o desporto, suas instituições e clubes em particular.

Quando recentemente ouvi que se pensava futuramente em fundir desporto e cultura, achei muito justo por aquilo tudo que o desporto e juventude juntos não fizeram em quase duas décadas. Em 2001 quando Angola se sagrou campeã africana de futebol júnior, e poucos anos depois sobrava em campo menos de metade dessa geração, até para espanto do diabo, foi que os alarmes começaram a tocar em modo silencioso.

Antes disso, Angola havia conquistado espaço no maior torneio internacional de futebol júnior, em Toulon, na França, pelas mãos de Carlos Alhinho, mas esse espaço seria em breve perdido pela descrença nas idades dos nossos futebolistas. E entre essas duas etapas, eu recordo-me de uma conversa com um dirigente do futebol, acerca das grandes fusões que se faziam entre clubes europeus e africanos para desenvolver academias de futebol jovem.

Aqui em casa isso causou sempre desconfiança, pois dizia-se que eram portas abertas para os europeus roubarem-nos os talentos. Veio então a FIFA, que deliberou que não se podiam levar jogadores menores de idade para fora do convívio familiar, sendo impostas penas aos prevaricadores, por deixarem lesados os clubes formadores.

Então os clubes proporcionaram aos pais dos talentos, casa e emprego perto do clube que pretender o jogador, como sucedeu com a família Messi. E como esta, algumas famílias de africanos e de latino-americanos beneficiaram de um impulso semelhantes nas suas vidas. E é aqui que nos serve a lição de Neymar Júnior. Resumidamente, conta o seu pai, Neymar Sénior, citado pela BBC.

De uma sala única até a uma bolsa completa. Quando Neymar Jr. nasceu em 5 de Fevereiro de 1992, os sonhos de seu pai de uma carreira no futebol eram uma lembrança. Em vez disso, ele estava a tentar ganhar a vida em empregos mal remunerados em Mogi das Cruzes, um distrito da classe trabalhadora mais baixa da Grande São Paulo. Lutando para colocar comida na mesa, Neymar Sr.

foi forçado a mudar a sua família - que também incluía a filha Rafaella - em um quarto único na casa da sua mãe, na cidade costeira de São Vicente, perto do Santos, clube local que deu Pelé ao mundo.Um dos poucos luxos que a família poderia pagar era a taxa para se juntar a Tumiaru, um clube social humilde onde o pequeno Neymar passaria horas a dar pontapés numa bola de futsal ao redor.

Em breve, outro clube da classe trabalhadora, Gremetal, avistou aquele menino e o recrutou. Com a idade de 10 anos, ele já brincava com crianças mais velhas em um lugar onde os trabalhadores siderúrgicos de Santos e as suas famílias se reuniam. A palavra sobre esse fenómeno começou a espalhar-se e a Portuguesa Santista, um clube filial do Santos, bateu à porta dos Neymar. Foi quando Neymar Sr. exigiu que, primeiro, o clube oferecesse apoio educacional ao seu filho.

Na década de 1990, um em cada cinco brasileiros com mais de 15 anos era analfabeto, e até agora a grande maioria dos futebolistas só estudava a escola primária - de acordo com a Confederação Brasileira de Futebol. Neymar Sr. estava então a preparar-se para a eventualidade de o seu filho não conseguir singrar, ou acabaria a jogar a um nível baixo como a maioria dos jogadores profissionais no Brasil, onde mais de 80% ganham menos do que a renda média nacional média de $ 550 dólares americanos.

E as suas demandas foram atendidas. Neymar Jr. recebeu uma bolsa de estudos completa para o Liceu São Paulo, uma das melhores escolas privadas de Santos. Quando o filho começou a brilhar em eventos desportivos para estudantes, as escolas rivais queixaram-se de que ele estava apenas a ser usado para ganhar jogos em vez de ganhar uma educação. Mas eles não conheciam Neymar Sr.

Ao contrário de muitos dos seus vizinhos desprivilegiados, Neymar Jr. raramente faltou á escola. Os seus únicos desvios da rota casa-escola-casa eram na verdade sessões de treino e jogos para o clube a Portuguesa. E o seu pai certificava-se de que ele prosseguia na linha, pois estava ciente de como o filho poderia mudar a sorte e destino da família. A oportunidade chegou antes e depois.

Em 2005, o Real Madrid estava a negociar com o Santos FC o passe de Robinho - então a mais alta propriedade no futebol brasileiro - quando o agente envolvido no acordo \"ocasionalmente\" mencionou outra perspectiva ao Real. A lenda diz que Wagner Ribeiro falou ao Real do Neymar Jr., de 13 anos, que ganhava pouco mais de $ 130 dólares na academia juvenil do Santos.

O Madrid fez logo uma oferta, posta no cimo da mesa juntamente com uma casa e empregos para ambos os pais de Neymar, mas o seu pai preferiu aproveitar isso para negociar um aumento salarial substancial com o Santos - $ 325,000 dólares para ficar e um pagamento mensal de $ 6,500 dólares.\"O pai do miúdo já era feroz nas negociações naquele momento.

Ele era como um tractor\", comenta um director do Santos. Esses ganhos cresceram exponencialmente quando Neymar Jr. Entrou para a equipa sénior em 2009, mas o ‘modus operandi’ do seu pai não mudou. A família foi instalada em um apartamento de luxo, e Neymar ganhou permissão para viajar além de outras vantagens, como um cartão de crédito e um subsídio elevado para a região, de $ 3, 250 dólares por mês.

Mas Neymar Jr. teve que ganhar indulgências extras - brincos e roupas elegantes estavam sujeitos a performances no campo. Ou seja, se jogasse mal não poderia usar isso. Em 2010, quando os fãs e os media brasileiros já estavam a pressionar o treinador da equipe nacional, Dunga, a levar o ‘puto’ à Copa do Mundo na África do Sul, Neymar Jr. queria um carro como presente dos 18 anos.

Ele conseguiu um, mas apenas depois de chegar ao alvo estabelecido pelo pai de: ganhar o Campeonato Sul-Americano Sub-20 com o Brasil e marcar pelo menos duas vezes no jogo da final. \"Só porque podemos pagar as coisas agora, não vou simplesmente permitir que ele queime o seu dinheiro\", disse então Neymar Sr. \"Ele precisa de aprender o valor das coisas\", sentenciou o pai do craque.

E o resto já o leitor sabe. Contei isso para os pais aprenderem um bocado como investir nos filhos sem queimar etapas, nem serem levados na curva. Porém, a maior moral da estória é que o talento não foi roubado, nem o clube formador deixou de receber ‘royalties’ por ter sido o seu formador.

Por ser o clube-formador do atacante, o Peixe vai ter direito entre 4 a 5% dos $ 222 milhões. O Santos pode receber uma indemnização de mais de $ 8 milhões e ainda mais $ 10 milhões. Vai depender se o clube da Vila Belmiro provar que o atacante actuou nas categorias de base entre os seus 12 e 13 anos.

Portanto, ninguém sairá a perder se os nossos talentos forem bem criados e se tornarem activos dos seus clubes, que não parecem ainda muito intuídos para pensar grande neste nosso desporto cada vez mais pequeno.
Arlindo Macedo

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