Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Arlindo Macedo

Ningum quer a pedreira, uma pena

29 de Março, 2018
Quando reencontras um conhecido com quem passaste muito tempo e ele te reencontra e a primeira coisa que faz é puxar-te pelo braço para um canto e perguntar-te - ”por que é que em Angola não há número 9?”, torces a cara e nem sabes reagir.
Depois, poucos dias depois, outro amigo teu posta na rede social algo como “estão a ver!” ou “não vos dizia?” por outras palavras, e tu vais ver o que é o tal aviso, e lá chegado deparas-te com imitações dos males que tu próprio padeces, soam dois alarmes dum vez só.
O italiano Scariolo, que teve a proeza de treinar a selecção espanhola de basquetebol masculino, algo que arruinaria um pouco o prestígio dos treinadores da casa, mas que por serem de Espanha, são muito ‘chauvinistas’ [o meu croissant é melhor que o teu...e tudo o mais é], coisa que lhes deve ter diminuído quando perderam com um africano como Angola, treinados que eram pelo maior dos treinadores espanhóis, superando na prancheta pelo melhor dos treinadores africanos.
Mas, desta vez, Scariolo, veio fazer um favor e deixar um alerta aos dirigentes do basquetebol do país que ele treina, “que estão a faltar cotas de jogadores...” e em Angola isso traduzir-se-ia por “estais a ficar sem jogadores, mangolês!”.
Realmente, o tempo que leva a formar um basquetebolista é uma sucessão de etapas que não se erguem do dia para a noite. Em torno disso ele deve viver um clima do jogo onde amadureça mental e psicologicamente quando vê acção e depois é posto em acção, ou seja, uma coisa que começa a roubar tempo à escola e ao estudo, mas que no nosso caso não tem treinadores nem clubes que bastem.
Em uma maioria de partes do mundo, as escolas secundárias têm ginásio ou uma quadra pelo menos, sendo um berço de revelações, talentos e futuros internacionais, porém, há ali um treinador por perto, mas não aqui.
Nas trocas de acusações, técnicos há que perguntam a outros que jogadores é que fizeram, ao mesmo tempo que outros acusam os primeiros de terem abandonado os escalões de formação, ou seja, o problema visto sociologicamente é grave, só não chegou ainda a passarem a vestir fato e gravato, pois, manias para andar só de grandes carros é o sinal exterior que costuma vir primeiro.
Sim, a opinião pública está a descobrir que agora é considerado ‘auto-despromoção’ um treinador ir trabalhar nas ‘camadas’...
Afinal, além da falta do desporto escolar, nas escolas, haverá treinadores que achem um desperdício trabalhar com os mais jovens? Eu chamaria a esses treinadores, desatentos. Quem trabalha jovens e forja craques, deve saboreá-los até pendurarem as sapatilhas.
Treinar na formação é o caminho mais seguro para o sucesso; um treinador que seja de facto capaz, tanto que forje um par de craques para equilibrar o ‘Cinco’, decerto que pode vir de lá de baixo e do Sub, a ganhar tudo até em seniores.
O Sporting de Luanda treinado por Óscar Coelho, nos Anos 77-80, era isso, vindo juntos dos juvenis, juniores – Primeiro Campeões Juniores de África (1980) - e ssniores, campeões nacionais duma assentada nas três categorias, Lapa, Mayela, Wemba, Zé Carlos, Zezé Assis, com o treinador Óscar F., e ainda campeões outra vez com o seu substituto, António Henriques ‘Tonecas’.
O ciclo havia fechado porque Zé Carlos trocava o Sporting de Luanda, pelo Benfica de Lisboa; Lapa foi estudar para a Alemanha; Zezé abraçou a carreira de treinador; e Óscar Fernandes trocou um posto na Taag, em Luanda, pela chefia da delegação da nossa aviadora em Paris.
Esse, para mim, é o exemplo de formação, de carreira e do que se fazia bem no desporto em Angola, mas acabou. Mas, porquê?
E as conclusões a que se possa chegar são francamente desabonatórias para a nova geração de treinadores. No confronto directo, qualquer treinador estrangeiro vindo depois, terá ganho, salvo erro, mais títulos sozinhos, em clubes e selecção, do que todos os nossos treinadores juntos.
Ora, o que isso quer dizer? E qual será a incógnita dessa equação?
\"Em 10-15 anos vamos pagar as consequências das cotas de treinamento\". Actualmente a Endesa League, liga primo-divisionária de basquetebol masculino da Espanha, é líder mundial na percentagem de estrangeiros que emprega.
\"É hora de desmascarar um mito. A força propulsora para se atrair jogadores, quantitativa e qualitativamente, é única no mundo e parte do minibasket”, sustenta aquele técnico de estatura mundial.
“Depois, haver muitos torneios locais, regionais e nacionais, e a Espanha é um modelo nisso, de formação de base; basta dizer que a selecção nacional começa a trabalhar com crianças de 12 anos.”, enfatizou Scariolo.
“Agora, nas pedreiras de clubes, dois ou três melhores centros são jogadores estrangeiros. No nível de cadetes e de juniores já perdemos competitividade e daqui a 10-15 anos pagaremos as consequências dessa política\", sentenciou o técnico.
Ora, esta reflexão talvez valha mais por ser feita por outro, num caso completamente igual ao nosso e sobre o qual não costumam reflectir suficientemente os próprios angolanos, que somos cada vez mais aportados por jogadores estrangeiros e apartados dos títulos no estrangeiro.
No caso da Espanha, o seleccionador conta como foi a semelhança: “a grande desvantagem é o facto de que a NBA não deixar sair os seus jogadores. Espanha, por exemplo, sem jogadores da NBA e da Euroliga, teve que desistir dos seus 25 melhores jogadores.
“Antecipando esta situação [crítica], no verão passado começamos a preparar as janelas com 14-15 jogadores que agora são a espinha dorsal da equipe que vai jogar no final do ano.
“A priori, ninguém pode considerar uma solução ideal, mas a equipes como a nossa, dá-nos a possibilidade de provar candidatos confiáveis para uma mudança geracional, que já está em andamento”, conclui satisfeito, o técnico italiano da Espanha.
Em 2016/17, a Liga Endesa teve 69,6% de jogadores estrangeiros, percentagem muito elevada em comparação com outras ligas europeias como a França (57,8%), Itália (56%), Grécia (54,9%) e Alemanha (54,1%). A percentagem de estrangeiros cresce a cada ano, enquanto a de jogadores nacionais com menos de 21 caiu para níveis mínimos, colocando a Endesa League entre os piores campeonatos nacionais nesta matéria (7,4% ).
Como o principal problema está nas camadas jovens, a maioria dos clubes seniores, para levantar ou manter o nível, não acredita em dar minutos ou treinar jovens jogadores nacionais com vista a melhorar as suas equipas em um futuro próximo; preferem o curto-prazo e trazer estrangeiros que garantam um desempenho imediato e no curto-prazo.
Enquanto um jogador jovem precisa de minutos para progredir, ele não os recebe e, no final, eles têm menos do que poderiam conseguir, matando as aspirações nacionais da modalidade.
Os clubes angolanos vão precisar de se consciencializar que eles estão a presenciar e a caucionar uma crise sem precedentes, nos 40 e poucos anos da nossa existência.
Além de fazer ouvidos moucos e fingir sofrer de cataratas, os homens do basquetebol dos clubes devem despertar e ainda que sozinhos, mostrarem a sua lucidez ao clube.
É necessário sacrificar e, a partir de 2018-19, haver acordo para que possa jogar no ‘Cinco’ apenas um estrangeiro, ou seja, nenhuma equipa ter dois estrangeiros em campo simultaneamente. Se for feio nos dois primeiros anos, há-de trazer nova fruta logo a seguir, e dessa vez, fruta de Angola.
Não é uma questão de autenticidade, apenas uma questão de economia desportiva e de política desportiva nacional.
Isso também ajudaria mais alguns nacionais a virem para os clubes, acreditando em ter uma chance maior assim, e isso, sim, é defender o basquete nacional e os seus jovens jogadores.
Não se trata, nem nas entrelinhas, de uma proposta xenófoba ou racista. É tão somente uma abordagem das formas desportivas para proteger ou encorajar a pedreira de basquetebol, de futebol. Tanto no basquete quanto no futebol, os clubes recrutam promessas futuras em qualquer lugar do mundo, devendo ser o mesmo quando eles vêm para Angola. Sucede que, não.
Os jogadores estrangeiros ganham de goleada no comparativo custo-benefício, para o basquetebol de Angola. Eles não vêm a Kwanzas, não vêm para ficar e não vêm para se naturalizar e nos representar. Eles têm uma agenda que não é exactamente focada em vir desenvolver o basquetebol de Angola. Este é problema nosso.
E problema um nosso não devia ter uma solução nossa?
E todos esses jogadores descontam para a segurança social e têm a representação de um sindicato?
Os clubes querem safar-se e os atletas, comer, e quando a fome se junta a uma mesa posta embora sem iguarias, mata-se a fome por pouco; e assim, sem grande despesa, vão os jogadores, quase indigentes, sujeitar-se ao desporto que lhes oferecem, e isto devia ser reflexão para o ministério.
Há uma desarticulação de ruptura e uma ilusão muito grande no desporto angolano.
É preciso haver rapidamente um consenso nacional e não se trata de alarmismo, mas de uma política ou projecto transversal que sustente afirmar que em Angola o desporto ainda é governado.
É demasiado o que se gasta anualmente de fundos públicos com este entretenimento sem qualquer legado, a que se possa chamar na actualidade, de desporto federado angolano em desenvolvimento.
E não há nenhuma construção possível, sem primeiro a pedreira.

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