Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

"No h mal que sempre dure"

26 de Outubro, 2016
As coisas começam a ir ao lugar. No meio de um emaranhado de questões que amarram o Futebol e o fazem refém de um tipo de gestão ainda mais derrotado que os próprios “Palancas Negras”, eis que se fez luz no fundo do túnel quando foi anunciado o torneio “tira-barriga” da associação provincial de Futebol (APF) de Luanda, a realizar em pré-temporada.

Antes de mais dizer, seria bom que todos embalassem na mesma cantiga e que nessa hora de tirar a barriga houvesse um torneio semelhante em cada província, possibilitando que até os árbitros e porteiros ensaiassem os seus reflexos e reacções para a temporada, que assim se abriria. E já seria pedir demais que depois houvesse um torneio parecido entre campeões provinciais da abertura.

Deste modo, a APF de Luanda começou a resgatar a sua tradição. Não me desfaço em rasgados elogios porque realmente foi uma coisa que sempre defendi que jamais se devia ter suprimido do calendário – o Torneio de Abertura e a Taça de Honra de cada APF - e tal como um aluno de quadro de honra não faz mais que o seu dever, também a APF de Luanda se redime a resgatar tradições perdidas e a receber o meu encorajamento para voltar atrás.

Se há duas coisas que enfermam o Futebol são o empobrecimento da iniciativa das associações provinciais, a partir dos seus constituintes - os clubes, e a sua cumplicidade, ano após ano, com as assembleias do Futebol, tanto local, como nacional.

Assim que as selecções jovens começassem a ser predominantemente de Luanda, posto que em “Absolutos” os melhores jogadores convergiam para Luanda, era de constituir preocupação provincial, quer o facto de as selecções estarem a ser muito só da capital, quer o facto ainda mais evidente de que os campeonatos nacionais de jovens se resumiram a Luanda e mais dois, praticamente. E essa foi uma desatenção mais do que muito grande, foi tremenda!

O estado actual do Futebol em Angola reflecte isso e diz mais, como por exemplo, estarmos atrasados como há quarenta anos quando se fundou a FAF e vieram dois homens de fora, depois um terceiro, suprir uma falha que há na nossa estrutura de quadros desportivos.

Falo de técnicos de futebol que trouxeram inovação para a saída do amorfismo de final dos anos 70, e foram eles o jugoslavo Skoric, o brasileiro António Clemente, e posteriormente e pela mão de um outro jugoslavo (DusanKondic), o Vesselin Vesco, aqueles a quem se deve o impulso de modernização que sacudiu a herança difícil que havia tido a geração pioneira dos nossos treinadores tais como Chico Ventura, Domingos Inguila, Emílio Ventura, Joca Santinho, e outros. Ficaria mais exaustivamente enumerando se o objectivo fossem os treinadores e seleccionadores.

Deste modo é chegada a hora de gerar mais energias e, além da imitação do “tira-barriga” na primeira divisão, envolver igualmente os clubes alheios ao “Girabola”, e mais adiante, controlar se efectivamente todos esses clubes estão igualmente a trabalhar juvenis, pelo menos, de outro modo denunciar isso e impedir os mesmos de competir, tal como reza uma norma da FAF que nunca ouvi ter caducado.

De outro modo, não será tirar a barriga à primeira divisão de Luanda, que trará o que falta ao Futebol e aos “Palancas Negras”. O que falta é trabalho de qualidade na base e crescimento natural, pois há muito que as selecções testariam garantidas por si e essa auto-sustentabilidade real do Futebol é a base que nos falta. Depois, os homens de marca, claro.

Em breve será Janeiro e viveremos outro CAN pelo binóculo. E confesso que vai ser doloroso nessa altura entretermo-nos com o nosso terminal doméstico de Futebol enquanto a elite continental e até da nossa própria região vai lá estar em mais outro CAN sem nós. E nessa hora destaparemos outra lacuna da casa, que é a falta de uma direcção técnica do Futebol, a pontos de que, se tal for avante, o técnico que cobrirá o CAN e trará a receita para o nosso futebol será o antigo internacional Chipenda. Enquanto o antigo seleccionador Oliveira Gonçalves poderá estar a quilómetros comentando para a televisão.

E o treinador forjado para dirigir os mais jovens, José Kilamba, está ocupado com os mais crescidos, após um seu equivalente para a preparação do futebol jovem, Romeu Filemon, ter errado esse mesmo passo quando saltou degraus também e acabou em seleccionador jovem despedido dos séniores, sem ter regressar aos jovens. E isto não é descontinuar, mais parece desmoronar.

Repare-se que, no final do ano, haverá os jogos de jovens organizados anualmente em torneios de sub-20 e de Sub-17 da associação regional de Futebol (COSAFA) e se há coisa que não faltará na sua bagagem, serão jogos que não fez. É como se levássemos garotos famintos para um corrida de meio fundo, pois, quem mal joga durante o ano já deveria ter engendrado formas de dar jogos aos pré-seleccionados.

A média anual de jogos, na COSAFA, em Sub-17 e em Sub-20 é 3 vezes superior à nossa, mesmo em países pequenos como Lesotho, Maurícias e Swazilândia. E em conclusão não será destes sub-20, pelo menos, que os “Palancas Negras” precisam mais, será dos sub-17. Estes, sim, precisam de ser rapidamente e em força, o próximo alvo do nosso Futebol. O grupo-alvo.

Veio tudo isto a propósito de devolver ao Futebol o que lhe foram tirando. Além de jogos, tiraram-lhe técnica. E o podado durante anos não vai crescer em apenas meses. Ora, sendo jogos e técnica coisas de homens, então até apetece escrutinar quem são os ditos VHF (acrónimo de Verdadeiros Homens do Futebol, da lavra vocabular de Nando Jordão).

Assim e se as forças retrógradas do Futebol não capitularem até ao mundial da Rússia, então onde nos restará ir parar, e em que década tal vai acabar?
ARLINDO MACEDO

Últimas Opinies

  • 22 de Agosto, 2019

    O divrcio anunciado

    Não faz ainda muito tempo do anúncio do divórcio, entre o órgão reitor do futebol nacional e o então seleccionador nacional de honras, o sérvio Srdjan Vasiljevic, que ontem deixou o país.

    Ler mais »

  • 22 de Agosto, 2019

    Corrigir o mal no futebol (I)

    A semana passada terminei o artigo com a seguinte sentença: “(…) é importante mudar de estratégia

    Ler mais »

  • 22 de Agosto, 2019

    Mais um falso arranque do Interclube

    Para o desalento dos prosélitos do futebol sénior masculino, as cortinas do Girabola Zap, versão 2019/20, foram descerradas com máculas na jornada inaugural que, mais uma vez, põem em causa a capacidade organizativa da Federação Angolana de Futebol (FAF), que parece apostada numa competição em que é premiada a instituição que mais erros comete ao longo do “consulado”.

    Ler mais »

  • 19 de Agosto, 2019

    O pas dos amigalhaos

    Foi recentemente anunciada a rescisão contratual do treinador Srdjan Vasilevic com a Federação Angolana de Futebol.

    Ler mais »

  • 19 de Agosto, 2019

    Como causar impacto atravs do marketing?

    De facto, para que se crie um impacto forte e eficaz através do marketing desportivo, é indispensável que os clubes e federações deem atenção ao formato comunicativo a ser utilizado.

    Ler mais »

Ver todas »