Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

No se cansam de ser malfeitores?

02 de Agosto, 2017
Mudar de república devia ser algo mais profundo do que apenas renovar mandatos; no desporto devia-se renovar também as motivações, os motivos e os motivadores. Está tudo demasiado ocupado com os seus próprios interesses e negócios e assim fica difícil e desajustado fazer-se passar por um servidor público. E o desporto está cheio destes.

Entrar na V República deveria chegar com promessas de corrigir rumos, melhorar os servidores públicos e moralizar o sector; por ironia, um sector que devia educar e formar homens desde pequeninos. E hoje já indisfarçado ninguém demonstra que os pequenos são os que importam mais.Angola investiu extremamente no desporto, para muito pouco retorno; os gastos com modernos, mas sobredimensionados recintos desportivos, deviam condizer com milhares de jovens, semanalmente, a treinar e a competir, corporizando assim um movimento desportivo digno deste nome, que não temos, pois, tal significava haver uma envolvente social grande, que não vemos como devia ser.

As etapas da descaracterização sumária por que passou o desporto sintetizam-se em que os novos dirigentes desportivos são na sua maioria falsos que se apoderaram do voto de assembleias pouco responsáveis que os deixam aniquilar o desporto sob as suas formas mais simples, espontâneas e puras, que é o amadorismo.O que serve a profissionalização do futebol se cada vez jogamos pior e estamos cada vez mais parados na cauda das classificações; então chegar ao CHAN pode constituir objectivo maior para uma nação que já foi mundialista de futebol?

Andar à nora para arranjar adversários com quem treinar e não saber como fazer das tripas, coração para bater forte no Afrobasket, é condição desportiva que Angola possa lá aceitar, e se sim, por quanto tempo mais? Quantos mais recursos serão gastos a ‘contratar’ estrangeiros, em troca de se sacrificar os nacionais, e ainda por cima nem as taças dos campeões arrebatarem mais.

A segui, não quero parecer rubro-negro, pois nem sou, excepto no bilhete de identidade nacional; mas quero mais uma vez homenagear o Primeiro de Agosto por, mais que o agora falido Petro Atlético, ter sabido apostar no desenvolvimento do andebol a partir dos juvenis. E o termo ‘falido’ Petro deveu-se a que o clube, procurando aligeirar custos, quis desfazer-se do andebol masculino, a quem disse não ter mais que 30 mil para pagar mensalmente, e ainda assim os atletas preferiram ficar. Pois, entende-se, está difícil para quase todos.

Portanto, vivemos a crise desportiva que vivemos precede a do preço do petróleo e para os mais avisados e atentos, era a altura de poupar água para continuar a regar os canteiros e rezar para dar frutos rápido, ao invés de deixar morrer os rebentos. Vejamos o basquetebol, agora, cujos sub-17 ficaram sem um ciclo competitivo, que voltarão a ter daqui a dois anos, quando já forem Sub-19, certamente coxos. Porque há etapas no desporto, aliás como em tudo na vida, que não são para se saltar, mas para serem vividas, pois elas trazem o crescimento certo.

Exemplo disso continuam a ser os futebolistas, que em Angola se fazem a partir de muito tarde, quase peludos. E então pergunto, desde quando, o dito melhor futebolista de Angola teria de andar a suplicar a Jesus para jogar no Sporting principal? Mas perguntem agora ao Joaquim Dinis ‘Brinca n’Areia’ se não teria vergonha de entrar em Alvalade a dizer-se padrinho do jovem! Claro que lhe perguntariam, ‘bocês em Angola andam a fazer o quê’?

Não nos serve um ministério ausente e a remeter-se à posição de que são as federações quem faz o desporto; o ministério tem que servir para muito mais, do que regulador adormecido; deve ser tão vivo como quando anda a privatizar o uso das infra-estruturas escondidamente em parcerias público-privadas que pecam logo por não nascerem de um concurso aberto e limpo, sem depois um regulamento que atasse as mãos aos gestores que quisessem obter carros caros dos rendimentos dali. Porque há uma diferença entre gerir um bem público e um bem privado, sendo que lucro é para os últimos, e poder servir é para os primeiros.

E assim se frustra o ‘investimento’, se lesa o desporto e se perdem os melhores desportistas. Chego a pensar que na mentalidade de muitos, quiçá da maioria, desporto devia ser só futebol, e o resto para portadores da deficiência do jeito. É que as medidas que se tomam levam-nos para outras modalidades cada vez mais magras, a mandar vir esteroides do estrangeiro, ao invés de melhorar a dieta desportiva nacional, que passaria por maior racionalismo e perspectiva.

O erro é tanto mais de estratégia no desporto, que a tendência para daqui a pouco só se ver futebol em algumas províncias, isso representar um empobrecimento cultural agressivo, uma radicalização própria de medidas estúpidas mesmo internamente nos clubes, pois apostar a meio da corrida e no cavalo errado costuma resultar no que estamos a ver, no futebol que temos; desde quando os objectivos de Angola foram chegar ao CHAN? Mas o futebol é somente um exemplo, não o tema.

Continuemos a falar de incoerências no desporto. Para trás fica a falta de importância que se deu à formação de quadros técnicos, à competição jovem, e à racionalização nos gastos; quero ver os presidentes a andar em classe económica, os prémios das selecções a ser discutidos ainda em terra e na base de que ‘quem não quiser, que fique’, pois, se uma doença requerer rapar o cabelo, rapemos o cabelo do futebol e olhemos mais para os pés em que ele deve assentar.

Vamos falar da lei. Depois de tanta ânsia, a lei do mecenato ainda espera longamente por um regulamento, ou seja, ninguém lhe deu a importância nem urgência necessárias. Mas faz parte do jogo, pois, o desporto não passa de distracção, só que poderia haver distracções bem mais baratas e mais acessíveis. É como se te dissessem, não te esmeres que isso pouco importa agora. E aí sentes saudades de quando o desporto importava porque era chave-mestra.

Ao perder isso, perdemos o garbo, o sentimento nacional, o empenho e o orgulho que nos movia; agora somos movidos pelo orgulho de ser presidente e o desfecho dele trazer-nos nada. Já ninguém sente vergonha de fracassar, nem de se apoderar do alheio. E também já ninguém pune quem merecia.

Então vejamos suficientemente a lei. Nenhum clube pode existir com menos de três modalidades; e nenhum pode ter só uma categoria e classe. Os clubes devem ser ecléticos, mesmo sendo falidos. E isso é irrealismo.Na pobreza crescente do país importa que o desporto seja uma actividade que dê às pessoas e aos jovens em particular, uma alma melhor. Já não basta as municipalidade descaminharem os subsídios para a cultura física e recreação da população, e ainda a lei coloca entraves à organização desportiva da sociedade. Por que é que não se deveria criar um período de excepção à guisa de fomento?

Se o fazendeiro Chico Migalhas tiver lá no Cunene uma juventude camponesa e pecuária muito esbelta e atlética, ensinando-os a distrair-se a meter a bola do outro lado da rede, porque é que o GDRFCM – Grupo Desportivo e Recreativo da Fazenda Chico Migalhas, mais conhecido por ‘Migalhas’ não há-de poder existir entrar no torneio regional de voleibol?

Outro exemplo de incongruência: uma equipa jovem e feminina de andebol, satélite do Primeiro de Agosto, foi impedida de entrar no campeonato nacional sénior após ter sido campeã provincial, pois, só poderia haver um Primeiro de Agosto em campo. Mas, olhando para o basquetebol, todos sabem que a Marinha de Guerra é satélite do Primeiro de Agosto, mas entra no campeonato nacional. Então o problema das Andebolistas seria o do nome? E se numa província só houver um clube, e deste nascerem 4 sub-equipas, não se tem campeonato porque são todos filhos da mesma mãe?

Assim sendo, como se irá fomentar o desporto nas províncias sem um clube ou sem um campeonato ainda? Como se poderá abarcar toda a massa jovem deambulante e motivar desportivamente com tamanhos entraves e desfasamento? Ou será que isto se deve a não tirar o impacto à projectada massificação que a V República vai inaugurar como sendo algo transcendente, mas que realmente é um feto defeituoso porque já se viu que não haverá clubes para absorver os expoentes máximos que advirão das fileiras da tal chamada massificação, até porque nem há monitores para distribuir equitativa e nacionalmente em prol desse sonho mirabolante, talvez a pensar nos ganhos com tanto equipamento que vai rolar por esse país fora...

Pois, temos muito disto, é nosso e já típico: gostamos de nos imaginar iguais ao mundo da nossa maneira. Copiamos quase tudo, incluindo a organização do ministério, mas esquecemo-nos da nossa peculiaridade, algo assim como dificuldade de adaptar a nós os manuais copiados. Reparem que até para saber onde se deve começar a fazer desporto na juventude, fomos buscar ‘pensólogos’ a Portugal e por sinal vieram alguns que haviam deixado vivo em Angola um sistema igual ao que agora queremos ressuscitar, mas falta-nos a vergonha, ou isso jamais teria acontecido. Refiro-me a terem matado o desporto escolar.

Como o tema tem pano para mangas, remato a concluir por hoje, que é um disparate pensar em reconstrução nacional sem primeiro reconstruir o viveiro de quadros, os recursos humanos. E não basta terem diplomas, como agora é voga fazerem com os ‘doutores’ mal cursados; é preciso, por exemplo, não açambarcar no ministério os Professores como Victorino Cunha, mas coloca-los verdadeiramente ao serviço do desenvolvimento nacional, o que no caso de V. Cunha seria o renascimento do desporto nacional. Tal como o desporto escolar, Angola já fazia desporto a sério antes dele ser entregue a curiosos e falsos doutores.
Arlindo Macedo

Últimas Opinies

  • 13 de Agosto, 2018

    Marketing desportivo no vai morrer amanh!

    Que o desporto e o marketing estão numa relação do tipo, “ epá sem ti eu não vivo, e sem você eu não existo”, já algum tempo, isso todos nós sabemos.

    Ler mais »

  • 13 de Agosto, 2018

    Devedores do BPC e o exemplo de Messi

    Não quero citar aqui os nomes, porque quem vive na cidade sabe quem são... mas isto posso dizer: algumas das figuras do nosso desporto nacional, e do futebol em particular, todos eles revelados o ano passado,  numa assustadora lista que veio a público, não se sabe porque engenharia, como tendo afinal contraído créditos agora mal parado, no maior banco público nacional -  e estou a falar do Banco de Poupança e Crédito -  é um assunto, é uma realidade, que vem destapar o véu e dar a ver que há clubes da batota, que só estão na alta roda do nosso campeonato, porque os dinheiros que os sustentam não são honrados.

    Ler mais »

  • 13 de Agosto, 2018

    Citaes

    Muitos clubes participaram nos seus campeonatos locais provinciais, mas não estavam legais do ponto de vista administrativo. Alguns processos podem levar algum tempo e, para não criármos dificuldades, tivemos que devolver.

    Ler mais »

  • 11 de Agosto, 2018

    "Quatro anos sem pena"

    Em duas ocasiões recentes Angola acaba de ver consagrado Demarte Pena em Top Angolano do desporto, enquanto no espaço de menos dum mês arrebatou os Prémios ‘Globo de Ouro’ e ‘Novo Jornal & Expansão’, referentes a 2017.

    Ler mais »

  • 11 de Agosto, 2018

    Maputo o alvo a seguir do pas

    Angola é um país que, desde muito cedo, começou a se afirmar na arena do desporto. Nesse aspecto é conveniente realçar que, logo após a conquista da Independência Nacional.

    Ler mais »

Ver todas »